Reflexos da Pandemia | Jacira Fagundes: A nova sala de aula

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto do IEL

O ano que passou deixou atrás de si uma montanha de estragos. Em diversos setores deixa perdas econômicas, perdas institucionais e individuais. Com mais força, deixa em desamparo os setores voltados à cultura, às artes e ao entretenimento. As perdas são incalculáveis.

Não me sinto autorizada, tampouco com a credibilidade necessária, para discorrer sobre os prejuízos nas diferentes áreas da economia, ou da instabilidade política que ainda devasta com tantos desacertos e espalha a descrença.

Quero falar do que aconteceu com as escolas, com o ensino a crianças e jovens, com os professores e com a educação em geral.

Não é de hoje que venho acompanhando o trabalho desenvolvido pelos professores junto ao alunado. Convivi com o ambiente escolar como professora e como especialista em educação na antiga SEC. Aposentada, vejo o trabalho nas escolas desenvolvendo-se de forma quase idêntica à que vivenciei passados tantos anos. Há exceções, claro, de professores que atuam de forma dinâmica junto aos alunos, que, mais do que ensinar conteúdos, bem mais, ensinam o aluno a aprender através da leitura de formação, de consultas, de projetos, de debates em sala de aula ou fora dela.

Neste ano tão peculiar, quase se ficou à deriva. Escolas fechadas obrigaram o professor a se desacomodar e se reinventar. Não só os professores – famílias precisaram buscar novos espaços na casa e os transformarem em inadequadas salas de aula. Pais e mães, tios e avós, aventuraram-se nas tarefas de ensino-aprendizagem. Do jeito que podiam, entre os livros e as tarefas domésticas.

Foi um ano atípico. Mas houve, nesta instabilidade, algumas aprendizagens. E muito favoráveis ao ensino. Ocorreram os encontros online, as aulas não presenciais, a literatura digital, o bom uso da Internet para além dos jogos e entretenimentos, o uso inteligente do celular, as pesquisas e os projetos. As plataformas se abriram ao ensino, sem custos. E desenvolvedores de tecnologia chegaram de todos os cantos anunciando um novo mundo de possibilidades.

Em minhas visitas a escolas como escritora, ou em encontros com professores e escritores, nunca perdi uma oportunidade para alertá-los para esta verdade – de que a tecnologia e o espaço digital precisam ser explorados, palmilhados pela escola e direcionados aos jovens e crianças. Para além da sala de aula que não comporta, nem nunca comportou todos os conhecimentos. Que o poder e o dever da escola é “ensinar a aprender” uma vez que nenhuma escola detém, isoladamente, o saber, a crítica e o pensar.

É o futuro se fazendo presente hoje, agora, por exigência da pandemia. Que o mal se dissipe, mas que se permaneça fiel ao novo comportamento que nos fez expandir a sala de aula para além de um horizonte libertário.

Nota: A oficina literária que oriento regularmente, prevista para 2020, aconteceu no formato virtual. Com autoria compartilhada pelas cinco autoras integrantes da oficina, terá publicação experimental em PDF, no 2º semestre de 2021, com acesso ao público internauta. Aguardem notícias!

Jacira Fagundes é escritora, palestrante e ministra oficina literária desde 2005. Integrou a diretoria da AGES em três gestões. No momento faz parte do Conselho Fiscal da entidade. Por dois anos consecutivos, fez a Coordenadoria Regional/ Sul da AEILJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil). Coordena o Grupo de Leitura e Criação Literária no Espaço Metamorfose Cursos, desde 2016. Organizadora de duas Coletâneas de Contos do Grupo Pra ver a banda passar…contando histórias de amor (2018) e da Coletânea Quando o verbo vira trama (2020), ambas publicadas pela Editora Metamorfose. Em 2021, ministrou oficina literária virtual de narrativa longa, que deve culminar com trabalho experimental na Internet em 2021. Tem 17 livros publicados. Dois no espelho – novela (2007, em primeira edição e 2014 em segunda) e No limite dos sentidos – contos (2009), pela Editora Movimento. Suas obras mais recentes são o infantil A Cadeira Contadeira pela Franco Editora, de Juiz de Fora/MG e Pequenos Notáveis – minicontos publicados pela Editora Metamorfose, de Porto Alegre. Ambas publicadas em 2018. E a segunda edição de Mania de Gavetas – infanto juvenil em 2020, pela Editora Alarte de POA. Em 2021, a obra infanto-juvenil Pinta uma história pra mim encontra-se em fase de publicação pela Editora Palavreado, do município de Guaíba. Promessa de lançamento ainda no primeiro semestre de 2021. É colunista no portal http://www.artistasgauchos.com.br.

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