Guilherme Smee: Roteiro para viajar no seu quadrinho

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

É muito comum encontrar diversos fãs de histórias em quadrinhos que acreditam que podem escrever a sua narrativa sem nenhum estudo ou sem entender as dinâmicas da arte sequencial. Mais fácil é encontrar pessoas que querem se dedicar aos estudos dos desenhos, pois estes sim, exigem dedicação e compromisso. Para esses alguns, o roteiro é uma arte menor, que não prescinde de um mergulho nas técnicas e nas formas de narrar. Ter uma crença nisso é como acreditar que um escritor já nasce pronto e que ele não deve procurar oficinas de criação literária ou outros cursos de escrita criativa para se aprimorar. Acreditar que um roteirista de histórias em quadrinhos não pode ser formado é acreditar que ou se nasce com o dom de escrever ou não, quando muitos de nós que trabalhamos com este tipo de escrita sabe que muito dela vem do esforço de escrever, reescrever, escrever de novo e reescrever de novo.

Ninguém nasce com dons, a não ser a Bela Adormecida que ganhou os seus das fadas madrinhas quando veio ao mundo. Acreditar em dons é acreditar em um mito de como seriam originadas as criações, de que existe uma cosmogonia para toda obra de arte que foi colocada no mundo e que elas surgiram de algum ritual mágico que o escritor fez, como alguns gostam de divulgar. Mas não é magia, é tecnologia, ou seja, aquele velho ditado da criação que diz que tudo é 1% de inspiração e 99% de transpiração.

Mas o que é um roteiro de histórias em quadrinhos e como ele funciona?

Escrever um roteiro para uma história em quadrinhos não é somente colocar os diálogos e as legendas sobre um desenho. Eu tinha essa crença de que bastavam apenas os diálogos quando era uma criança e, como não tinha paciência para desenhar todas as histórias que eu queria. Eu preferia somente escrever os diálogos. Mas a minha grande dúvida permanecia. Não adianta somente escrever um monte de diálogos sem saber que espaço eles vão ocupar nos quadros e quantas páginas cada um deles vai ter. Assim eu posso ter uma história em quadrinhos infinita. Se eu estiver pensando em um determinado tipo de HQ a ser lançada no digital, até posso ter em mente uma HQ com rolagem de tela infinita, mas e se for impressa em papel? Papel não é infinito e nem tem um custo barato. Mesmo se eu quiser distribuir essa HQ em formato PDF ela vai necessitar um limite de páginas e de diálogos por quadros.

Outra coisa que me afligia quando eu fui entender melhor da mecânica de uma história em quadrinhos era quantos quadros precisava durar uma ação de um personagem. Se meu personagem precisa atender uma porta e levar um susto com quem ele recebe, em quantos quadros eu preciso quebrar esta cena para que ela funcione corretamente e seja bem interpretada na cabeça do meu leitor?

A resposta para essa questão eu ainda não descobri. Não existe uma forma correta de representar uma cena de uma história em quadrinhos. Quadrinhos são feitos de escolhas. Do que mostrar e do que não mostrar. Do que revelar e do que omitir. Para saber como esse tipo de jogo de mostrar e esconder funciona é preciso pensar em uma ferramenta muito importante e que ajuda a não cansar o leitor, que é o ritmo.

Reprodução

Assim como na música e na dança, é preciso aplicar uma cadência para o roteiro de uma história em quadrinhos para que a narrativa não fique enfadonha. É preciso pensar bem os crescimentos de suspense e os climaxes de cada cena e entender como uma virada de página pode ser essencial. Uma música e um número de dança que se colocam na mesma cadência o tempo inteiro não podem ser considerados aquilo que se propõem. Ou serão considerados um ruído ou um movimento maquinal e perpétuo. O mesmo pode ser falado de um texto literário e, como um roteiro é um texto literário de alguma forma, é preciso aplicar ritmo a ele.

Falei bastante sobre o que não é um roteiro de histórias em quadrinhos mas não trouxe uma definição para ele. Já resolvo isso. Um conceito sobre roteiro que eu gosto é que ele se trata de algo parecido como um guia. Imagine um guia de viagens, você precisa saber dos melhores lugares para visitar, para comer e para se hospedar. Imagine que para que essa viagem dê certo, você conta com um especialista para cada item da viagem. Cada um deles irá preparar essa viagem através de seus olhares e gostos para produzir o guia de viagens ideal sobre um determinado lugar do mundo. Assim também é uma história em quadrinhos: os especialistas em texto, desenho, arte-final, cores, letreiramento e edição vão conduzir você por uma viagem pela narrativa. Um roteiro de quadrinhos é para o leitor final o próprio guia de viagem pela narrativa de quadrinhos que ali se apresenta. Para os especialistas que vão produzir aquela história em quadrinhos, o roteiro, contudo, é mais parecido com um mapa rodoviário, são as retas, as curvas, as paradas e os pontos principais que os profissionais dos quadrinhos, orientados pelo roteirista deverão seguir para chegar ao lugar onde todos poderão usufruir desta viagem do começo ao fim.

Nesse sentido, um roteiro de histórias em quadrinhos não se diferencia muito de um roteiro cinematográfico. Mas preciso dizer, de verdade, que os dois são bem diferentes um do outro. Se o roteiro de cinema é cru, o roteiro para histórias em quadrinhos é cozido. Se o primeiro é objetivo, o segundo é mais subjetivo. Se no primeiro o visual conta com diversos profissionais de cena, no segundo são apenas um punhado de funções. Assim, em resumo, um roteiro de cinema não possui descrições de cena e nem de planos e movimentos de câmera. Ele é basicamente as ações mais importantes da cena e os diálogos, no estilo que o meu eu criança acreditava que era um roteiro de histórias em quadrinhos.

Por isso, escrever um roteiro de quadrinhos é algo mais complexo que escrever um roteiro para cinema e audiovisual em geral, dizem a maioria dos estudiosos do tema. O roteiro de histórias em quadrinhos possui uma característica que os roteiros audiovisuais não possuem, que é a decupagem. No cinema e em outros tipos de vídeo o responsável pela decupagem é o diretor, que também dará outras coordenadas de narrativa visual.

Os roteiros para histórias em quadrinhos não necessariamente precisarão de um trabalho de decupagem igual ao do cinema para serem considerados roteiros ou serem entendidos pelos desenhistas e outros artistas que terão contato com ele. Alguns roteiristas gostam de ter um controle total sobre suas histórias e desenvolvem roteiros “à prova de desenhista”. Acredito que isto seja um excesso de zelo e de precaução sobre seu próprio trabalho. Para mim, uma das coisas mais interessantes em ver uma história em quadrinhos que eu escrevi, com o roteiro pronto, finalizado, são as diversas interpretações que um desenhista e outros artistas dos quadrinhos podem dar a essa narrativa.

Naquelas poucas histórias em que tive a coragem de desenhar pude entender como esse processo de desenvolvimento visual é rico em possibilidades através de um texto mais aberto. Até mesmo no final do processo, algumas cenas em que achávamos que tínhamos como algo de fácil entendimento precisaram ser retrabalhadas para que o leitor tivesse mais claro aquilo que queríamos passar com elas.

Por isso, mesmo os roteiristas que acreditam que seu roteiros sejam “à prova de desenhistas” precisam ter em mente que muitas vezes eles podem não ser “à prova de leitores” e que estes últimos não entendam aquilo que os roteiristas que defendem este sistema queriam dizer com sua narrativa. Existem também outras formas de se fazer roteiros de histórias em quadrinhos que poderei discorrer mais em uma coluna fortuita, suas vantagens e suas desvantagens.

Acredito que este texto tenha trazido um pouco da complexidade de como cerzir um roteiro de histórias em quadrinhos não é um processo fácil e nem simples. Trata-se de um método de criação que exige não apenas dominar o texto, mas o ritmo e narrativa, bem como apresentar as referências visuais para que aqueles que são parceiros na produção dessa história em quadrinhos possam usar o roteiro como um mapa para desenvolver a sua parte no processo de criação.

Espero que este escrito ajude a desmistificar a falácia de que quem escreve bem também é capaz produzir bons roteiros de histórias em quadrinhos, apenas por criar ideias mirabolantes. Como todos os outros campos do conhecimento, o que faz um roteiro de quadrinhos eficiente é a aplicação que dedicamos a este estudo, às suas práticas e técnicas, às formas com que pode se apresentar e ao aprofundamento sobre as diversas maneiras que conseguimos nos comunicar através dele. Está preparado para começar o seu roteiro de histórias em quadrinhos? Então bom estudo!

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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