Deivison Campos: Consciência, Feira e Brutalismo

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Me parece que a sombra daquela Editora Revisão volta de uma maneira indireta, mas igualmente ameaçadora

Eu queria poder escrever somente sobre os 50 anos da evocação do 20 de Novembro, proposta por um grupo de jovens negros que, em 1971, se reuniu para opor-se ao 13 de maio. Essa data carrega uma quantidade indizível de significantes. A principal deles, no entanto, entendo ser o deslizamento de uma ideia de liberdade concedida pelas elites, representadas pela princesa, para a imposição de uma liberdade conquistada. Isso mudou tudo. Somente depois desse entendimento, que é fruto de um processo histórico iniciado na chegada do primeiro escravizado africano, é que foi possível superar o canto da sereia do branqueamento como possibilidade de acesso aos direitos de cidadania, substituído por uma perspectiva negra.

Abdias do Nascimento havia apontado o caminho com o Teatro Experimental do Negro e Palmares apontou o Norte que orientou a caminhada. Foi dessa forma que chegamos à marcha Zumbi 300 anos, realizada em 1995, que exigiu e abriu possibilidades para todo o conjunto de políticas públicas conquistadas a partir de então. Não é possível pensar o movimento negro contemporâneo, como gostava de dizer Oliveira Silveira, sem esta ideia original.

Sobre Oliveira, um dos integrantes iniciais do grupo Palmares, já escrevi por aqui. Gostaria de referir igualmente Antônio Carlos Côrtes, o integrante que resta vivo daquele grupo que fomentou os primeiros debates na Rua da Praia que levaram à evocação. Também Helena Machado, um nome pouco falado nestes dias, mas imenso na consolidação dessa ideia. Como pesquisador do 20, infiro ser dela a condução dos debates que ampliaram os sentidos do 20. Não por acaso, Helena assina o primeiro manifesto público do Grupo Palmares em 1972, inserido num caderno especial produzido pelo jornal Zero Hora.

O manifesto evoca um passado comunitarista e resistente, congrega demandas históricas e projeta questões futuras e presentes, como o caráter global do racismo e a revisão da historiografia e dos materiais didáticos, entre muitos outros. Também conclama à resistência negra frente ao racismo que estrutura nossas relações sociais e, ao mesmo tempo, a ressignificação da ideia de quilombo e da identidade negra na diáspora brasileira. Estamos num mês importante para os que resistem das mais diferentes formas num tempo que se mostra sombrio.

Por isso, infelizmente, terei de tratar de um assunto que tem me chamado a atenção há algum tempo. No retorno de uma viagem pouco antes do início da pandemia, em setembro de 2019, observei que nas estantes das livrarias dos aeroportos – Belém, Brasília e São Paulo, sobressaíam-se livros cujas capas ostentavam símbolos do nazismo e/ou a foto de Hitler. Aquilo me inquietou e até postei um comentário no Instagram (@deivisoncampos).

Para minha surpresa, ou não tanta, isso também me chamou a atenção nas bancas da Feira do Livro deste ano. Olhei com mais atenção, fiz alguns registros e fiquei perplexo ao ver um policial militar em serviço chegar à Feira de moto com sua dupla e ir direto ao livro cuja capa ostentava a foto de Hitler. A maioria dos livros fala sobre a vitória contra o nazismo, os planos infundados do ditador, a queda do Reich etc. No entanto, não é isso o que fica para os que olham. Ficam as imagens de suásticas, o homem do bigode inconfundível, a iconografia do delírio nazista – com atenção especial para as insígnias da SS. Considero lamentável a presença tão pronunciada desses símbolos na volta da Feira à praça e que se torna dos marcos da retomada da vida no novo normal.

Num tempo de busca de imposição de um conservadorismo violento, simbólica e fisicamente, circular essas imagens no espaço público com tamanha visibilidade pode fomentar imaginários e vontades. Somado a isso, vivemos num estado em que a presença de grupos neonazistas – alguns identificados pela polícia, é sabida e cujas buscas na internet sobre temas ligados ao nazismo batem recordes a cada ano. Entendo existir demanda e que há custos altos para os livreiros participarem da Feira. No entanto, é preciso pensar se vale a pena o risco. Me parece que a sombra daquela Editora Revisão volta de uma maneira indireta, mas igualmente ameaçadora.

Pensar sobre isso, remete a minha primeira experiência profissional na feira. Era o ano de 1996 e eu me preparava para um boletim ao vivo na rádio Gaúcha. Os boletins ao vivo eram raros naquele tempo, pois a tecnologia de celular ainda era uma novidade. O então produtor, Alexandre Aguiar, me avisou que teria 30 segundos – 30 segundos, enfatizou – para as informações. Quando estava pelo 20º, ouvi gritos e apitos na Feira. Era um protesto contra a presença da barraca da Editora Revisão, do conhecido antissemita já morto e cujo nome prefiro não trazer à vida. Foram muitos minutos de transmissão. Aquele foi o último ano da editora na Feira, mas infelizmente, o último de várias edições que esteve presente.

Essa relação infame com o outro parecia coisa do passado e superado pela prisão e morte do criminoso na Feira. No entanto, a presença daqueles símbolos e dos diferentes sentidos que adquirem em circulação tem me inquietado. Precisamos falar sobre isso. Por que agora? Parece coincidir com a escalada de violência conservadora em nossa sociedade, muitas escondidas atrás de um discurso patriótico imaginário e de distorção histórica. A Feira é lugar para compactuarmos com isso? Haveria grande prejuízo em somente não expor esses símbolos específicos? Eu sei minha resposta.

Num texto que circulou na internet, um pouco descontextualizado, Achille Mbembe chama atenção para o fim do humanismo. Seguindo uma tradição de pensadores negros, apontava não para a extinção, mas para a superação desse projeto excludente de humanismo, ou melhor de humanidade. Junto com as condições do ambiente e do tempo, o projeto colonial produziu fraturas ontológicas, epistêmicas e deontológicas que demandam ser resgatadas. Em seu último livro, recém traduzido para o português pela N-1, o autor aciona a noção de brutalismo para buscar refletir sobre nosso tempo. Busca não por grandes sistematizações, mas, como diz na apresentação, “fazer perguntas que nos permitam desenhar um afresco”. Trata o tema com a linguagem poética que o caracteriza e o aproxima de Fanon, uma de suas principais referências junto com Foucault.

Recomendo as provocações de Mbembe, mas dentro do possível siga a pista desde Saindo da Grande Noite. Existe mais do que uma obra entre as duas publicações, mas um projeto em construção. Um projeto que absolutamente recusa qualquer presença – mesmo que simbólica, do nazismo, e que retoma os sentidos que foram também propostos em Palmares e pelo Grupo Palmares em toda sua potência. Sigamos em luta!

Sobre o 20 de Novembro (link externo)

MBEMBE, Achille. Brutalismo. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: N-1 Edições, 2021.

MBEMBE, Achille. Sair da Grande Noite. Ensaio sobre a África descolonizada. Luanda, Angola: Ed. Pedago/ Ed. Mulemba, 2014.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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