Maiara Alvarez: O medo da loba

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Quando a vida dançar cirandas
e poemas desabrocharem em quintais de flores azuis
Quando o sol nascer do outro lado
e sapos coaxarem mormaços de verões…

Embora eu dance descalça ao som da música que diz, em inglês, “Eu sou a filha selvagem da minha mãe, eu não vou cortar meu cabelo, eu não vou baixar minha voz”, tenho medo da mulher loba. Tenho medo de uma ideia que @themaggpie (conta na rede social Tik Tok) resumiu muito bem: “mulheres brancas não têm poder interior, elas brandem o poder dos homens a sua volta”.

Eu sei, é um negócio difícil de ouvir. E por mais que pareça confuso, ela continua explicando basicamente que mulheres brancas aprenderam a se explorar sexualmente e a manipular emocionalmente as pessoas ao redor para conseguir as coisas que querem. E como mulheres brancas não aprenderam de suas mães sobre poder interno, invejam o divino feminino que existe em comunidades negras e indígenas.

Eu sei que tudo isso é verdade porque eu sou uma mulher branca.

uma mulher aprende a língua das árvores na Amazônia,
guarda a semântica antiga dos ciclos do mundo,
lamenta a fumaça que pinga do verde,
sufocando suas narinas e as histórias da mãe terra;
no rio de vapor, o tormento dos que têm sede,
o tormento de quem come a terra;
a mulher lê com a ponta dos dedos
a ranhura de troncos
o rosto tingido com a força de seu espírito,
ser conhecedora pode soar como uma afronta para quem não escuta…

Por isso eu me enchi de sentimentos ambíguos ao pegar o livro um parêntesis sobre distâncias, de Michelle C. Buss. Eu conheço a Michelle de forma superficial, domino talvez um pouco mais a sua escrita. E, sabendo de sua escrita, me veio esse medo da loba. Ao mesmo tempo, também era um carinho gigante receber o livro autografado em minhas mãos. Eu realmente considero muito autores que enviam seus livros a mim.

Foi aí que decidi singrar a primeira distância: Michelle também é algo próximo a mim, é identificável, legível. Eu sabia algo do que viria pela frente. A autora invoca começos, e seus inícios são muito dessas estrelas, chakras, rios e círculos. Coisas que eu vejo, mas não me vejo.

Seguindo o mar, foi apenas nas fronteiras que me vi refletida. Será que já fui fronteira desde o início? Nas fronteiras, talvez, as poesias sejam mais rimadas, as estrofes mais estruturadas, as realidades mais imagéticas e os sentimentos mais palpáveis, a sonoridade dos fonemas vira música alta. Mas, mais que tudo, a nossa realidade: amor, inseguranças, desejos de felicidade eterna — nossas coisas mundanas.

Na lua nova
desapegar dos medos
trançando ações
separar do passado o que foi bom.

Ao continuar minha jornada, agora mais segura dentro do barco que me levava por algo da alma de Michelle — poemas, são, afinal, o que mais tenho medo de resenhar, por suas intrínsecas relações com a psique de suas autoras —, encontrei algo que não foi uma surpresa, pelo seu talento, mas que ainda assim foi surpreendente pela beleza. Suas poesias inspiram. E eu convido você a tentar ser fronteira, também, entre distâncias.

existir ou ser?
me faço questão

Sobre a autora
Michelle C. Buss é escritora e autora de três livros de poesias, entre eles, não nos ensinaram a amar ser mulher (Bestiário, 2018), finalista do Prêmio da Academia Rio-Grandense de Letras, categoria poesia, e finalista do Prêmio AGES Livro do Ano. Mestre em Letras pela UFRGS, na área de Pós-Colonialismo e Identidades, onde pesquisou o Ocultismo na obra de Fernando Pessoa. É também cocriadora do projeto literário Poesia pelo Mundo e, ao lado do poeta Leo Cruz, é curadora do Sarau Poetaria e da live Bate-papo Poético.

um parêntesis sobre distâncias
Michelle C. Buss
114 p.
R$ 44
Editora Bestiário
Comprar aqui (link externo)

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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