Deivison Campos: Cultura do consumo, experiência e stimmung

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Ler ao som de Livros, Caetano Veloso.

A experiência tem sido uma chave cada vez mais utilizada e importante para pensarmos as relações sociais num cotidiano em que mídia e tecnologia se tornaram princípios organizadores, tendo como fundo a cultura do consumo que aprofundou o fenômeno de insaciabilidade por novidades. Neste processo, os produtos foram substituídos pelos signos e estes cada vez mais pela experiência – o que se parece mais com um retorno do que uma novidade.

Para seguir, estou chamando experiência, seguindo Dewey (1), “o resultado, o signo e a recompensa da integração do organismo e o ambiente, que quando se realiza plenamente é uma transformação da interação em participação e comunicação”. O ambiente técnico-midiático que se tornava, cada vez mais, o ambiente preferencial para experiências teve o processo acelerado no chamado novo normal. Estamos online.

Essa cultura suportada pela relação mídia-tecnologia tem como campo estratégico, como diz Sodré (2), o sentir e com isso, passa a existir mais pelo envolvimento sensorial do que pelo apelo ao racionalismo da representação – questão que havia sido antecipada por Mcluhan quando afirma que “o meio é a massagem” (3). A insaciabilidade torna-se desta maneira pela intensificação de experiências estéticas e o espetáculo configura-se como uma relação social – estaria nessa característica o sucesso dos aplicativos como o TikTok, por exemplo.

No referencial texto sobre reprodutibilidade técnica, Benjamin (4) reflete sobre como a mudança tecnológica transforma a maneira como percebemos o mundo. O atravessamento da cultura do consumo pelas não tão novas tecnologias, considerando as duas décadas de onipresença da rede, mudou tudo. Acoplagem, imersão, realidade aumentada tornaram-se práticas sociais corriqueiras para os conectados – nunca podemos esquecer que existem bilhões de pessoas sem acesso pleno à rede.

Nesse contexto de transformação da percepção e da insaciabilidade por experiência nos processos de consumo, o livro em seu suporte tradicional, ou não, mas entendido como obra, fica como? Certamente existem diferentes respostas para essa questão numa perspectiva de mercado que passa por ignorância (“só rico compra”), crise (grandes lojas não repassando os valores para editoras e fechando) e persistência (escritores, editoras, pequenas livrarias, leitores, professores).

No entanto, interessa a dimensão de experiência e, certamente, como obra, o livro contém em potência as características oferecidas pelas novas tecnologias, principalmente, a imersão, a acoplagem e a realidade aumentada. Faltaria, no entanto, o elemento constituinte da experiência, além do leitor, que é a ambiência – retomando que vivemos num novo regime perceptivo.

A resposta a esta ausência está num texto que circula entre os que discutem a experiência tecno-midiática e que tem como subtítulo “sobre um potencial oculto da literatura”. Nele, Hans Gumbrecht (5) aciona os conceitos de atmosfera, ambiência, stimmung – que dão título ao texto, entendendo esses como aproximações, para discutir a experiência da leitura. Defende que o tom/stimmungen do texto existe em relação com os componentes materiais da obra, principalmente sua prosódia. Os elementos performáticos do texto, portanto, afetam os leitores da mesma maneira que o clima atmosférico e o ritmo, condições de produção de presença da obra. Nesta proposta, o deslocamento para um nível um pouco mais complexo de leitura, que extrapole a compreensão do texto, produz a experiência prometida pelas novas mídias, mas que já estava desde sempre “oculto na literatura”. Esse acesso demanda, por isso, novas pedagogias de leitura.

A propósito, experiência é um dos temas de interesse de minha pesquisa. Organizei com colegas do grupo de pesquisa Estéticas e Políticas do Corpo e Gênero um livro (6), lançado agora em março, sobre o tema. Políticas do Sensível, corpos e marcadores de diferença na Comunicação pode ser baixado gratuitamente no site do ppgcom da UFMG.

(1) DEWEY, John. El arte como experiencia. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidós, 2008.

(2) SODRÉ, Muniz. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

(3) MCLUHAN, Marshall; FIORE, Quentin. O meio é a massagem. Rio de Janeiro:
Imã Editorial 1969.

(4) BENJAMIN, Walter. Magia e técnica arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.

(5) GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência, stimmung. Sobre um potencial oculto da literatura. RJ: Contraponto/PUCRio, 2014.

(6) CARDOSO FILHO, J. (Org.) ; ALMEIDA, Gabriela M. R. (Org.) ; CAMPOS, Deivison M.C. (Org.) . Políticas do Sensível, corpos e marcadores de diferença na Comunicação. 1. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2020.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s