Arthur de Faria: Elis: Uma Biografia Musical

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de André Feltes

Arquivo LRS: Publicado em 7 de outubro de 2015

Entrevista realizada por Bianca Rosa, via e-mail

O jornalista e músico Arthur de Faria é um pesquisador incansável sobre a música feita em Porto Alegre. Tendo como base esse tema, ele já reuniu um amplo material que daria um enorme livro de mais de mil páginas. E um dos capítulos dessa enciclopédia musical foi transformado em uma biografia que fala sobre uma das artistas mais notórias já exportadas pelo Rio Grande do Sul: Elis Regina. Pesquisado e escrito ao longo de três décadas, Elis: Uma Biografia Musical (Arquipélago Editorial, 2015) busca dimensionar a importância dessa cantora, uma grande instrumentista que não tocava nenhum instrumento e uma artista dedicada à valorização e à proteção dos músicos brasileiros. Mais do que a sua personalidade polêmica e do que a mitificação de sua personagem como artista, o autor retrata Elis Regina pela lente de seu legado musical, conforme nos relata nesta entrevista exclusiva para o Literatura RS.

Por que você decidiu escrever um livro sobre a cantora?
Na verdade, faz 25 anos ou mais, talvez, quase 30…. Desde 1990, eu comecei a escrever sobre a música de Porto Alegre. Isso sempre me interessou muito, primeiro como jornalista, e depois fui seguindo isso como pesquisador. Então, em 1989, eu trabalhava no jornal ZH Zona Norte, que era um caderno da Zero Hora, e ali eu fazia, entre outras coisas, matérias de cultura. E uma das matérias que eu fiz e que me deu muita alegria foi uma grande reportagem sobre os primeiros tempos da Elis, a Elis como moradora do bairro IAPI. Dali em diante eu nunca mais parei de escrever sobre isso. O que eu tenho agora no momento é um livro de 36 capítulos, com umas 1.200 páginas, do qual o capítulo Elis, que é o capítulo 13, é o único que tem tamanho suficiente e o que teria maior interesse para sair primeiro como livro independente. Então, na verdade esse livro sobre a Elis é um capítulo de uma obra imensa.

Você afirmou que a abordagem do livro é, mais do que tudo, musical. De que forma a cantora é retratada sob esse aspecto?
Eu sou músico, antes de qualquer outra coisa, então achei que seria uma diferença interessante. Sempre que leio biografias de músicos que não são escritas por músicos, ou seja, todas as que não são autobiografias (risos), me incomoda muito coisas que as pessoas que estão escrevendo não se dão conta. Entretanto, sempre o meu lado jornalista ajudou muito no fato de que eu não fizesse um livro somente para músicos. Então não tem absolutamente nada ali que não possa ser entendido por quem não é músico. Por outro lado, tem um aprofundamento na matéria musical que não poderia ser feito por alguém que não é músico. Então, são coisas que passam batido normalmente, e que eu gosto de chamar a atenção. Bah… tem muitos exemplos ao longo do livro… mas em especial essa coisa da imensa musicalidade da Elis, que permitia à ela se sentir um músico, como qualquer outro. Mas ao mesmo tempo ela não era uma dessas cantoras que cantam pensando só na música, tanto que ela começava sempre um trabalho pensando na letra primeiro. Então o texto era muito importante pra ela. Tu pode ver que quando ela canta, cada intenção de texto é claramente marcada. O livro inclusive fala de todas as faixas, de todos os discos, esse também é um enfoque bastante musical. O livro fala muito mais de música do que fofocas da vida dela.

Há como você nos antecipar alguma curiosidade que você descobriu sobre a Elis na sua vasta pesquisa?
Acho que não tem nenhuma coisa muito bombástica não. Tem mais é o desmonte de histórias que foram escritas… as outras versões da história, que foram escritas justamente com revelações bombásticas, que muitas delas foram desmontadas no livro, dizendo que não foi assim. Muitas vezes as pessoas floreiam as coisas para ajudar a vender livros. O que me interessa é justamente desmontar esse tipo de coisa.

O que você achou da liberação de biografias não-autorizadas pelo STF? Isso modifica a atuação dos biógrafos de alguma forma?
Achei ótimo. Isso não só modifica como viabiliza o trabalho. Muitas biografias — inclusive essa — estavam esperando essa decisão pra ir pro prelo.

Na sua opinião, Elis é tão cultuada no Sul quanto no resto do Brasil, ou a grandeza dela como artista transcende qualquer fronteira?
Eu acho que a Elis é mais cultuada fora de Porto Alegre. Isso inclusive sempre foi uma coisa muito complicada para ela, pois sempre houve uma relação de tensão. Esse é outro foco particular do livro, porque é um livro escrito por uma pessoa de Porto Alegre. Então fala, por exemplo, mais da relação dela com a cidade do que outros livros falaram. Acho que a Elis é uma artista mundial, ela é uma artista de culto fora do Brasil, não é uma artista imensamente popular, mas muitos grandes artistas a cultuam. Músicos de jazz, por exemplo. É difícil um músico de jazz de mais de 40 anos que não conheça a Elis Regina.

Elis: Uma Biografia Musical
Arthur de Faria
272 p.
16 x 23 cm
Arquipélago Editorial
Compre aqui (link externo)

Literatura RS, 2015. Disponível em: https://www.facebook.com/literaturars/photos/a.689246214526426/857786104339102/, 2015. Acesso em: 13 de maio de 2021.

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