Deivison Campos: Experiências e partilha de um leitor

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

LRS começa 2021 com novidade. Deivison Campos é o novo colunista a contribuir mensalmente com suas reflexões sobre livros, leitura e sociedade. O acréscimo de Deivison ao time de colunistas agrega qualidade ao propósito fundante de Literatura RS, que é potencializar o mercado editorial do Rio Grande do Sul através de um processo de reconhecimento das condições materiais sobre as quais a escrita, a literatura e a leitura se desenvolvem em nossa sociedade. Abaixo, confira esta estreia primorosa!

“Escrever é sangrar pelos dedos”. Quando ouvi essa frase na primeira aula de redação jornalística há 30 anos – que hoje sei tratar-se de uma corruptela da afirmação de Hemingway, fez sentido tudo o que sempre pensei sobre a escrita e os livros. É preciso entrega. É preciso verdade.

Sentir e saber sobre isso torna mais difícil iniciar um projeto escrito no qual é necessário criar pontes para estar em comum. Escrever é isso. Começo então pela relação entre vida, memória e livros numa perspectiva pessoal para que me conheçam pelo menos um pouco. Sou antes de tudo um leitor. Amo os livros. Foi através de um número incontável de páginas que construí a capacidade de resistir e existir, além da ação das pessoas que vivem em mim.

Aprendi a ler com minha vó, a Tuli, que hoje, com 90 anos de idade, segue uma leitora compulsiva. Nasceu num tempo em que mulheres eram desaconselhadas a estudar, ainda mais sendo uma mulher negra retinta. Ficou pouco tempo na escola, mas é uma das pessoas mais críticas e inteligentes que conheço. Eu queria ler histórias em quadrinhos e orientado por ela aos quatro anos já devorava revistinhas de Pato Donald e Zé Carioca, minhas preferidas à época.

A outra vó, Gelsi, era analfabeta. Os pais morreram muito cedo e ainda criança foi jogada no trabalho doméstico, onde ficou praticamente até morrer. Meus pais Dilson e Ivone também foram trabalhar na infância. Minha mãe conseguiu concluir o ensino fundamental depois de adulta. O esforço deles em seguir caminhando, apesar de toda opressão, possibilitou que eu estudasse. Neste contexto, foi muito através dos livros que construí conhecimento e oportunidades para disputar outros lugares sociais.

Pertenço à primeira geração realmente escolarizada de minha família e das comunidades negras de maneira geral, salvo raras exceções anteriores. Pensar sobre essa trajetória, que pode parecer a primeira vista um relato pessoal, é pensar sobre vidas negras. Nossas histórias de famílias são todas muito iguais apesar de existirmos em nossas diferenças. Hoje, com políticas afirmativas, tornou-se mais possível quebrar o ciclo de opressão e negação dessa violência racial.

Minha quebra se deu pelo incentivo principalmente das mulheres em minha família, mãe, avós, tias e pela experiência com um livro de que lembro do cheiro e da densidade da capa. No rastro de azulão, cisco e mangarito, escrito por Lucília Junqueira de Almeida Prado, foi o primeiro livro novo que ganhei e que mudou minha relação com a leitura. Foi um caso de amor tátil – usando a imagem criada por Caetano Veloso, ao primeiro toque. Ler aquela aventura infanto-juvenil foi mágico, mas o que não esqueço é da experiência inaugural que me fez ter certeza naquele momento de que iria escrever, ou pelo menos ler todos os livros que conseguisse na vida. Por isso, me tornei jornalista. Por isso, leio todos os livros que consigo.

A ideia de escrever sobre essas primeiras experiências sempre renovadas de leitura e às pessoas que me antecederam, vítimas do racismo que segue nos afetando, surgiu enquanto terminava de ler o primeiro livro de 2021: Você morre quando esquecem seu nome, de Flávio VM Costa (Bissau Livros, 2020). É o segundo livro publicado pelo escritor soteropolitano, radicado em São Paulo, no qual discute questões que fomentam essas diversas formas de violência que atravessam as vivências dos negros em sociedades brancas.

Racismo, genocídio de jovens negros, violência policial, branquitude e relações pessoais e institucionais num mundo em crise são discutidas a partir do cotidiano de Salvador. A impressão foi de que já conhecia todos os contos. São histórias e situações que se replicam nas ruas de qualquer cidade – lugar em que a vida se realiza e cada vez mais se extingue, principalmente para os negros. A força dos contos reside exatamente nessa familiaridade. Muitas das personagens são, ou poderiam ser eu.

O conto que dá nome ao livro, mesmo tendo a naturalização da violência como tema, refaz a ligação entre Salvador e tradições diaspóricas ressignificadas de África. Mesmo que não diretamente, tem como fundo a memória ancestral da indissociabilidade entre vida e morte nas cosmogonias das culturas de matriz africana, pelas quais nossos ancestrais seguem das mais diferentes formas em e entre nós, fortalecendo os elos comunitários.

Também se relaciona com uma concepção de tempo africana, que subverte e contrapõe o tempo cronológico. Como referida pelo filósofo moçambicano José Castiano, a vida, nesta temporalidade, se dá no tempo da memória, Sasa. Esse é sobreposto pelo tempo da tradição, Zamani, a temporalidade das referências que dão sentido à existência. Essa tradição deve ser entendida como movimento e devoradora do mundo, seguindo os sentidos conferidos por Aimé Césaire.

São essas as complexidades e agenciamentos que busco quando leio um texto. Encontrá-los produz as experiências que me afetam e constroem. Acredito na vida do narrador, Benjamin que lute, e na “autoridade do autor” – que em nosso tempo muitos imaginam ter e ser. Por isso, busco verdade nos textos que leio. Por isso, os livros ocupam um lugar importante em mim. São esses movimentos de afetação e partilha, relacionados com a vida, que pretendo colocar em comum por aqui. Esse é meu projeto tentativa. Seja bem-vindo!

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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