Guilherme Smee: Uma biblioteca repleta de… gibis!

“Enquanto não temos dados para 2021 sobre vendas de quadrinhos no Brasil, o site Comichron revelou que o ano de 2021 foi um dos anos mais rentáveis para a indústria de quadrinhos nos últimos 25 anos nos Estados Unidos”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

A pandemia do Covid-19 teve diversas consequências terríveis para muitas existências ao redor do mundo. Uma delas foi afetar o setor econômico fazendo com que muitos negócios fossem prejudicados e até mesmo encerrassem as suas atividades. Entretanto, um setor que foi de certa forma auxiliado pelo contexto da pandemia e do isolamento foi o de venda online de publicações. O segmento dos quadrinhos e mangás também teve um aumento significativo nas vendas. Uma pesquisa feita pelo Instituto GFK, divulgada pelo programa Bom Dia Brasil, revelou que em 2020, o setor pulou da quinta colocação para a segunda na lista de tipos de livros mais vendidos no Brasil. Enquanto não temos dados para 2021 sobre vendas de quadrinhos no Brasil, o site Comichron revelou que o ano de 2021 foi um dos anos mais rentáveis para a indústria de quadrinhos nos últimos 25 anos nos Estados Unidos.

Esse chacoalhão nas vendas dos quadrinhos em nível global e nacional tem a ver com muitos fatores além da pandemia, como a popularidade dos filmes e séries baseados em quadrinhos, a ascensão de eventos presenciais e online voltados para a cultura pop, como a Comic Con Experience, e o comércio online de quadrinhos representado agressivamente pela Amazon. Mas a questão que fica é: o aumento de vendas nos quadrinhos têm renovado seu público e atraído novos leitores para o segmento ou é somente o antigo e nichado público que vem comprando mais e mais itens para sua coleção?

Para Waldomiro Vergueiro, professor e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos na Escola de Comunicações e Artes da USP, as histórias em quadrinhos atuais tiveram uma mudança no perfil de consumo e do público que lê esse tipo de revista. Enquanto se tinha uma visão de que eram apenas crianças que consumiam quadrinhos, esse público era maior e os produtos destinados a eles eram tinham um ticket médio acessível. Quando essa visão de público passou a se voltar a jovens adultos e adultos, houve um afunilamento do mercado, com publicações mais robustas e com qualidade gráfica maior. Por outro lado, as tiragens diminuíram da casa da centena de milhar para a de milhares, o que causou também uma dificuldade no acesso à leitura dessas edições “gourmetizadas” por novos leitores.

Para Vergueiro, a falta de contato com a leitura dos quadrinhos desde a infância acaba prejudicando a formação de novos leitores e de colecionadores fiéis da mídia dos quadrinhos. Outro fator que dificulta o acesso dos novos leitores é concentração da distribuição dos mesmos em regiões populosas, onde são mais comuns a variedade de livrarias e bancas de revistas.

Em contrapartida, Waldomiro Vergueiro vê como uma ferramenta de descentralização e deselitização da leitura a criação de novas gibitecas pelo país e o aumento de títulos em quadrinhos nas bibliotecas públicas como “fatores que ajudam a empurrar, aumentar ou incentivar o consumo de quadrinhos”. Na esteira desta proposta, no dia 5 de novembro de 2021 foi inaugurada a Gibiteca BPE, na Biblioteca Pública do Estado, que fica em Porto Alegre/RS. Por iniciativa da diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas, Morgana Marcon e deste que aqui escreve, no dia do lançamento do espaço a Gibiteca BPE já abrigava dois mil gibis, muitos vindos da minha coleção. As doações foram incrementando o espaço e hoje já conta com mais de três mil títulos, entre quadrinhos brasileiros, europeus, japoneses, mas principalmente os estadunidenses de super-heróis. Conversei com Morgana sobre a iniciativa de colocar um Gibiteca na Biblioteca Pública do Estado e como isso pode impactar a sociedade gaúcha e brasileira.

Morgana Marcon/BPE

Morgana Marcon já está à frente do Sistema Estadual de Bibliotecas desde janeiro de 2003 quando o Rio Grande do Sul era governado por Germano Rigotto (PMDB), desde então, passados mais de quatro governos do estado, Morgana permanece à frente do cargo, sempre com muitas iniciativas para popularizar o sistema de bibliotecas. Desde a época de seu início no cargo, a diretora viu muitas mudanças na cultura como o desmonte da Fundação Instituto Gaúcho Tradição e Folclore, cujo acervo foi destinado à BPE no setor sobre o Rio Grande do Sul. As bibliotecas gaúchas passaram muitos momentos sem recursos próprios, tendo de recorrer à Associação de Amigos da Biblioteca ou participando de editais para fazer o restauro da Biblioteca Pública do Estado, na sua parte estrutural. Ao longo dos governos surgiram novos setores e serviços, como o setor de Braille para o público com deficiência visual, o setor de multimeios foi modernizado, houve a implantação Gibiteca e foi criado o Clube de Leitura da Biblioteca que se reúne mensalmente. A programação de eventos na Biblioteca Pública do Estado foi alterada em função de atrair o público jovem, com feiras, bate-papos e o projeto de música Chapéu Acústico. Foi necessário também adaptar a comunicação da Biblioteca para as redes sociais, com atividades online, dicas de leitura e curiosidades sobre a Biblioteca, sempre com atividades para atrair diferentes tipos de público e também pessoas novas para frequentarem o espaço da Biblioteca.

Assim como Waldomiro Vergueiro aponta mudanças no público de quadrinhos ao longo do tempo, Morgana Marcon também vê mudanças na forma como os gibis eram encarados dentro das bibliotecas. Durante as décadas de 1970 e 1980, existia uma orientação para que não se colocassem gibis nas Bibliotecas de um modo geral, mas principalmente nas bibliotecas escolares. Pensava-se que não era um tipo de leitura que deveria ser oferecido às crianças ou aos jovens que estavam formando suas leituras. Morgana aponta que hoje esse cenário mudou bastante, a ponto de termos várias bibliotecas — principalmente escolares — com acervos de quadrinhos. Ela aponta como um motivo desta mudança o fato de que atualmente está comprovado que a paixão e o gosto pela leitura começa pelo contato com uma revista em quadrinhos.

Em consonância com o que Vergueiro expôs, Morgana lia muitas revistas da Disney quando era criança, como Almanaque Disney, Tio Patinhas, Margarida, Zé Carioca, também Luluzinha, Bolinha, Recruta Zero e posteriormente os quadrinhos da Turma da Mônica, incentivada pelo pai que comprava essas revistas. Hoje, ao comentar com muitos adultos que vão à Gibiteca BPE, Morgana repara que eles iniciaram sua leitura através dos quadrinhos. A diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas mantém esse costume com seu filho: compra para ele quadrinhos da Turma da Mônica, mas antes dele ler, Morgana lê para si.

A ideia de ter uma Gibiteca surgiu nas feiras de quadrinhos feitas na Biblioteca há quatro anos atrás, que trouxe para a Biblioteca quadrinistas e pessoas da área de quadrinhos para venderem seus quadrinhos e conversarem em bate-papos. A intenção era trazer o público jovem para a Biblioteca. Mas foi a iniciativa da doação de 2.500 quadrinhos da coleção deste colunista que iniciou efetivamente a Gibiteca.

Morgana Marcon /BPE

Para Morgana, a existência de uma Gibiteca de nível estadual no Rio Grande do Sul concede ao seu público o acesso à leitura, ao livro e à informação que se dá de forma gratuita. Para o público das mais diferentes cidades ter uma Biblioteca com acesso gratuito e central que ofereça acesso aos quadrinhos é importantíssimo porque permite o acesso facilitado a essas obras. Além de ter um espaço para poder trabalhar em pesquisas e para a fruição do material, a existência desse acervo também dá margem a várias formas de se expressar através dos quadrinhos como em palestras, oficinas, feiras, bate-papos. A Gibiteca incentiva, fomenta e propicia o acesso à leitura de uma maneira geral e especificamente dos quadrinhos. Para Morgana, esse é o papel da Biblioteca Pública: formar e atrair novos leitores e novos públicos dentro deste espaço.

Morgana acredita que a implantação da Gibiteca na Biblioteca Pública do Estado vai ajudar a movimentar o cenário dos quadrinhos gaúchos. Ela tem planos de, posteriormente, haver um espaço na Gibiteca dedicado a quadrinhos feitos no Rio Grande do Sul ou sobre o Rio Grande do Sul. Dessa forma, a biblioteca serve como um espaço de discussão e divulgação do cenário dos quadrinhos no Rio Grande do Sul, incentivando a criação de novos quadrinistas no estado. Morgana também aponta que essa iniciativa está servindo de modelo e exemplo para a criação de outras Gibitecas em outras Bibliotecas Públicas no estado do Rio Grande do Sul.

Avaliando os impactos da iniciativa, Morgana expõe que a Gibiteca tem tido uma ótima repercussão com a grande procura do público para leitura de gibis, com a visita de famílias, com muito interesse de doações de materiais para o espaço. Na mídia, os eventos promovidos através da Gibiteca BPE têm ganhado repercussão. O governo também tem dado uma resposta bastante positiva à iniciativa da Gibiteca, principalmente em relação ao público que frequenta e utiliza o espaço. Para 2022, a partir de março, a ideia é a realização de bate-papos quinzenais e de duas feiras de quadrinhos por ano no espaço da Gibiteca, para movimentar esse cenário no estado do Rio Grande do Sul, com minha curadoria e o apoio da GRAFAR.

Aos poucos o público leitor da Biblioteca Pública do Estado vai mudando. Antes da pandemia o público era mais de aposentados e atualmente os eventos e a Gibiteca têm atraído públicos mais diversos. Se o mercado de quadrinhos está afunilando seu público e insistindo em não renová-lo, são as iniciativas da sociedade pública e civil que terão de cumprir a tarefa de popularizar essa mídia sempre tão marginalizada em todos os sentidos. Uma gibiteca não é somente uma forma de popularizar a leitura, mas também de valorizar os quadrinhos e aqueles que os amam e os produzem.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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