Cristiano Fretta: Tinha um caminho no meio da pedra

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

“Conforme sua idade foi avançando, aos desmaios foram se somando certas crises que misturavam ansiedade e doses de violência”

Muito pouco convivi com a minha tia Terezinha. Quando ela faleceu, em 1990, eu tinha apenas 3 anos, e ela, 57. Guardo apenas algumas lembranças suas que, em forma de cenas aleatórias, estão grudadas na parede da minha memória. Lembro, por exemplo, de uma vez em que ela me pegou no colo e me sorriu com aquele seu rosto peculiar e, no entanto, sempre maquiado e com os cabelos penteados. Seus olhos pequenos contrastavam com o tamanho imenso de seu rosto. Tudo o que sei sobre sua vida chegou até mim por meio de fragmentos que minha mãe e meus tios me contaram ao longo dos anos. Eu os juntei aos poucos, de forma a criar uma acanhada biografia. E de uma coisa não tenho dúvidas: tia Terezinha sofreu muito.

Em relação ao sofrimento humano, o Cristianismo, assim como outras religiões, professa a ideia de que a expulsão do homem do paraíso deu início a uma existência atribulada em uma espécie de vale de lágrimas, que é a vida. Passada tal provação, a morte revelaria um regresso ao tal paraíso, desde que, é claro, determinadas condutas de submissão a preceitos éticos estabelecidos pela religião sejam cumpridas. No caso da tia Terezinha, no entanto, esse vale de lágrimas mais parecia um enredo dirigido por Quentin Tarantino.

O sofrimento de tia Terezinha começou já nos seus primeiros anos de escola, no antigo Ginásio Santa Terezinha (incorporado ao Colégio La Salle São João nos anos 70), que por ironia do destino tinha o seu nome. Por ser uma menina muito tímida, sofria todo tipo de bullying, desde puxões de cabelo até fincadas de lápis por parte de suas colegas. Por causa de seu péssimo desempenho escolar, os castigos também vinham das freiras, que inúmeras vezes a humilhavam, obrigando minha tia a, por exemplo, ajoelhar-se em grãos de milho e colocar chapéu de burro. Não demorou muito para que minha vó e meu vô percebessem que tia Terezinha era uma menina, como se diz hoje, “especial” e, portanto, intolerável ao opressivo ambiente escolar do início dos anos 40. Dessa forma, aos 8 anos a escola ficou para trás. A vida doméstica e o cuidado dos irmãos – 4 ao todo – que nos próximos anos iriam chegar ocupariam todo o resto de sua infância. A adolescência foi lhe chegando com súbitos desmaios e crises de ausências que a acompanhariam pelo resto da vida, com um nunca confirmado diagnóstico de epilepsia. Lembro-me ainda hoje de uma dessas crises, em que ela caiu pesada no chão, tremendo-se toda e revirando os olhos. Depois ficou incontáveis minutos sentada no sofá da sala, o vestido floreado contrastando com a gravidade da situação, ausente de si mesma, até aos poucos começar a emitir frases desconexas depois de dar assustadores gritos enquanto cravava as unhas nos braços do sofá. Ainda na adolescência, aos 15 anos, tia Terezinha precisou operar uma apendicite e, aos 27, um câncer benigno em um dos seios. Conforme sua idade foi avançando, aos desmaios foram se somando certas crises que misturavam ansiedade e doses de violência. Ela se tornava agressiva, tanto física quanto verbalmente. Minha vó já era, então, uma mulher viúva com 5 filhos, e as crises de sua filha mais velha só vinham a lhe pesar mais ainda uma rotina para lá de exigente. Em 1962, então com 29 anos, tia Terezinha foi internada em um hospital psiquiátrico de Porto Alegre. Lá, parte do tratamento era dar-lhe sedativos na veia, a fim de que se acalmasse. Mas o destino havia lhe reservado mais uma peça: por algum motivo que minha família nunca quis investigar a fundo, uma simples injeção acabou por lhe causar uma gangrena no braço direito. Em poucos dias houve a necessidade de amputação do membro, na altura do cotovelo. Tia Terezinha voltou para casa, não só psicologicamente pior, mas também sem um pedaço do corpo. Em 1983, após um ganho expressivo de peso ao longo de apenas alguns meses, foi necessária uma cirurgia na tireoide para a retirada de alguns caroços. E assim tia Terezinha chegou aos 50 anos: com a capacidade cognitiva de uma criança, com o corpo brutalmente marcado por inúmeras efemeridades e com o emocional sempre à beira de um colapso.

Mesmo em meio a tantas intempéries, tia Terezinha cultivava, no entanto, o hábito de ler poesia desde sua adolescência. Ninguém sabe ao certo quando ou por que esse interesse teve início, mas com certeza não foi por exemplo familiar. Ela possuía uma estante com dezenas de volumes, ao lado da porta de entrada de seu quarto. Infelizmente eu ainda era muito pequeno para poder vasculhar aqueles tomos. Tia Terezinha passava tardes inteiras absorta em versos. Ela também possuía inúmeros cadernos em que copiava os trechos de que mais gostava. Já indaguei minha mãe muitas vezes sobre que livros eram esses ou se pelo menos sabia o nome de algum dos autores. Ela alega que a maioria eram poesias religiosas ou sobre a natureza, “coisas mais infantis”. Mas havia uma exceção: tia Terezinha gostava muito de Carlos Drummond de Andrade.

O tempo, da mesma forma que é um grande contador de histórias, é também o mais frio dos narradores: não distingue o que é justo do que é injusto nos trajetos das pessoas. Mais de uma década separariam a morte de tia Terezinha até que eu, pela primeira vez, lesse um verso de Drummond. Mas que tipo de compreensão minha tia, com sua cognição tão restrita, poderia ter do texto de um poeta tão polissêmico quanto Drummond? Justamente ela, que jamais havia andado de mãos dadas com ninguém que não fosse a doença, ela, cujos ombros suportavam o peso de toneladas de bullyings, ela, para quem a festa nunca sequer havia começado, ela, que já havia nascido um anjo torto, ela, que nunca se casaria com um J. Pinto Fernandes. De alguma forma o texto do ilustre poeta gauche de Itabira havia feito sentido para a gauche desconhecida da zona norte de Porto Alegre. Eu a imagino, absorta nos versos, imersa no texto, e, dessa forma, mesmo à margem de qualquer engrenagem da sociedade dita civilizada, incorporada ao sentimento do mundo.

No entanto, a vida ainda lhe reservava um último ato, como que para sacramentar que aquela não seria uma existência que poderia se encerrar com algum tipo de tranquilidade. Foi assim que no mês em que eu completava dois anos de vida, em agosto de 1989, o câncer tomou conta de seu corpo. Inúmeros tumores foram surgindo em locais distintos, até que um se destacou e ganhou volume. Aos poucos uma enorme forma roxa foi deformando o lado esquerdo de sua face, elevando o canto superior de seu lábio e pressionando o seu olho esquerdo. O prognóstico dos médicos foi assertivo: ela não teria mais do que alguns meses de vida. As dores aumentavam na mesma proporção que o tumor crescia em seu rosto e se espalhava cada vez mais pelo resto do corpo. Tia Terezinha, então, não saía mais para a rua sequer para ir à padaria, como antes fazia. Ela passava os dias deitada em sua cama, lendo poesia apenas com o olho direito, já que havia perdido a visão do esquerdo. Suas crises também aumentaram e pelo menos uma vez na semana ela desmaiava ou tinha ataques de fúria. Minha vó e meus tios viviam uma ansiedade e cansaço constantes.

Até que, em um dia à tarde, tia Terezinha se arrumou toda e resolveu ir à padaria, como fazia todos os dias antes do surgimento dos tumores. Minha vó não teve coragem de dissuadi-la, afinal de contas já fazia semanas que ela não saía de casa. Ela colocou um de seus vestidos floreados, pôs muito perfume, encheu o rosto de maquiagem e saiu porta a fora. A padaria era próxima, de forma que apenas uns 10 minutos depois tia Terezinha já estava de volta. Ela abriu a porta da cozinha, jogou a sacola de pães em cima da mesa e foi correndo para o seu quarto. Minha vó foi atrás. Tia Terezinha estava em um acesso de raiva, jogando os livros da estante no chão, quase rasgando sua própria roupa, derrubando seus vidros de perfume de cima da cabeceira de sua cama enquanto gritava de raiva. Em vão minha vó tentava controlá- la. Tia Terezinha saiu do quarto urrando por toda a casa e durante intermináveis minutos derrubou e quebrou objetos em todas as peças, sob as súplicas chorosas e desesperadas de minha vó. Ela só se acalmou quando, extenuada, caiu sobre o sofá da sala e disse que precisava dar um jeito de arrancar aquela pedra de seu rosto. Horas mais tarde, quando todos os tios estavam reunidos (pelo que sei, fiquei em casa com meu pai), ela por fim conseguiu contar que, quando estava voltando da padaria um grupo de guris que sempre jogava bola na esquina começou a rir dela, atirando pedras em sua direção e dizendo que ela trazia uma enorme pedra no rosto. Logo ela, que sempre tinha tanta vaidade e cuidado com a sua face!

Daquele dia em diante, seu estado de saúde só piorou e ela nunca mais colocou o pé na rua. As dores aumentaram gradativamente e eu a vi apenas mais uma vez antes de sua morte. Meus pais evitavam me levar na casa de minha vó, na certa não queriam me expor a tamanha degradação física e psicológica. Houve um dia, no entanto, que me levaram para ver tia Terezinha. Eu fiquei na sala esperando que ela surgisse. Ela então apareceu, amparada pelos meus pais e se sentou na poltrona ao meu lado. A seguir, pegou-me no colo. Eu vi com muita nitidez aquele seu rosto peculiar, ainda com muita maquiagem, e com os cabelos penteados. O tumor realmente parecia uma pedra imensa encravada em seu rosto, deformando-o por inteiro. Mesmo assim, ela sorria para mim.

Algumas semanas depois dessa visita, ela faleceu, em seu próprio quarto, em meio a remédios contra a dor e tomada pelo câncer. Os médicos disseram que não havia por que levá-la para hospital algum. Lembro de seu caixão na altura ainda maior que o meu tamanho, minha mãe dizendo para eu não mexer nos pegadores laterais, o cheiro de crisântemo e o choro de minha vó. Em seu rosto, aquela imensa pedra.

No dia seguinte ao velório, minha vó em segredo carregou todos os livros e cadernos de minha tia para os fundos de casa. A seguir, colocou-os dentro da churrasqueira e passou o dia incinerando tudo. A operação deve ter sido feita em várias etapas e demorado um dia inteiro, tendo em vista o volume do material. Quando minha mãe e meus tios souberam, ficaram chocados, mas não tiveram coragem de julgá-la. Muitos anos depois, quando acumular livros em estantes passou a me trazer uma intelectual sensação de felicidade, o instinto pirotécnico de minha vó também me causou estupefação, mas também eu não consegui julgá- la. Eu gostaria de dizer que minha mãe chegou a tempo de salvar um único caderno de anotações, de forma a ter registro de quais eram os versos de Drummond que minha tia Terezinha mais gostava, mas infelizmente não foi isso que aconteceu e, naquele fogo, mesmo cumprida uma justa catarse de minha vó, minha tia morreu mais um pouco. Eu também gostaria de dizer que sobre o túmulo de minha tia, no cemitério São João Batista, na zona norte de Porto Alegre, nasceu uma única Rosa, tal qual o poema de Drummond, mas a realidade na maioria das vezes desconhece as metáforas e no local há apenas mais um jazigo cinza, onde estão guardados os restos de tia Terezinha, de meu vô, de minha vó e de mais uma tia.

Desnecessário dizer que Drummond é um de meus poetas favoritos. Sempre que ponho os olhos em um de seus versos tenho consciência de que retiro um pouco daqueles livros e cadernos de dentro daquele fogo naquele já longínquo dia de 1990. Pesa-me sobre as mãos um livro de Carlos Drummond de Andrade; sobre a memória, pesam-me os fragmentos da vida de minha tia Terezinha; sobre a minha escrita, pesa-me a responsabilidade de dar um pouco mais de vida a uma existência tão calejada e particular, que ainda assim soube apreciar poesia – e que a poesia seja caminho no meio das pedras desta vida, nem sempre justa.

Cristiano Fretta tem 33 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, e Passa Palavra.

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