Maiara Alvarez: A gramática da solidão

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Quando eu era pequena, as músicas de ninar que eu ouvia da minha mãe eram hispânico-latinas. Entre as canciones de cuna, havia uma popular que ficou conhecida na voz de Atahualpa Yupanqui e, no caso da versão que a minha mãe cantava, de Mercedes Sosa. Parte da letra diz: Duerme, duerme negrito, que tu mama está en el campo, negrito… / Y si negro no se duerme, viene diablo blanco y ¡zas! le come la patita, ¡chacapumba, chacapún…!

Trabajando, trabajando duramente, trabajando sí, trabajando y no le pagan, trabajando sí, trabajando y va tosiendo, trabajando sí, trabajando y va de luto, trabajando sí, pa’l negrito chiquitito, trabajando sí […]. A repetição do “e” variadas vezes é uma técnica que acrescenta ritmo de algo que não apresenta pausas, um ritmo circular, que cansa ou causa ânsia. Um ritmo usado em dado momento por Pedro ao falar das aulas do pai, assassinado em uma ação policial. O Avesso da Pele é um livro que conta sobre a vida que continua e continua. Se eu precisasse definir o gênero — algo que não sei ao certo até onde é útil —, eu diria que o livro do atual patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, Jeferson Tenório, é um romance geracional.

Ao crescer, a música continuou fazendo parte da minha vida de forma íntima, da mesma forma que a literatura. Ao recuperar parte da minha própria memória, no início da adolescência, passei a ouvir novamente o que me cantavam ao ser embalada. E de repente me dei por conta, ao me olhar no espelho, que o diabo branco sou eu.

Ao classificar de qualquer forma O Avesso da Pele, fico me perguntando se isso recorta para fora alguma das qualidades de atualidade e contemporaneidade e da consequente importância dessa obra e do fato de Jeferson ter sido, para minha honesta surpresa, o primeiro homem negro a ser escolhido patrono de uma feira do livro da capital do RS. Chega a ser irônico: um estado que foi escravagista e desonesto, que inventou uma cultura só para apagar sua própria história… ainda assim, eu achei tão tarde.

Ao continuar envelhecendo, passei a questionar o que eu entendia de um mundo com tão pouca referência, com tantas histórias não contadas, não datadas. Como as canções de ninar: anônimas. Hoje, me pergunto a cada resenha que faço, do quanto as minhas inegáveis ignorâncias, ao serem creditadas pelo selo LRS, serão de qualquer forma prejudiciais. E é um negócio muito difícil. Quando olho para o Jeferson escritor, me pergunto como seria um mundo em que eu visse o avesso das pessoas, e isso me lembra da ternura que não quero perder frente à realidade. A ternura que não quero perder frente à obrigação moral e necessária de me engajar para buscar esse mundo. O mínimo que eu tenho que fazer diariamente: não justificar com a cor da minha pele de diabo branco a manutenção do que não cabe em um mundo onde desejo que todas as pessoas possam revelar, sem dúvidas, receios, medos, os seus avessos.

Em entrevista, Tenório falou, assim como está nas entrelinhas de sua recente obra, da ética a que está imposto pela perversidade do racismo, que tira a base do poder em que se constrói a ética da auto-observação e, eu adiciono, da autoconservação. E essa autopreservação passa a viver no avesso da pele. E eu me emociono ao ler nesta incrível obra a tentativa de não se deixar desumanizar e não deixar que desumanizem as outras pessoas.

A representatividade que, nesta feira, está cristalizada na presença de Jeferson Tenório no posto de maior destaque, acompanhado por uma onda de ocupação diversa, não é resultado de um repentino acordar de uma classe que ainda não olha para o lado, muito menos sobre os ossos, sangue e suor de quem a tornou possível. Essa representatividade acontece na unha, e não por eu (muito menos eu) ou o Bial “darem” esse espaço. É um trabalho histórico de recuperação do que foi apagado, não nomeado, escondido, sincretizado, disfarçado.

Dentro desse contexto, minha deusa, como este livro é bom. É um elogio honesto? Eu entendo que sim. Com certeza, escolher este livro (encomendado antes de sequer saber qualquer programação da Feira do Livro) está intricado em um processo pessoal de aprendizado, propositalmente direcionado a pessoas e obras que não configuram a atual norma. Difícil avaliar. Entretanto, me parece que minha leitura diária constante me dá algum tipo de segurança pela qual eu consigo entender que tanto o estilo, quanto a narrativa, quanto a imersão propostas por Jeferson qualificam sua recente obra como extremamente indicada.

Aprendi, ao tentar preservar o meu avesso e a minha ternura frente ao que sou incapaz, que a empatia não é sobre se colocar no lugar dos outros. Eu não tenho como realmente saber o que é ter outro avesso ou outra pele. E aí, quando entendi isso, vi que a única atitude cabível é o silêncio. A escuta. A leitura. E a análise do meu avesso.

“[…] vocês se beijavam e acreditavam que eram boas pessoas.”

Nascido no Rio de Janeiro e radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório é graduado em Letras pela UFRGS e atua como professor na rede privada de ensino da capital gaúcha. É Mestre em Literaturas Luso-africanas, pela mesma Instituição, e atualmente, é doutorando em Teoria da Literatura na PUCRS. Como escritor, conquistou diversas premiações, como Livro do Ano, para O Beijo na Parede (2014) e Estela sem Deus (2018). Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. Seu mais recente lançamento, O Avesso da Pele (2020), já teve os direitos de adaptação comprados para o cinema, assim como os direitos de publicação vendidos para Itália e Portugal.

O Avesso da Pele
Romance
Jeferson Tenório
192 p.
14 x 21 cm
R$ 59,90
Companhia das Letras

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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