O protagonismo da poesia amefricana em Orisun Oro

Criado a partir de Porto Alegre, selo editorial dedica-se à publicação de poetas negras latinoamericanas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

A cena editorial do Rio Grande do Sul entrega agora para a comunidade de leitores uma das iniciativas mais inovadoras e insurgentes surgidas na última década. Aprovado no Edital Diversidade das Culturas, da Fundação Marcopolo, como um dos projetos mais relevantes na área de diversidade linguística, Orisun Oro, que pode ser traduzido da língua yorubá como “a fonte da palavra”, consiste na divulgação do trabalho de mulheres poetas afrodiaspóricas da América Latina e do Caribe. Na primeira etapa, o selo realiza a publicação bilíngue de obras originalmente escritas em espanhol por Mayra Santos-Febres, de Porto Rico, com Conjuro da Guiné, Georgina Herrera, de Cuba, com Cabeças de Ifé, e Graciela Gonzalez Paz, da Argentina, com Zambeze. As publicações visam promover a circulação da améfrica espanhola em territórios de língua portuguesa.

Mayra Santos-Febres, Georgina Herrera e Graciela Gonzalez Paz são as primeiras autoras amefricanas traduzidas pela casa editorial. Divulgação.

O protagonismo de mulheres negras se expressa em todo o processo de constituição editorial, iniciado desde a elaboração do projeto, contato e conversas com as autoras, seleção dos poemas, tradução, revisão, diagramação e publicação final. A experiência circulatória da visibilidade e do reconhecimento da produção também traz obras de poetas negras vivas, com valorização e justo pagamento dos seus direitos autorais. As coordenadoras Eliane Marques e Michele Zgiet apontam que se faz necessária e prioritária a constituição desta teia editorial coletiva, uma vez que o mercado hegemônico não privilegia a publicação de poemas, especialmente quando escritos por autoras mulheres afrodiaspóricas, tendo como consequência, o apagamento histórico de produções literárias de grande valor.

Quanto à tradução, a Orisun Oro conta com o seu próprio clube de tradutoras – Clubamefricana das Tradutoras – do qual fazem parte Eliane Marques, que também assina como idealizadora e uma das coordenadoras do projeto, além de Mariangela Ferreira Andrade e Katherine Castrillo.

Mulheres amefricanas publicam mulheres amefricanas

As coordenadoras do selo Orisun Oro inspiram-se no conceito político-cultural que a intelectual negra Lélia Gonzalez alcunhou de amefricanidade, que se constitui na recuperação e na unificação de processos insurgentes afrolatinoamericanos, historicamente protagonizados por mulheres negras e indígenas contra as estruturais violências de gênero, raça, classe e nacionalidade. De acordo com a poeta Eliane Marques, com base em Lélia Gonzalez “a categoria amefricanidade, ancorada em modelos como o akan (Jamaica); iorubá, banto e ewe-fon (Brasil); e nos diversos modos indígenas anteriores às invasões, permite romper com as fronteiras de caráter territorial, linguístico e ideológico, incluindo as Américas do Sul, Central, Insular e do Norte em um arcabouço comum de resistência, reinterpretação e criação de novas formas de existir”.

Com uma proposta de disrupção e antidominção, o projeto permite que a produção de três autoras de língua espanhola, mas de países diferentes da América Latina e Caribe, sejam incluídas nos campos de pesquisa, da literatura e do conhecimento, refletidos pelo olhar de reconhecimento e alteridade, ao passo que revertem a dinâmica do silenciamento e da exclusão e constituem novos marcos no campo da publicação editorial.

O selo prevê a publicação de da tiragem de 300 exemplares de cada livro traduzido, com um total de 900 exemplares, com distribuição comercial e social e o oferecimento gratuito de uma oficina online de tradução com o Clube das Tradutoras. As pessoas interessadas podem acompanhar diretamente no instagram @orisun.oro.

Além das autoras anunciadas, a Orisun Oro conta com as seguintes profissionais: Aline Rosa (redes sociais e marketing), Aline Gonçalves (direção de arte-design e diagramação), Eliane Marques (coordenação, tradução de Cabeças de Ifé, de Georgina Herrera, e supervisão geral das traduções), Katherine Castrillo (tradução de Zambeze, de Graciela G. Paz), Mariangela Andrade (tradução de Conjuro da Guiné, de Mayra Santos- Febres), Michele Zgiet (coordenação, redes sociais e recursos humanos), Iléa Ferraz e Mitti Mendonça (ilustração), Marcela Villavella (revisão da tradução de Georgina Herrera e consultoria em espanhol), Carina de C. Álvarez (revisão das traduções de Mayra Santos-Febres e Graciela G. Paz).

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