Priscila Pasko: O dia em que uma escola de samba desfilou no peito da minha mãe

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de divulgação e Ricardo Giusti/PMPA

Eu não posso ser considerada uma exímia foliã de Carnaval. Vá lá: já pulei junto a blocos de Porto Alegre; tive a honra de conhecer o carnaval de Olinda (PE) e a sua deslumbrante Noite dos Tambores Silenciosos. Fora isso, na maior parte das vezes, passei esta época em casa, assistindo pela tv os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Mesmo assim, não posso me orgulhar de avançar madrugada adentro. Me acomodo no sofá encantada com a Portela e, quando dou por mim, acordo com a Sapucaí vazia, se preparando para receber a escola seguinte. Sou do tipo que dorme cedo.

É justamente quando procuro o encaixe do corpo no sofá de casa que lembro do dia em que a bateria da escola de samba tocou dentro do peito da minha mãe. Era o ano de 1987 ou 1988. Eu com quatro, cinco anos de idade. Junto de minha mãe e minha avó, amigas, comadres e primas que marcavam presença nas arquibancadas da Avenida Perimetral, onde ocorria o Carnaval das Escolas de Samba de Porto Alegre*. Minha mãe torcia “de coração” para Bambas da Orgia. Como todas ali conheciam alguém que desfilava em outros grupos, elas acabavam vibrando por outras escolas que desfilavam: União da Vila do Iapi, Acadêmicos da Orgia, Imperadores do Samba, Embaixadores do Ritmo.

Impaciente ficava eu, desejosa da minha cama, queria apenas dormir. Deitada na arquibancada, me sentia balançar sob o efeito dos saltos e da dança daquelas mulheres até o dia chegar mansinho. Não recordo da avenida, dos adereços, das pessoas em nossa volta; nada que tenha chamado suficientemente a minha atenção para durar por mais de 30 anos na memória.

Lembro, sim, do colo que recebi da mãe a certa altura. Minha cabeça acompanhando o movimento do seu peito, um revezamento entre côncavo e convexo. E da voz que reverberava um samba-enredo. A minha face vibrando contra aquela membrana mater, uma caixa de ressonância. Dali saía música, risada, comentários a respeito de fantasias ou de amigos que passavam na avenida. Em outros tempos eu havia sentido o mesmo: o som abafado, como se embaixo d’água, mas eu estava no lado de dentro.

Impossível garantir o quanto a cena é fidedigna. Memória é, também, ficção. Insiste, porém, essa viva e real sensação de quando uma escola de samba desfilou dentro do peito da minha mãe. Bateria. Porta-bandeira. Carros alegóricos. Passistas. Comissão de frente. Detrás da blusa da mãe, um intérprete de samba me chama, o mestre de bateria acena para mim [é purpurina e lantejoula saindo do teu peito, mãe? Olha!]

Em uma rápida pesquisa no Google, soube que o samba-enredo da Bambas da Orgia, no ano de 1987, foi Quando o coração bate mais forte (Meneca e Jorge Ramos). É provável que não tenha sido essa a vibrar no peito da mãe. Irei escolhê-la de qualquer modo para integrar as minhas lembranças. Faz de conta que. E é ao som de “bate, bate, bate, bateria/bate firme, bate forte com razão” que irei guardar comigo o balanço da arquibancada provocado pela mãe, vó, tia Zélia, Sissi, Leci e Sandra que, mesmo sem saber, marcariam para sempre o meu Carnaval.

Não moro com a minha mãe, então será difícil saber se a escola que desfila dentro do peito dela vai sair este ano. Precisaria eu colar meu ouvido na membrana mater. Já por aqui, tudo é silêncio. Isso até um carro parar no semáforo quase em frente à minha janela. Ele escuta em alto e bom som uma marchinha de carnaval, que é levada com ele assim que o sinal abre. As paredes do meu apartamento reverberam, e eu colo meu rosto nelas.

*entre os anos 1976 a 1977 os desfiles aconteciam na Avenida Perimetral. Do ano seguinte até 2003, era a avenida Augusto de Carvalho.

Priscila Pasko é escritora, jornalista e um ser dançante. É autora do livro de contos Como se mata uma ilha (Zouk, 2019), Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea Novas contistas da literatura brasileira (Zouk, 2018).

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