Reflexos da Pandemia | Cristiano Fretta: A descoberta de um diário: a descoberta do outro

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

“Tu precisa ir lá, Cris” – disse o meu amigo em um movimentado fim de tarde na Rua da Praia. Estávamos sentados em um bar em frente à Casa de Cultura, o ano era 2016. Pessoas iam e vinham pela calçada, o barulho dos carros pela rua estreia: pressa cansada no final de um dia normal. A ideia de que em alguns anos uma pandemia tiraria centenas de milhares de vidas brasileiras soaria como um delírio apocalíptico naquela circunstância. Impossível supor que em alguns anos um simples aperto de mão ou beijo no rosto poderia significar risco de morte. O outro também era o contato com o corpo do outro. E nisso não havia problema algum.

Naquela conversa, há muito marcada, várias vezes adiada e finalmente ocorrida, meu amigo me falou, entre inúmeras outras pautas aleatórias, sobre um antiquário que ele havia por acaso descoberto na zona leste de Porto Alegre. Tratava-se, segundo ele, de um lugar muito curioso, em que se era possível encontrar quase tudo. Sabendo da minha, por assim dizer, curiosidade por qualquer coisa que remeta ao passado, meu amigo resolveu me estimular a ir até o local.

“Tu precisa ir lá, Cris” – repetiu ele.

A insistência deu certo: disse a ele que, quando fosse possível, eu iria. A verdade é que eu estava um pouco afoito por conhecer o lugar. Sempre gostei de antiquários. Ver objetos de outras épocas e cuja presença moldou a estética de lugares e o cotidiano de pessoas desconhecidas estimula a minha imaginação. Há nos objetos velhos à venda a frieza material da passagem do tempo.

No outro dia à tarde, após ter dado oito períodos de aula, lá estava eu estacionando o carro em frente ao local. Desci do veículo e olhei a fachada: em nada lembrava qualquer antiquário a que eu já tivesse ido, como os do Bom Fim, por exemplo. Tratava-se de uma construção branca de três pisos, com uma pequena área na frente, que mais parecia a entrada de um ferro-velho. Havia de tudo por ali: para-choque de carros, calotas, tonéis, arames, enfim, toda sorte de coisas, a grande maioria corroída pela ferrugem. A primeira impressão não foi das melhores, confesso. Quando passei pela porta, fui envolto em um amplo ambiente, abarrotado de coisas. Eu não sabia para onde olhar primeiro. Tratava-se de um imenso saguão sem divisórias, lotado de coisas velhas. À minha esquerda, estantes, sofás, cadeiras, panelas, mesas. À direita, balcões com rádios velhos, carcaças de televisão, roupeiros. Havia um corredor de uns dez metros entre esse caos. Mais para o fundo, à direita, dezenas de cabides com roupas velhas. Para todo canto que se olhasse, havia alguma coisa: cinzeiros, potes, ferros de passar, telefones, ventiladores, vasos, livros, almofadas, talheres, pratos, caixas. As palavras não conseguem descrever com precisão o universo caótico de coisas antigas que havia naquele local. Sentado em uma cadeira ao final do corredor, um senhor idoso me cumprimentou e perguntou se eu queria alguma coisa.

– Estou apenas dando uma olhadinha – respondi.

Parei para observar uma escrivaninha à minha direita. Abri as gavetas: elas estavam cheias de bijuterias. Fiquei pensando por qual circunstância aquele móvel havia chegado até ali. Em cima dela, havia toda a sorte de coisas: lista telefônica, estojos de maquiagem, pequenos espelhos, pentes, canetas, lápis – e uma agenda preta de 2009. Peguei-a e a folhei. Tratava-se de um diário. Sim, eu havia encontrado um diário. Fiquei surpreso e estimulado com a descoberta. Isso não era uma coisa que acontecia todo dia. Eram páginas e mais páginas preenchidas de caneta azul, com uma bonita letra cursiva. Ali parado, li aleatoriamente alguns trechos e não tive dúvida de que eu havia colocado a mão não só em um diário, mas também em uma tentativa de elevar a vida comum ao status de arte escrita. Nas poucas linhas que li, parado e surpreso no meio de tanta coisa velha, eu percebi que por meio daquele diário havia uma pessoa em busca de sinceridade não para comigo, mas sim para consigo mesma.

– Quanto custa? – perguntei ao senhor.

Ele apertou os olhos olhando para a agenda e disse:

– Me dá dez reais.

Fui até ele e lhe dei o dinheiro. Saí do local logo em seguida, segurando a minha descoberta. Nos semáforos, eu folheava o objeto e lia pequenos trechos aleatórios. Assim que cheguei em casa, me atirei em cima da cama e pus-me a ler avidamente aquelas linhas. A curiosidade que me consumia era não só quanto ao texto em si, mas também em relação à possibilidade de acessar um mundo íntimo de uma pessoa que eu não conhecia.

Passei um café e fiquei boa parte da tarde lendo o diário, sentado no sofá. Não havia nenhuma referência ao nome do autor das linhas, mas os adjetivos no feminino me demonstravam que, sem dúvida, era o diário de uma mulher. A grande maioria das linhas dizia respeito a profundas reflexões existenciais, por vezes trespassadas por uma visceral angústia niilista. Não havia ordem cronológica entre os trechos. Eu percorri por meio dos sentimentos da desconhecida autora daquelas linhas inúmeras ruas de Porto Alegre, frequentei ensaios de peças de teatro, compartilhei dúvidas, anseios e medos quanto ao futuro. Um diário é uma tentativa de organizar um sujeito fragmentado, na consciência de que há verdades objetivas por trás da existência – e ali estava eu, tentando acessar essas verdades.

Contei para algumas pessoas sobre a minha descoberta. A maioria mostrou-se sinceramente surpreendida, e não foram poucos os que me disseram que eu deveria escrever um livro tendo o diário como base. No entanto, passada a novidade, fui engolido pela rotina e guardei a agenda no meio de inúmeros outros papéis meus. Ele ficou guardado durante cerca de cinco anos.

Em março de 2021 eu tive Covid. Foram duas semanas de sintomas físicos e, principalmente, muito medo. Durante este período, as tarefas mais simples do cotidiano se tornaram muito desafiadoras. Guardar as compras que me deixavam em frente de casa, por exemplo, me causava um enorme cansaço. Tive 10% de comprometimento pulmonar. Aos poucos, no entanto, o corpo foi dando sinais de melhora, embora eu só tenha melhorado por completo cerca de um mês e meio depois do início dos sintomas. Assim que consegui voltar a trabalhar e retomar minha vida normal, lembrei-me do diário. Resgatei-o em meio às minhas coisas guardadas e o li novamente. Um texto é sempre uma tradução de um mundo, e acessá- lo era para mim como que um abraço em forma de verbo. Nada mais justo em meio a uma pandemia do que um abraço, mesmo que fosse em forma de texto.

Eu queria localizar a autora daquelas linhas, dizer-lhe que havia um pedaço dela comigo, fruto do mais puro acaso. No texto, havia algumas referências à peça Parasitas, encenada no Porto Alegre em Cena de 2010. Pelo que tinha escrito, não havia dúvida de que a autora do diário havia participado da peça. Fui ao Google, atrás das referências. Encontrei uma pequena crítica sobre o espetáculo, com a ficha técnica de todo o pessoal envolvido. Havia três mulheres. Entrei em contato com elas, via Instagram. Não foi difícil encontrar a autora do diário que eu tinha em mãos: assim que eu mandei a primeira foto, ela se surpreendeu. Segundo ela, o objeto possivelmente foi colocado fora durante alguma de suas inúmeras mudanças. Alguém, então, pegou-o, talvez junto com outras coisas, e o vendeu ao antiquário a que eu havia ido. “Eu estou me sentindo nua”, foi o que a autora do texto me escreveu, quando me confirmou que o diário era realmente dela. Não era para menos. Por meio de um texto eu fiquei sabendo de detalhes de sua vida privada, suas angústias e medos. O diário não havia sido escrito para mim, mas sim para ela mesma. A minha leitura daquele texto era, portanto, transgressiva, na medida em que eu entortava o objetivo enunciativo em minha direção.

A leitura tem um poder, explicitado durante este período de pandemia, que é justamente nos afagar não só com a estética da escrita, mas também com os discursos sobre o outro. É claro que ela é um processo individual que, em última análise, pode ser compreendida como uma decodificação de sinais não só escritos, mas também visuais, sonoros e gestuais, entre outros. No entanto, para muito além de uma visão meramente mecanizada do ato, a leitura também é tecer uma ponte enunciativa por meio de dois sujeitos; de forma intencional ou não, o texto é por si só um diálogo. A leitura, portanto, não deixa de ser um ato de aglomeração.

A autora do diário atualmente não mora no Brasil e diz não se lembrar mais do que está escrito. Não há motivo algum para eu reproduzir trechos que a exponham, afinal de contas, como já foi dito, o diário é uma escrita de si para si, acima de tudo. No entanto, aqui peço licença para reproduzir uma pequena parte, escrita em julho de 2010: “Às vezes acho que fui contaminada com um vírus que tira todo o sabor das coisas e não deixa encontrar a felicidade”. Encontrar o seu diário e poder estabelecer com ela um pequeno diálogo sem dúvida perspectiva o seu texto como um potencializador de relações humanas – e isso também é felicidade. E, se nem todos os vírus podem ser sanados com a leitura e com a escrita, sem dúvida elas dão a poucos uma esperança mínima, parafraseando Drummond. E, por mais que sempre se perca sentidos ao se tentar transformar a complexidade das sensações humanas em palavras, é possível que sempre haja, em algum canto qualquer, perdidos por entre coisas descartadas, diários a serem descobertos.

Cristiano Fretta tem 33 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, e Passa Palavra.

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