Guilherme Smee: Horror, sexualidade e gênero de mãos dadas em Sandman

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Corria o ano de 2000 e eu me deparei na livraria com um livro chamado Você já sonhou em escrever um livro?. Um título deveras magnético. Folheando um pouco o livro, eu, que na época nunca tinha ouvido falar numa oficina literária, resolvi adquiri-lo. Lá pelas tantas, dentro do seu curso de criação literária em forma de livro, a autora, que não me recordo o nome, fala da importância de prestar a atenção para os detalhes. Ela pergunta “quantos parafusos você viu hoje?”. Uma pergunta de difícil resposta, porque não costumamos prestar a atenção para este tipo de coisa. Para exemplificar, então, ela disse que os detalhes na literatura são como os parafusos, quando passamos a perceber eles, saberemos como contá-los e quantificá-los também.

Corta para mais alguns anos para a frente, estou lidando com o fato de me assumir homossexual e começo a notar os homens não como algo proibido, mas algo com potencial para um relacionamento. Detalhes da minha vida que antes não passavam pela cabeça. Observar homens era algo para o reino da imaginação, não existia nenhuma potencialidade naquilo. Naquele momento, então, passava a existir. Os homens nas ruas passavam a ser devires e quando o sorriso deles abria em anuência com o meu, significava que os detalhes passavam a ser possibilidades de contar uma nova história. Como em Você já pensou em escrever um livro?, homens que sorriam para mim, na rua, nas festas, nas baladas, eram parafusos. A partir de então eu comentava quantos “parafusos” havia visto naquele dia com meus amigos virtuais no MSN, para quem eu já havia “saído do armário” muito antes do que para os amigos do mundo real.

Essa parábola dos parafusos e a atenção para os detalhes do que fazem um homossexual se reconhecer no outro, o jogo de corpo e de olhares, de gestos e tentativas, mostram o quanto nós, LGBTs, precisamos recorrer à dinâmica de visibilidade e invisibilidade, de virtualidades e realizações para que nossos relacionamentos se concretizem.

Contudo, agora, num mundo de aplicativos de pegação, tudo é muito mais facilitado, essas características andam lado a lado. O se fazer ver também é o se manter em segredo e o ser virtual também é aquele que materializa as relações. De certa forma, essa materialização das relações ainda se mantém clandestina: no motel, no carro, nas saunas, em diversos lugares que não são espaços legitimados de um casal.

O modo clandestino das representações dos relacionamentos ou das pessoas queer na cultura pop foi, até finais da década de 2000, um deciframento de parafusos. Nem todas as pessoas sabiam reconhecer os homossexuais e nem todos os homossexuais ou, ainda, pessoas queer se viam representados por trabalhos feitos na cultura pop. Era preciso ser realmente um “entendido” para que se soubesse diferenciar os termos gay de travesti, transexual de drag queen, por exemplo.

Mas desde 1988, uma série em quadrinhos vinha fazendo pelas subculturas urbanas, como a cultura queer, o que nenhuma outra série conseguiu atingir. Na série Sandman, do premiado escritor inglês Neil Gaiman, era possível entender “para que serviam” as nomenclaturas citadas acima e por que elas geram tanta confusão nas pessoas. Durante a série desfilaram diversos personagens queer, que falarei sobre eles um pouco mais além. Antes, preciso contar sobre o que Sandman se propunha a falar.

A série em quadrinhos Sandman era uma releitura de um personagem homônimo da Era de Ouro dos quadrinhos. Seu mote era que ele dispara jatos de gás do sono nos inimigos para que estes adormecessem. Na releitura de Gaiman, o personagem principal é Lorde Morpheus, uma entidade que rege o mundo do Sonhar, para onde todos nós vamos enquanto dormimos. Junto a ele, em outros domínios, estão seus irmãos, os Perpétuos, outras entidades que encarnam conceitos humanos como a Morte, o Destino, a Destruição, o Desejo, o Desespero e o Delírio. O interessante é que, com esses conceitos humanos tendo vidas humanas, eles também lidam com necessidades e erros humanos, como era de praxe com os deuses da mitologia greco-romana. A série gira em torno, então, da libertação de Lorde Morpheus e sua busca por redenção após ter cometido um erro fatal.

Mas o que diferenciou Sandman de uma outra série qualquer de quadrinhos voltados para um público de leitores maduros – seja lá o que isso queira dizer -, foram os temas e subtemas com os quais ele lidava. Se por vezes avançava em temas metafísicos como a imortalidade, Gaiman o trabalhava sob aspectos ao alcance de nós, como a frustração com o amor ou com as ilusões que construímos para nós durante a vida. Se algumas histórias possuíam um tom de terror, outras nos fazem encontrar Mark Twain, Marco Pólo, Shakespeare, Júlio César. Assim, a série ganhou conotações literárias e uma densidade de referências jamais vistas numa história em quadrinhos mainstream. Afinal, Sandman saía pela mesma editora do Batman e do Superman.

Algumas dessas referências, portanto, se utilizavam de elementos de subculturas urbanas como as tribos dos darks e dos góticos, muito populares no final dos anos 1980 e começo dos 1990. Inspiraram tanto os visuais de Morte e Sonho que pareciam ter vindo de Os Fantasmas se Divertem ou Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton. As culturas BDSM e LGBT também estavam bastante presentes na série. As personagens dos Perpétuos assumiram visuais de uma moda unissex, bastante em voga naquela época, e desafiavam padrões de gênero.

Quem mais desafiava esse padrão era o/a Desejo, o/a irmão do meio dos Perpétuos que apresentava os dois sexos e se comportava como alguém que hoje se chama gênero-fluído, agênero ou não-binário. Desejo era uma bitch, sempre manipulando seu irmãos para fazerem suas vontades.

Mas o desejo humano também não é assim? Manipula a todos para fazer todas as suas vontade e nos deixa nos braços de sua irmã gêmea, a Desespero, que adora se machucar e machucar cada vez mais com seu gancho, raspando a pele em dor porque foi vítima do desejo?

Era Desejo, então, que me fazia sorrir para os garotos e eles sorrirem de volta, confirmando que sentiam a mesma atração, o mesmo desejo, mesmo que depois, com o relacionamento frustrado, eu tivesse que recorrer a tantos outros irmãos, Desespero, Destruição, Delírio e quem sabe até Sonho, Destino e Morte. Era Desejo que me fazia enxergar os parafusos no meu cotidiano, mas também era o desejo que me fazia ver e fazer sorrisos para peças que não se encaixam na engrenagem. Como quando um homossexual se apaixona por um heterossexual. Ali era, mais uma vez, Desejo manipulador(a), a bitch, criando uma impossibilidade para que cada vez mais eu me deparasse com a sua irmã gêmea, a mais nua e crua Desespero.

Mas reparar nos parafusos não é só isso. É reparar em pessoas que estão na mesma situação que a gente, tentando se encaixar numa engrenagem que mói e dilacera o diferente para depois cuspi-lo como menos que uma pessoa. Era eu encarar na história em quadrinhos o dilema de outra personagem, Alan/Wanda, uma drag queen que estava numa transição para mulher e que não se encaixava nem no mundo masculino e nem no mundo feminino. Suprema humilhação de Wanda foi não poder ajudar sua amiga Barbie em um feitiço porque a deusa tríplice só aceitava mulheres, aquelas que sangram, nele. Wanda não se encaixava nem corporalmente e nem cosmicamente no gênero que desejava. E Desejo, como sabemos, é uma bitch…

Já suas amigas lésbicas, Hazel e Foxglove, que moravam na mesma pensão, iriam ter um filho juntas. Mas esse filho não seria adotado. Seria produto de uma noite de bebedeira de Hazel com um garçom que jurava ser gay. Mais para a frente, as duas farão um pacto com a Morte pela vida do bebê: uma delas deixará este mundo para que o filho sobreviva. As histórias de Neil Gaiman são assim: se por um lado envolvem temas cósmico e fenomenais, por outro serão as histórias mais pé no chão e que calam mais fundo que você vai ler. Isso porque ele usa o recurso de materializar os sentimentos e conceitos humanos e, assim torna o que seria um terror cósmico num terror próximo, ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil de lidar.

Assim como é um terror cósmico próximo e fácil e difícil de lidar a extensão de combinações que o gênero produz na nossa sociedade e na nossa cultura. É um terror cósmico porque desestabiliza certezas estanques e solapadas, assim como descobrir que você pode ser único na vastidão de uma existência universal. É fácil e difícil de lidar, porque como todas as questões humanas, ele abre uma miríade de possibilidades para os outros e para nós mesmos que nunca pudemos sequer desconfiar. As possibilidades são sempre micro terrores nas nossas vidas e Neil Gaiman sabe trabalhar este fator muito bem.

Perder as nossas raízes, nossas tradições, nossas certezas, nossas referências é algo da natureza do horror. As pessoas que não sabem relativizar o gênero estão aterrorizadas, têm medo, porque isso pode acontecer com uma delas ou com alguém que elas amam. Elas temem aquilo que não conhecem e, por não enfrentarem novas realidades, novas camadas de leituras e novas possibilidades, se revelam covardes. Assim como alguém que não quer assistir a um filme de terror com medo de ver aquilo que não quer. É melhor fechar os olhos e ignorar.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s