Luís Augusto Fischer lança livro que propõe nova forma de contar a história da literatura no Brasil

Em lançamento pela Arquipélago Editorial, o autor situa a história social brasileira como referência indispensável para pensar a literatura no país

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Com um repertório de quarenta anos dedicados a pesquisar, escrever e ensinar sobre história da literatura, Luís Augusto Fischer lança seu novo livro, Duas formações, uma história – das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio. Na obra, o autor apresenta um novo jeito de pensar e de contar a história da literatura brasileira, propondo um olhar que a situe não enquanto área isolada, mas em pleno diálogo com a história social do país. O lançamento chega às livrarias no dia 16 de agosto.

Duas formações, uma história é resultado da pesquisa de pós-doutorado de Fischer, realizada na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, na França. Ao longo das páginas, o autor reflete sobre os múltiplos elementos que atravessam o percurso literário do Brasil, desde nosso passado colonial até dilemas contemporâneos, como o livro digital, as redes sociais e o apego às metrópoles. Destaca, ainda, a importância da canção, da voz dos povos indígenas e do movimento feminista como fenômenos sociais e históricos que devem ser levados em conta nessa narrativa.

Muito mais do que fazer uma retrospectiva de obras e autores que marcaram a literatura brasileira, o autor se debruça sobre a forma como a trajetória literária do país tem sido pensada e contada. Passando por várias gerações de historiadores e por referências centrais como Antonio Candido, Roberto Schwarz e Alfredo Bosi, autores minuciosamente discutidos no estudo, Fischer destaca as virtudes e limitações que percebe nos modelos analíticos estabelecidos e indica possíveis aproximações e caminhos para avançar. Evoca pensadores como Franco Moretti, Ángel Rama, José H. Dacanal, Mikhail Bakhtin e Stephen Jay Gould, trazendo suas ideias para o âmbito do debate. Propõe incorporar cenários, relações sociais e literaturas antes pouco lembrados, como os do sertão.

Abraçando a complexidade de seu objetivo — propor uma forma diferente de contar a história da literatura brasileira —, Fischer traça um panorama abrangente do caminho percorrido até aqui e deixa suas reflexões como rica contribuição para a construção conjunta dessa narrativa. “Este livro é uma resposta positiva. Crítica e complexa, empenhada e cautelosa, mas positiva. Não é uma nova história da literatura, não é um relato organizado; é uma reflexão sobre as condições para que uma nova história da literatura brasileira seja escrita”, afirma.

Confira um trecho abaixo:

“O primeiro e mais importante conceito que quero evocar aqui tem a ver justamente com o “sistema literário” candidiano. Trata-se da noção de comarca. (…) No sul do Brasil essa percepção é algo relativamente trivial, uma vez conhecida a grande semelhança de vozes líricas e narrativas, assim como de estilos literários e artísticos em geral, nos dois lados da fronteira do Brasil com o Uruguai e a Argentina, e antes disso de base empírica e de vivência cultural, por exemplo entre obras que se costumam agrupar sob o nome de ‘gauchesca’, de que o Martín Fierro, argentino, é a figura mais conhecida, e de que um Simões Lopes Neto, brasileiro do extremo sul, faz parte. Trata-se de uma tradição literária bastante reconhecível em sua relativa homogeneidade — o cenário do pampa, o ambiente econômico ligado ao trato com o gado, a figura do gaúcho a cavalo, as guerras de fronteira, narradores-testemunho encarnando figuras populares do mundo rural e não letrados urbanos —, muito superior a diferenças desde logo salientes, entre duas línguas, o espanhol e o português, e entre três países, Argentina, Brasil e Uruguai. Que formação é esta? É um sistema, no sentido de Candido? Parece que sim, uma tradição com autores, obras e público leitor, formando um continuum que se realimenta e contando com o terceiro e o quarto fatores decisivos, tal como postulado na parte anterior — a tomada de consciência e a formulação de soluções estéticas originais (e de grande alcance), na mão de Jorge Luis Borges. Apenas uma distinção, nada desprezível: não coincide esta linhagem, esse circuito, com uma formação nacional. Aí entra a categoria da comarca.”

Sobre o autor
Luís Augusto Fischer é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É autor de Quatro negros (novela) e Dicionário de porto-alegrês, entre outros. Pela Arquipélago Editorial, publicou Machado e Borges – E outros ensaios sobre Machado de Assis e Inteligência com dor – Nelson Rodrigues ensaísta, vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura, além de Filosofia mínima – Ler, escrever, ensinar, aprender, finalista do Prêmio Jabuti.

Duas formações, uma História – Das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio
Luís Augusto Fischer
400 p.
R$ 79,90
Arquipélago Editorial

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