Menalton Braff: um ser desenraizado

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A partir de hoje, Literatura RS inaugura a tag arquivo lrs, que vai concentrar as entrevistas produzidas originalmente para o Facebook desde que a página foi criada, em dezembro de 2014. A estreia ocorre com Menalton Braff, publicada em facebook.com/literaturars em 30 de dezembro de 2014.

Com 21 livros publicados e dois outros no prelo, Menalton Braff é um escritor brasileiro em busca de um resgate pela sua origem gaúcha. Nascido em Taquara, em 1938, Menalton reside em São Paulo desde 1965, embora sinta-se “gaúcho como os que mais o são”, em suas palavras. Foi São Paulo a terra que viu sua literatura florescer, crescer e acumular prêmios e indicações. Vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria Livro do Ano – Ficção, em 2000; frequente finalista e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura; finalista do Prêmio São Paulo de Literatura por mais de uma vez; selecionado pelo PNBE em 2010; Menção Honrosa no 50º Prêmio Casa de las Américas, em Havana; o ex-professor de literatura Menalton tem um currículo admirável. Nesta entrevista, o autor fala sobre obra, mercado, escrita, Brasil e Rio Grande do Sul. Confira!

Você acha que sua residência em São Paulo há tantos anos o afasta do círculo literário de sua terra natal?
Claro que até certo ponto fico alheio aos acontecimentos e notícias da Porto Alegre literária. Mas tenho por aí alguns amigos, como o Luís Dill, o Caio Riter, a Cíntia Moscovich, o Charles Kiefer, o Henrique Schneider, o Jari da Rocha. As notícias que me chegam são escassas, então fico meio solteiro nesta história.

Suas primeiras obras foram publicadas em 1984, ano seguido de um hiato que se estendeu até os anos 2000, quando sua produção estourou em prêmios e indicações. Por que esse intervalo?
Foi o tempo do aprendizado. Muita leitura de textos metaliterários e textos literários. Foram mais de dez anos em que pouco escrevi, mas devorei o que pude de teoria e literatura. E o que escrevia, quase tudo, jogava no lixo, inconformado com a qualidade. Ou não tinha consciência de que era um intervalo, nem me via publicando o que quer que seja. Mas sentia angústia pelo muito que não conhecia de técnicas narrativas, de teoria da literatura, e de obras literárias. Lia muito e com paixão, mas não imaginava o que eram as obras fundamentais da literatura universal.

Você publicou por diversas editoras de alcance nacional, como FTD, Bertrand Brasil, Nova Fronteira e Global. Como você construiu essa aproximação com tantas casas editoriais?
Eu trabalhei quase o tempo todo com agentes literários, que encaminhavam meus livros de acordo com seus conhecimentos das linhas editoriais. E isso tudo só foi possível depois de, publicado por uma pequena editora de Ribeirão Preto – que não existe mais – ter conquistado um Jabuti.

Há mais São Paulo ou Rio Grande do Sul no espírito de sua obra?
Segundo me parece, e não sou o melhor analista de minha obra, não há São Paulo nem Rio Grande do Sul. Como um ser desenraizado, minha tendência foi quase sempre não marcar tempo tampouco espaço: acronotopia, se é possível o termo de gosto bakhtiniano.

Como você avalia o mercado editorial do Brasil no momento?
Difícil. No Brasil lê-se pouco e mal, muito mal. As livrarias entopem suas prateleiras com auto-ajuda, Best Sellers de gosto duvidoso, e isso por uma razão muito simples: literatura, mas literatura mesmo, quase não se lê. As edições de escritores brasileiros são pequenas e demoram muito para desovar. Se o público não procura literatura, e falo em literatura como alta literatura segundo o conceito da professora Leyla Perrone-Moisés, ninguém quer arriscar seu capital com um artigo de pequeníssimo mercado. Mas então resta uma pergunta: fazer o quê, para reverter a situação? Não sei se a situação é reversível, mas nós, a maioria dos escritores brasileiros de literatura, continuamos escrevendo porque isso é um modo de nos mantermos vivos, de sentir que ainda há vida em nossas veias.

Além do Rio dos Sinos
Menalton Braff
280 p.
14 x 20 cm
R$ 44
Reformatório
Compre aqui

Literatura RS, 2014. Disponível em: https://www.facebook.com/literaturars/photos/a.689246214526426/692592997525081/?type=3 . Acesso em: 07 de outubro de 2020.

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