Ana Paula Cecato: Imaginar o futuro

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio/Maurice Sendak/Cosac Naify

“Assim como os combatentes da guerra descritos por Walter Benjamin em ‘Experiência e pobreza‘, voltamos emudecidos após tanta dores, tantos flagelos

“Naquela mesma noite nasceu uma floresta no quarto de Max”
Maurice Sendak, em Onde vivem os monstros

No último 11 de novembro, tive uma alegria daquelas que a gente pensa “Não tenho nem roupa pra isso” ao mediar uma fala da escritora, pesquisadora e educadora colombiana Yolanda Reyes, na programação do 10º Seminário Internacional de Bibliotecas, promovido pelo Conselho Regional de Biblioteconomia da 10ª região (CRB-10) e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e apoiado por outras entidades vinculadas à Biblioteconomia na programação da Feira do Livro de Porto Alegre. Paralelamente, fiz a leitura de seu último livro, lançado durante o período da Feira, “A substância oculta dos contos: as vozes e narrativas que nos constituem”, editado pela Pulo do Gato, na coleção Gato Letrado, que tem sido uma referência na publicação de obras de autores latino-americanos que pensam as questões da leitura literária na contemporaneidade.

A conferência “Decir futuro: sobre el lugar de la imaginación, el arte y la literatura para abrir mundos posibles” proferida pela idealizadora do Instituto Espantapájaros, projeto cultural de formação de leitores voltada à primeira infância e suas famílias, trouxe-nos uma provocação inicial “Como dizer o futuro nestes tempos, quando tudo vem abaixo?”. Yolanda chamou de dissonância cognitiva alguns processos pelos quais temos passado nos últimos tempos, como a insurreição de discursos preconceituosos (ainda antes da pandemia) e o fechamento das bibliotecas e escolas, e a falta de convívio social das crianças e dos idosos – circunstâncias que nos (nós, mediadores de leitura) levam a pensar na necessidade de abraçarmos as palavras, para revertermos a catástrofe, também simbólica.

Entremeada pela leitura da metáfora verbal e visual de Onde vivem os monstros, livro para a infância de Maurice Sendak, Yolanda nos abriu portas para abraçarmos as palavras em nossos lares e nos deslocarmos para outras experiências imaginárias, como fez o menino Max: “Naquela mesma noite nasceu uma floresta no quarto de Max”, que se transformou no mundo inteiro. A personagem se desloca de barco (por quase um ano) até onde vivem os monstros, brincaram, se divertiram, foi proclamado rei do lugar. Mas, ao sentir o cheirinho de comida gostosa, nosso herói quis voltar. E, depois de mais um ano, o lar e o jantar quentinho estavam à sua espera.

Assim como Max, voltamos mudados. Assim como os combatentes da guerra descritos por Walter Benjamin em Experiência e pobreza, voltamos emudecidos após tanta dores, tantos flagelos. A experiência narrativa foi empobrecida. Será preciso encontrar novas formas de narrar o mundo: “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. (…) O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.” (KRENAK, 2019, p.26-27)

Alinhavando a sua fala com os ensaios que compõem o seu recente livro, Yolanda também nos aponta possibilidades para nos (re)pactuarmos com nossa humanidade, tão enfraquecida pela ruptura do pacto social, pelas políticas neoliberais vigentes – na contramão do que bell hooks chama de “políticas públicas conduzidas por uma ética amorosa”. No âmbito da educação, é possível oferecer uma “pedagogia do amor à literatura” que “acolha a imaginação e a sensibilidade e que estimule as crianças a serem recriadoras de textos” (REYES, 2021, p.31), e oferecer uma possibilidade: “E ainda que ler literatura não mude o mundo, pode sim fazer com que se torne mais habitável, porque o fato de nos vermos em perspectiva e de nos reconhecermos na experiência de outras pessoas contribui para abrir novas portas para a sensibilidade e para o entendimento de nós mesmos e dos outros.” (REYES, 2021, p.31-32).

Quem sabe, em 2022, possamos nos propor a imaginar o futuro revivendo uma memória ancestral, a de contar e compartilhar as nossas histórias.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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