Ana Paula Cecato: Os discursos e a prática da leitura literária

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

É com curiosidade que gosto de ler slogans e cartazes, publicações em redes sociais e guias de programação de ações (de projetos a eventos) de leitura e literatura, sobretudo voltados para o público em idade escolar e para os seus mediadores de leitura. Leio quem são as pessoas que estão nos bastidores, quem são os/as convidados/as, quais os temas dos encontros, como é o acervo literário, como se dá o entrelaçamento entre cultura e educação, e dessas observações consigo perceber qual o discurso sobre a leitura literária ampara as práticas.

Dos dois discursos sobre a leitura mais disseminados no imaginário social – a leitura como prazer e a leitura como hábito – prevalece nos slogans e temas o caráter lúdico da leitura, não são poucos os slogans “ler é viajar nas asas da imaginação”, “ler é viajar sem sair de casa”, e suas variações como “voar sem ter asas, caminhar sem tirar os pés do chão, sonhar acordado, navegar em um mar de palavras, soltando a imaginação”.

Não há problema em relação a essas frases feitas, pois a diversão pode ser uma das dimensões da leitura, mas é preciso afirmar que se tratam de estereótipos, e, como afirma a escritora Chimamanda Adiche no livro O perigo de uma história única, o problema dos estereótipos é que eles são incompletos. Ler nem sempre é prazeroso e divertido, assim como nem sempre é chato e desagradável.

Ser leitor é um processo de idas e vindas, de leituras e de releituras, de tempos de ausência e de presença contínua dos livros nas nossas vidas, de sufoco e de esperança. O leitor nunca está pronto. E talvez resida aí a maior potencialidade da prática da leitura: a busca pelas escolhas transformadoras, o retorno às leituras que já nos transformaram – ou seja, a eterna construção de um repertório imaginário afetivo, como se estivéssemos sempre montando nossas estantes com os livros que lemos e que queremos ainda ler. Mobilizados pelo desejo, nós, leitores e leitoras, também somos instigados a comprar os livros, o que, sobretudo em eventos comerciais, é um bom atrativo para as vendas. No entanto, não é apenas em eventos privados e comerciais que esse discurso está presente, o que me leva a destacar o próximo ponto.

Os discursos predominantes e mais difundidos estão direcionados a uma dimensão individual e pessoal da leitura, e não contemplam sua dimensão social, comunitária e cidadã. Dessa forma, os promotores dessas ações eximem-se do compromisso de construir uma política que considere a leitura literária um direito, cujo acesso deve ser garantido a todos e todas. Quando não é pensada como um direito, a leitura pode ir por dois caminhos: o da a elitização por classe e o da elitização pela eleição do que é “boa literatura”. São caminhos que se complementam hegemonicamente: só ricos leem e/ou leem o que é bom.

No entanto, termino esta breve reflexão contando que há um movimento de coletivos e promotores de ações de leitura que, talvez mais empenhados na prática da leitura literária do que no discurso sobre ela, têm feito um debate muito importante sobre a dimensão cidadã da leitura e a necessidade de democratizá-la. É o caso das bibliotecas comunitárias, das bibliotecas escolares que emprestam livros para toda a comunidade escolar, dos slams, de eventos como a Feira do Livro das Periferias e a Flup – Festa Literária das Periferias. Iniciativas que vêm se fortalecendo e ganham repercussão na mídia e reconfiguram o mercado editorial, e que começam a ser estudados e observados pela academia e pela crítica. Não é à toa que, ao sabermos quem são as pessoas que estão nas produções dos eventos, nas mediações de leitura, no voluntariado das bibliotecas, nos deparamos com leitores e leitoras ávidos/as, dispostos a compartilhar com todos e todas a experiência transformadora da leitura e a possibilidade da participação na vida cidadã que ela pode garantir a uma comunidade.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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2 respostas para ‘Ana Paula Cecato: Os discursos e a prática da leitura literária

  1. Excelente texto, Ana! Além de fazer voar
    imaginação e a fantasia, livros também dão asas à questionamentos, transformações, desconfortos… um ramalhete de funções desamarradas por um laço de fita invisível.

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