Deivison Campos: Todos os Maios

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A insistência de diferentes instituições do estado e das que estabilizam o status quo em promover e defender um dia 13 festivo relaciona-se diretamente a perpetuação de imagens de controle, principalmente, a de negro passivo e a dependente do branco para ser. Claro que aqui cometi uma pequena corruptela do conceito de Patricia Hill Collins, tão bem sistematizado para nós através da leitura de Winnie Bueno como “a dimensão ideológica do racismo e do sexismo compreendidos de forma simultânea e interconectada. São utilizadas pelos grupos dominantes com o intuito de perpetuar padrões de violência e dominação que historicamente são constituídos para que permaneçam no poder.”

Cada vez que essas imagens são acionadas, buscam manter a população negra neste lugar nebuloso de descendentes de escravos – ainda mais nebuloso no RS, onde afinal se canta a plenos pulmões que povo que não tem virtude/acaba por ser escravo. Essa visão, no entanto, não faz mais sentido para o pensamento e menos para a existência dos descendentes de pessoas sequestradas em diferentes lugares do continente de África e escravizadas num sistema de produção de riqueza em troca de vidas. Milhões de vidas. Apesar de todo esse sistema de terror, manteve-se rastros de memórias que foram ressignificadas e reconfiguradas em novas formas de existir na tradição, tendo a alegria de estar junto como elemento estruturante.

Neste sentido, a inserção no debate acadêmico da categoria de resistência para análise do escravismo por Clóvis Moura, em 1959, mostra que o sistema escravista já estava corroído, quando a pressão econômica exercida pela Inglaterra que levou à assinatura de uma lei que possui dois artigos – terminou e cumpra-se. No entanto, destina seu cumprimento, o que é mais importante, ao secretário dos Negócios da Agricultura e interino de Negócios Estrangeiros, Rodrigo Augusto da Silva. A assinatura da princesa Isabel tratou-se, portanto, em primeiro lugar, de um negócio. Na perspectiva humanitária, ou como quer que o definam, o dia 14 de maio explica melhor o que aconteceu: abandono à própria sorte, com a perspectiva de que os descendentes de africanos deixassem de existir no Brasil em 100, ou 200 anos.

Quanto à relação da princesa com a Abolição, existe um interessante momento ainda a ser melhor estudado por aqui – indicação a historiadores. Quatro anos antes da assinatura da lei, ocorreu a Campanha Abolicionista em Porto Alegre que levou a Câmara de Vereadores da cidade a declarar em sessão solene no dia 7 de Setembro a cidade livre do escravismo, pelo menos formal. Logo depois do ato e da quermesse que se seguiu para festejar a ação dos ‘benfeitores’ que libertaram seus escravizados – todos mediante compensação pecuniária, claro, ou por contratos de prestação de serviço gratuitos por alguns anos ainda – esses contratos comprometeram inclusive muitas pessoas depois da Abolição legal. Tudo isso para dizer que poucos meses depois desse ato a princesa e o Conde D’Eu anunciaram uma visita ao Estado. Esta visita está registrada no Livro de Ouro, produzido e oferecido à Câmara pelo Centro Abolicionista, sem mais explicações. Qual a razão efetiva da visita oficial que não a reafirmação do poder monárquico escravista?

A chegada da República não alterou a relação do estado e da sociedade com os africanos e seus descendentes. Aliás, foi essa que promoveu a primeira política pública direcionada à população negra, ou melhor, a eliminação da população negra que foi a constituição de forças militares na cidade para controlar o chamado ‘perigo negro’ e, claro, todas as políticas de branqueamento da população, incluindo a imigração e o estímulo a mestiçagem. Essas se somaram a todas as barreiras simbólicas construídas durante os quase quatro séculos de escravismo e consequente desumanização. A resistência, neste contexto, aprofundou-se e formulou outras estratégias. Algumas mais articuladas, como associações, clubes, imprensa, grupos culturais, grupos políticos, quilombos, coletivos, e outras mais cotidianas e familiares de oralidade, reafirmando na luta a alegria de estar junto.

Nas histórias de nossas famílias, contadas pelos mais velhos, há passagens de recusa da condição de escravo, apesar da situação. Minha tia-avó, Brena, que faleceu há dois anos, com 97 de idade, costumava contar com orgulho a história de seu avô, meu trisavô, que fugiu de Pedras Brancas depois de matar a ‘sinhazinha’ que o maltratava com a enxada com que trabalhava. Contava essa história nos encontros de nossa família na grande mesa em que nos reuníamos principalmente no dia de Natal, aniversário de minha bisavó, Natalícia, uma das benzedeiras do Mont’Serrat, canto tardio da então denominada Colônia Africana em Porto Alegre.

Essas histórias de liberdade nos interessam mais e nos provocam, como o do texto efetivamente decolonial da historiadora e intelectual negra Ana Flávia Magalhães Pinto, Escritos de Liberdade. Voltando-se ao período do escravismo, desloca seu olhar para os negros livres e libertos que são continuamente silenciados pela historiografia, cujo processo se renova a cada 13, quando se fala da princesa e não das relações de uma sociedade em que, segundo o censo de 1872, 60% da população era negra e destes três em cada quatro vivam livremente. A experiência de liberdade, nos mostra ela, é muito anterior à assinatura do dia 13. Seu livro conta a vida e a articulação de homens negros livres neste contexto.

São essas histórias de liberdade que nos interessam mais hoje. Por isso, o 20 de novembro. Por isso, a alegria frente aos deslocamentos epistêmicos que falam dessa liberdade que sempre existiu apesar do escravismo. A assinatura da lei, portanto, nos serve de testemunho do monstruoso sistema que provocou o maior genocídio legalizado da história da humanidade – genocídio esse que segue no cotidiano da população negra, como ocorrido em Jacarezinho e a cada 23 minutos em algum lugar do Brasil.

Portanto, a insistência na Redentora objetiva por um lado a redenção e o esquecimento da brutalidade branca e, por outro, o silenciamento e a fixação dessa imagem de controle passividade/dependência. A tomada de consciência dessa condição é a verdadeira liberdade. Por isso, ainda se discute no sistema de ensino oficial quase 20 anos depois a implementação e não a efetivação da 10.639. Nesses tempos, é Lei que nos interessa.

*escrita ao ritmo/canto de Mateus Aleluia

BUENO, Winnie. Imagens de controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins. Porto Alegre, Zouk, 2020.

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

PINTO, Ana Flávia Magalhães. Escritos de liberdade. Literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista. Campinas: Unicamp, 2018.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s