Minha rotina: Caio Riter

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

Professor, mestre e doutor em Literatura Brasileira, membro da Academia Rio-grandense de Letras, Caio Riter tem uma obra extensa que está em construção desde 1994, quando lançou seu primeiro livro. Desde então, já recebeu algumas distinções literárias, como os prêmios Açorianos, Barco a Vapor, AGEs, Orígenes Lessa e Selo Altamente Recomendável, entre outros. Reconhecido pela literatura para infância e adolescência, segmento no qual tornou-se um dos principais nomes no Brasil, Caio já publicou também alguns livros para público adulto – caso de Os saberes da água, seu mais recente lançamento, em 2019, pela Editora Ates & Ecos.

Entrevistado deste edição da série Minha rotina, o autor revela alguns dos seus métodos de trabalho e compartilha algumas fotos de seus locais de escrita e leitura. Confira abaixo!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Existe uma rotina, mas ela não é diária. Não costumo escrever todos os dias, embora entenda a escrita não apenas como o momento estrito em que arranjo as palavras na página. Entendo que, do escrever, faz parte o processo todo: o surgimento da ideia; a vontade de que esta ideia vire texto; a experimentação e a problematização dos rumos que as palavras irão (ou poderão) tomar; as escolhas estruturais; enfim tudo o que antecede o momento em que paro diante da página vazia para encher-lhe com o que já está, de certa forma, construído no dentro de mim.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Sim, costumo fazer um esquema básico. Dele, fazem parte a delineação do personagem principal (no caso da narrativa), assim como seu conflito maior, aquele que foi o gerador da história. Não creio em narrativa que não nasça de uma dor, e esta dor pode ser algo existencial ou apenas um das tantas dores pontuais do viver. E gosto de organizar de forma manuscrita: acredito que a caneta é melhor companhia para o planejamento do que o teclado, visto que é o momento de testar possibilidades e de escolher caminhos para a escrita, caso, de fato, ela se torne necessária. A este esquema inicial, costumo chamar de esqueleto. No decorrer da escrita, ele vai enchendo-se de carnes e recebendo sua identidade.

Fotos: divulgação

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Sou pessoa que se distrai bastante nos entretempos da escrita. Preciso destes vazios, preciso me afastar um pouco do que escrevo; não sei ficar preso ao texto durante muito tempo, mesmo que saiba os caminhos que meus personagens irão trilhar. Faço pausas, necessito delas: é como se fossem alívio para aquelas ações, para aquelas dores não minhas (mas minhas também), as quais procuro conceder verdade por meio das palavras. Aí, ando pelo pátio, mexo na terra e nas plantas, brinco com as cachorras. Vejo séries, ouço música, leio ou só me deixo ficar deitado na rede, navegando pela virtualidade. Às vezes, escrevo um poema.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Não sou profundo conhecedor de outros recursos: o word me basta. Acho-o de simples uso, em virtude de nos conhecermos há tempo. Mas não abro mão da escrita manuscrita. Gosto do raspar da caneta no papel. Tenho alguns cadernos (faço isso desde 2000) em que registro um pouco de mim, do que penso, do que percebo. Não é diário, pois não escrevo diariamente. Nestes cadernos, registros alguns poemas, anoto possibilidades de livros (alguns se tornam narrativa, ou não). Aliás, o meu mais recente livro, que tem o título provisório de O sobrevivente, foi escrito na íntegra nestes cadernos. Há muito eu não fazia isso: escrever um livro em sua totalidade de forma manuscrita. Julguei que a estrutura necessitava de um registro mais visceral e me pareceu que a caneta no papel permitiria, com mais intensidade, que meu personagem se revelasse. Agora, estou no processo de digitação, meio arrependido de ter escrito à mão, em virtude do trabalho dobrado. Trabalho, aliás, que está possibilitando a reescrita no ato próprio da escrita. Quanto à organização, embora seja capricorniano, apenas abro pastas anuais e nelas vou pondo aquilo que produzo em cada ano: livros, poemas, artigos, entrevistas. Enfim.

O que um escritor precisa para escrever?
Difícil falar por todos, generalizar. Sei que não é isso que a pergunta deseja, sei que querem saber da minha pessoalidade, todavia, como coordeno oficinas literárias, temo que minha resposta possa parecer lei. Não é. Falo por mim e também a partir de minha postura leitora, que me aproxima ou me afasta de alguns textos e de alguns autores. Creio que um bom texto necessita ter emoção. É preciso que o escritor seja capaz de, por meio das palavras, do arranjo estético das palavras, comunicar, com a sua verdade, as dores do viver, o mergulho à essencialidade do ser. É preciso conseguir se desterritorializar, sair de sua experiência para poder mergulhar na experiência daquele que não é mais ele, mas também é ele. E, se pensarmos em termos mais práticos e utilitários, o escritor precisa conhecer a sua língua, precisa ser um bom (e frequente leitor), a fim de poder subverter o dizer comum, eivá-lo de emoção comunicante e de pequenos prazeres estéticos com a linguagem. Enfim, todo o escritor necessita ser leitor de si, dos outros, do mundo, da literatura não sua.

O que você está escrevendo no momento?
No momento, como já referi, estou envolvido com a digitação de O sobrevivente, uma novela para adolescentes, que narra as agruras de Francisco, um jovem que perdeu a mãe aos nove anos, fato que marcará sua infância e sua adolescência. Também retomei um projeto de romance, já concluído, mas que, creio, ainda necessita de ajustes. Chama-se Maré, o encontro de um pai com seu provável filho. Porém, o que mais tem me encantado é a produção de um texto a muitas mãos, que estou criando com o pessoal do grupo Seis + 1. Se escrever sozinho é desafiante, criar a partir de diferentes olhares e desejos abre um universo instigante na relação com as palavras, além de, neste tempo de isolamento, promover a abertura ao outro, à subjetividade do outro, aos recursos literários do outro. O ato egoísta da escrita precisa render-se a vontades já não apenas minhas. Assim, o livro que está surgindo, ainda sem título, terá autoria múltipla e tem como mote um evento surreal, que aprisiona algumas pessoas no interior do prédio em que moram. Fazem parte do grupo Seis + 1, além de mim, o Alexandre Brito, o Antônio Schimeneck, o Christian David, a Gláucia de Souza e a Laura Castilhos.

Os saberes da água
Caio Riter
Poesia
62 p.
14 x 21 cm
978-85-93459-19-1
R$ 35
Artes & Ecos

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