Guilherme Smee: Quadrinhos italianos para além do Spaghetti

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O Rio Grande do Sul possui uma das maiores comunidades italianas do Brasil e, talvez, seja coincidência ou não, mas no nosso estado também existe uma das maiores comunidades de fãs dos quadrinhos italianos, os fumetti, no plural, ou fumetto no singular. O nome fumetto vem da “fumacinha” que existe sobre as bocas e cabeças dos personagens, ou seja, o balão dos quadrinhos, seja ele de fala, de pensamento, de grito, de cochicho, enfim…

Os balões das histórias em quadrinhos são um advento de sua modernidade, surgidos pela primeira vez em uma página dominical – gags de quadrinhos que preenchiam uma página do suplemento colorido que saía aos domingos – do Yellow Kid, criação de Richard Felton Outcault e que gerou uma verdadeira guerra jornalística entre William Hearst e Joseph Pulitzer, donos de duas das mais bem-sucedidas empresas de notícia do final do século XIX e início do século XX. Foi por causa da publicação do Yellow Kid, ou o “menino amarelo”, que o tipo de notícias veiculadas por Hearst foi nomeada de “jornalismo amarelo” cuja corruptela brasileira é chamada de “jornalismo marrom”, devido à qualidade duvidosa e sensacionalista destas notícias.

Tornaram-se tão populares os balões de fala das histórias em quadrinhos que hoje eles são elementos idiossincráticos das mesmas, a ponto de não apenas caracterizá-las, mas também denominá-las, como é o caso do que já dissemos dos fumetti. Mas os fumetti não são quaisquer quadrinhos italianos. Pelo menos não funciona assim para nós, brasileiros. A produção deste tipo de classificação de quadrinhos italianos, que possuem grandes expoentes na temática erótica, passa pelo nome e sobrenome de Sergio Bonelli.

Durante os anos 1940, devido ao regime fascista de Benito Mussolini, a importação de criações de entretenimento vinda de países norteados aos Aliados foi proibida na Itália. Então, Gian Luigi Bonelli, pai de Sergio, criou em 1948 o cowboy Tex Willer, para suprir a demanda italiana por história do velho oeste estadunidense, da mesma forma que ocorreu com o cinema, com o spaghetti western. O personagem foi um dos grandes sucessos da editora Audace, que era de posse dos Bonelli e permitiu que, anos mais tarde, os quadrinhos bonellianos produzidos por Sergio Bonelli se tornassem sinônimos de fumetti dentro e fora da Itália.

Durante os anos 1980 a editora Bonelli teve de se reinventar, trazendo personagens que fugiam da temática do faroeste, como se enquadraram seus personagens Tex Willer e Zagor. Surgiam personagens como Dylan Dog e Martin Mystere, calcados no sobrenatural e no mistério. Assim, uma editora que era sinônimo de faroeste, ou gibis de bangue-bangue, como dizia meu pai, foi abrindo as suas possibilidades e narrativas para outros temas, como a criminóloga Julia Kendall, o policial futurista Nathan Never e o protagonista indígena de faroestes, Mágico Vento, todos eles muito saudados pelo público italiano e premiados em salão de quadrinhos internacionais da Europa pela qualidade de seus roteiros e desenhos.

Imagens: reprodução

Agora o Brasil está acompanhando um renascimento no interesse e nas publicações de fumetti em terras tupiniquins. Por muito tempo a Record era a casa das revistas Bonelli, por algumas décadas passaram a serem publicados pela Editora Globo e, a partir dos anos 2000, a Mythos Editora tem se responsabilizados pelos principais títulos. Contudo, foi uma casa publicadora gaúcha que deu o pontapé inicial a esse retorno do interesse por fumetti no Brasil.

Quando o detetive do pesadelo, Dylan Dog, estava para completar 30 anos de criação, a Editora Lorentz percebeu que não havia nenhuma casa publicadora brasileira que detinha os direitos de sua publicação. Assim, iniciando sua carreira editorial, a casa publicadora do interior do estado do Rio Grande do Sul adquiriu três edições de Dylan Dog, marcantes em sua trajetória, e corajosamente colocou-as nas bancas. O interesse não apenas por Dylan Dog foi revitalizado como por toda a linha de fumetti da Bonelli.

Logo, a Mythos voltava a publicar Dylan Dog, Nick Raider, Mastin Mystere e Nathan Never em edições bimestrais, dessa vez com um papel mais resistente e capas mais duráveis, seguindo o modelo iniciado pela Editora Lorentz. A maior editora de quadrinhos do país, a Panini Comics, que tinha tentado lançar a minissérie bonelliana Face Oculta, acabou reintroduzindo a saga de forma “mix”, almanacões contendo de quatro a cinco histórias com volta de 100 páginas cada. Outra editora pequena, dessa vez de São Paulo, a Editora 85, resolveu promover uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse para angariar fundos para continuar a publicação de outro personagem sobrenatural, Dampyr, que havia tido algumas edições trazidas ao Brasil pela Mythos Editora. A campanha deu tão certo que a 85 conseguiu também trazer novamente para o Brasil, os números anteriores de Dampyr e alguns outros títulos como especiais do piloto estadunidense radicado no Brasil, Mister No.

O Brasil nunca viu tantos títulos da Sergio Bonelli Editore sendo lançados ao mesmo tempo. O interesse do público que se restringia a uma miríade de título de Tex, como Tex Gigante, Tex Ouro e Tex Coleção, agora se estende a outras incríveis criações como Lilith, publicada pela Red Dragon aqui no Brasil, ou Brad Barron, trazida pela Graphitte Editora. A toda-poderosa Panini Comics também entrou no jogo trazendo publicações mais portentosas da Bonelli, vindas do selo Audace, uma homenagem à primeira editora de Tex, com o intuito de trazer tramas pesadas e voltadas a um público maduro. As publicações da Bonelli pela Panini possuem capa dura e impressão colorida em papel couchê, em sua maioria.

Mas o que encanta tanto o público brasileiro de quadrinhos para as tramas e estilos dos fumetti bonellianos?

Uma das respostas é o desgaste contínuo de outros tipos de publicações em quadrinhos, como as revistas de super-heróis, que trazem personagens que nunca se modificam e histórias que repetem sempre a mesma fórmula narrativa. Também o mercado brasileiro de publicação autoral não está tão maduro e em pé de igualdade com as produções tornadas mainstream de uma editora com a experiência de mais de 60 anos que é a Sergio Bonelli Editore. Para o brasileiro, contudo, muitos personagens e forma de se colocar narrativamente da Bonelli, é novidade. É algo novo em um terreno que vem trazendo mais do mesmo há anos.

Outro fator é que embora tenhamos muitos grandes autores de materiais independentes de quadrinhos, ainda não temos à disposição os alicerces de porte industrial de uma editora internacionalizada. Aquele que chegaria perto de uma Bonelli brasileira seria o MSP Estúdios, de Mauricio de Sousa, mas suas publicações não têm a mesma “sobriedade” e nem voltam-se para o mesmo público que seria o jovem-adulto, o mesmo de independentes, super-heróis e fumetti. Mesmo a coleção de sucesso retumbante Graphic MSP conversa mais com um público de todas as idades do que se arrisca em águas mais profundas, tanto em temática quanto em artifícios da linguagem dos quadrinhos.

Os fumetti da Bonelli possuem personagens icônicos que contam com sidekick também de mesma iconicidade. Por exemplo, Julia Kendall, a criminóloga, tem como confidente e assistente doméstica uma senhora semelhante a Whoopi Goldberg; Dylan Dog tem como assistente Groucho Marx, Mágico Vento é assistido por um jornalista que se chama e assemelha a Edgar Poe. Mas as referências abundam em muitas outras instâncias nas revistas da Bonelli.

Os desenhos, feitos geralmente e, inicialmente, no contraste entre o preto e o branco dão o tom para as histórias que uma narrativa adulta precisa para atingir certas cruezas de intencionalidade e intensidade. O layout das páginas difere do experimentalismo de um quadrinho norte-americano, com suas grades sem hierarquia. Nos fumetti, os quadros têm uma similaridade de tamanho e formato com mais repetição e com características em comum. Mas isso não quer dizer que eles não prendam mais ou menos a atenção do leitor, a mecânica e a linguagem própria dos quadrinhos dá conta disso.

A duração, a periodicidade e o formato das revistas são um diferencial. Elas possuem em média cem páginas, são distribuídas – no caso dos títulos regulares mais recentes – bimestralmente nas bancas e são publicadas no tamanho que é chamado de formato italiano, algo intermediário entre os gibis de super-heróis e os infantis da Disney e Turma da Mônica, herdados, claro, dos originais da península da bota. Essas qualidades físicas dos fumetti bonellianos podem parecer simplórios, mas são essenciais para a experiência de leitura que este tipo de produção proporciona.

Para finalizar, para mim, tem sido um grande deleite descobrir mais e mais quadrinhos italianos da Sergio Bonelli Editore. A editora foi tão longe que até mesmo desenvolveu quadrinhos que se assemelham com campanhas do Role Playing Game (RPG) Dungeons & Dragons, como o caso da série Dragonero, que na Itália possui diversas edições e até um desenho animado. Outros produtos da editora têm virado filmes como Dylan Dog, Dampyr e a graphic novel Monolith. E existe todo um universo de surpresas preparado para surpreender com “audácia” aos leitores brasileiros como eu, que estão cansados da mesmice de outras indústrias que produzem a nona arte.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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