Cristiano Fretta: Jeferson Tenório em dez anos

“Foi então que liguei para o meu ex-colega de graduação e então parceiro de mestrado Jeferson Tenório. Não sei se hoje ele lembra desse dia, mas Jeferson me atendeu quase que imediatamente e disse que estava mesmo pensando em ir à Feira”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal
/Diego Lopes – CRL

Quando pensei em escrever este texto, percebi que ele tinha um enorme potencial para ter como foco a mais dura e insípida teoria: fiz todo um esboço revisitando as inúmeras formas que se pode compreender a relação entre autor e obra, elenquei teóricos e resumi tudo no meu caderno de rascunhos. É possível que isso tenha como causa o fato de que nós, letrados, sufocados por um país que nos últimos anos esteve sempre à beira de tensões que puderam – e talvez ainda possam – nos conduzir a novas ou velhas formas de censura, busquemos na autorreferencialidade que a teoria nos proporciona uma espécie de consciência coletiva e consequentemente segurança de que não, não estamos sozinhos em uma realidade mergulhada em negacionismo e desesperança. Logo em seguida, desisti de fazer um texto excessivamente teórico. Faço aqui o convite para que nos afastemos brevemente da teoria literária, ainda que ela seja um campo essencial para se compreender o infinito universo da escrita, e caminhemos um pouco de mãos dadas com a vida, pois a literatura nasce sobretudo dos cheiros, ventos e visões do cotidiano.

Praça da Alfândega, 2 de novembro de 2011, uma quarta-feira extremamente agradável. Aquele feriado de finados, bem no meio de uma semana, havia sido um bálsamo em minha rotina. Naquele ano eu vivia um paradoxo na minha vida: por um lado, estava terminando as disciplinas do meu mestrado em literatura brasileira na UFRGS, e a experiência estava sendo muito proveitosa e estimulante; por outro, o último trimestre em uma escola particular em que havia sido admitido no meio do ano exauria toda a minha sanidade emocional: como a professora que me precedeu havia feito o favor de, por meio de notas altíssimas, aprovar quase todos alunos já no meio do segundo trimestre, eu acabei por ter que encarar turmas de quase quarenta adolescentes sem nenhum interesse por língua portuguesa e literatura, que ficavam me “testando” o tempo todo. Para um professor então inexperiente em escolas privadas, isso era um verdadeiro pesadelo. Gerava-se, então, uma incoerência entre minha vida acadêmica repleta de contemplação, reflexões, teorias, e minha vida profissional, regada a gritaria, indisciplina e cobranças hierárquicas, local em que tudo o que eu aprendia na faculdade parecia se desfazer em pó assim que eu fechava a porta da sala de aula e encarava os olhos displicentes dos meus alunos – nos anos seguintes, no entanto, eu peguei o “jeito” da coisa, e tudo melhorou. Naquele feriado de finados, a minha fuga era a Feira do Livro.

Frequentar a Feira já era um hábito antigo para mim. Aliás, guardo ainda uma lembrança de minha mãe apontando para um velhinho que caminhava próximo à estátua do General Osório: “olha ali, aquele é o Mario Quintana”, disse ela para mim. Isso deve ter sido pelos idos de 1992 ou 1993, ainda faltavam muitos anos para que eu soubesse que o monumento ali era o velhinho, e não o tal do Osório, mas ficou viva na minha memória a imagem daqueles passos lentos sustentados por uma bengala, os cabelos brancos balançando ao vento. A Feira tem cheiros, sabores, sons e, para os aficionados por livros como eu, ela é uma espécie de clube em que os amantes da literatura podem se encontrar, trocar impressões sobre os últimos lançamentos, encontrar autores, comer, beber, conversar, enfim, a Feira do Livro de Porto Alegre é um marco civilizacional que, embora dure apenas algumas semanas, se faz presente durante todo o ano no imaginário da cidade. Naquele feriado de finados, após vagar sozinho pelas bancas, pensei que seria bacana ter a companhia de alguém legal para conversar. Foi então que liguei para o meu ex-colega de graduação e então parceiro de mestrado Jeferson Tenório. Não sei se hoje ele lembra desse dia, mas Jeferson me atendeu quase que imediatamente e disse que estava mesmo pensando em ir à Feira. Cerca de meia-hora depois, nós nos encontrávamos em frente ao Santander Cultural. Ele me cumprimentou daquele seu jeito habitual, com um abraço firme e seu olhar observador.

Caminhamos não sei quantas vezes por entre as bancas, mexemos em balaios, fizemos considerações sobre alguns lançamentos. Lembro de ter mostrado a ele o único livro que eu havia comprado naquele dia. Era A ausência que seremos, de Héctor Abad. Jeferson se interessou pelo título. Fomos ao café do MARGS e creio que ele foi obrigado a ouvir toda a minha lamentação de professor insatisfeito. Suas ponderações eram pontuais e sóbrias, pois ele também era – e é – um professor. Saímos dali um bom tempo depois – tomamos café ou chope? – e caminhamos em direção à Praça de Autógrafos. Não lembro quem estava autografando no momento, mas com certeza não era ninguém muito famoso, pois as filas não estavam longas. Observamos em silêncio aquelas pessoas sentadas por trás das mesas, orgulhosas de si mesmas, escrevendo dedicatórias no início de livros, enquanto a locutora da Feira do Livro dizia “Autografam agora na Feira os seguintes autores…”. Caminhamos mais um pouco e nos despedimos. Tínhamos que terminar algum trabalho para uma disciplina, acho. 

Mesmo terminado o mestrado, nunca perdi completamente o contato com Jeferson. Apesar de não convivermos cotidianamente, sempre acabávamos por nos encontrar nas mais diversas situações. Uma das mais curiosas se deu em janeiro de 2015. Eu voltava de ônibus de uma semana de férias em Florianópolis quando, na sala de espera de embarque da rodoviária, me deparo justamente com ele. Felizes com a coincidência, nos pusemos imediatamente a conversar. O mais inacreditável veio a seguir: conferimos as passagens e nossas poltronas eram justamente uma ao lado da outra. Tenho certeza de que disso Jeferson lembra. Viemos conversando parte da viagem sobre assuntos ligados, obviamente, à literatura e a professores de nossa graduação e mestrado. Além é, claro, de seu romance O beijo na parede, lançado em 2013 pela Editora Sulina. Após algum tempo de viagem, adormecemos. Quando nos despedimos em Porto Alegre, Jeferson me deu aquele seu afetuoso abraço com aquela olhada nos olhos. 

Nos anos seguintes, a ascensão de Jeferson Tenório passou a ser cada vez mais evidente. Ele estava presente em escolas, seu livro era lido por turmas de estudantes, o autor dava entrevistas em diversos veículos de comunicação. Sem dúvida, soube cuidar de sua carreira. Dava gosto de ver os adolescentes segurando nas mãos O beijo na parede. Era possível ver a alegria nos olhos de Jeferson e sentir um pouco a satisfação que ele deveria estar sentindo em vários desses momentos. Ao longo dos anos, seu nome foi presença quase certa nos mais diversos momentos culturais da nossa cidade e do nosso estado. 

Em abril de 2018 compareci ao lançamento de seu segundo livro, Estela sem Deus, pela editora Zouk. Não havia apenas amigos e parentes na fila de autógrafos, mas muitos leitores que haviam ido à procura do escritor. Jeferson havia conseguido furar a bolha da publicação feita para o círculo de pessoas conhecidas e havia conquistado, inquestionavelmente, um sólido público leitor. Nesse mesmo ano participei com ele e outros escritores da mesa “Literatura Contemporânea do Sul”, parte da programação do Encontro Nacional dos Estudantes de Letras (ENEL), que em 2018 ocorreu na UFRGS. Eu havia acabado de lançar o meu segundo livro, Tortos Caminhos. Após o término do evento, dei carona para Jeferson. Ao longo do trajeto que ligava o Campus do Vale ao Centro, conversamos sobre literatura. Um pouco antes de largá-lo no destino, ele me pediu um exemplar do meu livro. Eu imediatamente dei a ele o volume, me desculpando por um erro grosseiro de concordância que a editora havia cometido na contracapa do livro. Eu queria deixar a obra de presente, mas Jeferson fez questão de me pagar o valor de mercado da obra.  

Passamos, então, a nos encontrar esporadicamente na PUC. Jeferson entrou no doutorado que está agora prestes a concluir, e eu dava aulas em uma escola que funciona dentro da universidade. Às vezes nos esbarrávamos por cafés e chegamos a marcar um almoço que eu – acreditem! – não compareci pelo simples fato de esquecer. Isso mesmo: assoberbado pelo tsunami de demandas burocráticas de uma escola privada em um fim de ano, eu acabei por não comparecer a um almoço com o futuro patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Imperdoável.

Quando Jeferson divulgou nas suas redes sociais a capa de O avesso da pele, editado pela poderosíssima Companhia das Letras, não pude deixar de sorrir, na certeza de que ele estava conquistando um reconhecimento que, em um país mergulhado em negacionismo e nos mais diversos tipos de preconceito, servia como a mais autêntica esperança em meio às trevas do louvor à censura e do discurso da violência. Estávamos no meio do primeiro ano da pandemia e eu tinha certeza de que aquele livro era um antídoto de sensibilidade contra aquele mundo de coturnos e cheirando a hipocrisia. Eu conhecia o Jeferson e, portanto, sabia que não vinha pouca coisa por ali. Como todos sabem, eu não estava enganado. Confesso que foi um tanto quanto bizarro acompanhar a sua conversa com Pedro Bial bem com as inúmeras outras participações nos mais diversos veículos de comunicação. Afinal de contas, era ele, o Jeferson, falando com o ex-apresentador do Big Brother, sendo recomendado pelo Leandro Karnal e pelo Zeca Camargo, experimentando a fama e o reconhecimento como algo cotidiano. Pouco tempo depois, não pude deixar de dar um grito quando li que ele seria o novo patrono da Feira do Livro. Naquele dia, mandei-lhe um áudio por WhatsApp, entusiasmado que eu estava pelo seu sucesso. Guardarei sempre suas primeiras palavras: “Você sempre me fala coisas bonitas”. 

Praça da Alfândega, 7 de novembro de 2021, um domingo extremamente agradável. Naquela tarde Jeferson autografaria o seu O avesso da pele, e a possibilidade de conseguir encontrá-lo depois de tanta pandemia e tanto sucesso fez com que eu me dirigisse até o local em busca de uma breve conversa com o meu ex-colega. Eu também sabia que aquele seria um momento mágico para ele, pois, afinal de contas, Jeferson havia sido o primeiro patrono de uma Feira do Livro em meio a uma pandemia. Não havia dúvida de que era necessário o encontro com o público, o contato físico exorcizando a impassibilidades de centenas de lives e outros eventos virtuais dos quais ele havia participado. 

Cheguei cerca de 15 minutos antes do início da sessão à Praça de Autógrafos. Havia umas 20 pessoas na minha frente. A cada segundo que passava mais e mais pessoas se juntavam à fila. Não demorou muito para que ela começasse a fazer curvas. Em volta de mim, muitos jovens negros se diziam encantados com a obra e eu tive em inúmeros momentos vontade de dizer que conhecia Jeferson há muitos anos. O livro, objeto físico, estava ali, aberto na mão de cada uma daquelas pessoas como que a dizer “veja só, eu resisto, apesar de tudo eu ainda estou aqui firme e forte, apesar de tudo o que está acontecendo no Brasil há o Jeferson, esse carioca radicado há anos em Porto Alegre, e foi ele que me escreveu, foi ele que me fez nascer, e aqui estou eu, dando esperança, sensibilidade e, portanto, Arte a todas essas pessoas”. Então Jeferson surgiu. Esquivava-se da multidão que lotava a Feira naquele domingo. Quando se aproximou do início da fila, foi ovacionado por gritos e salvas de palmas. Seu olhar, durante alguns instantes, pareceu surpreso com a situação, talvez ainda assimilando, como todos nós, uma realidade que ultrapassava as telas de um ano pandêmico e se desenhava no contato físico com as pessoas. Nesse momento, confesso, senti um aperto na garganta. Fazia exatos 10 anos que ele havia me acompanhado naquele meu domingo triste. Em uma década, um homem pode se fazer herói, pensei comigo. Foi inevitável eu não lembrar de seu caminhar anônimo, seus sonhos, seus desafios, no já longínquo ano de 2011. Parecia ainda haver justiça no Brasil de 2021, e ela inevitavelmente passava pelo reconhecimento de Jeferson Tenório. Como era bom ver toda aquela cena se desenrolar debaixo dos meus olhos. Conforme a fila andava, não pude deixar de pensar se a propensão teórica a separar o autor de sua obra tem alguma relevância. Em outras palavras, a cada passo que eu dava em direção a Jeferson me vinha a convicção de que a teoria despersonaliza, mas o ser humano humaniza. Talvez Foucault e Barthes também entrassem naquela fila: o autor estava – e está – bem vivo. É claro que a obra não é o autor, mas querer dissociar o texto da figura humana que o produziu é, em certa medida, quebrar a arquitetura básica de qualquer tipo de comunicação, negando que haja uma potente força criativa centrada em um ser humano. Não há expressividade sem subjetividade – e não há subjetividade sem humanidade.

Quando havia apenas umas três pessoas à minha frente, eis que surge José Falero para autografar o seu mais recente livro. Coincidentemente o espaço designado a ele era ao lado de Jeferson. Os dois se abraçaram em reconhecimento mútuo. Não tive dúvida, naquele momento, de que a literatura havia vencido. 

Assim que chegou minha vez, Jeferson fez uma expressão de agradável surpresa, me deu um abraço pandemicamente tímido e, mais uma vez, me olhou nos olhos. Apesar da fama, do reconhecimento, ainda eram os mesmos olhos observadores que haviam me olhado há 10 anos. Não havia nada de diferente neles: era exatamente o meu colega a me olhar, ciente do espaço que havia conquistado e certo de que era dele que emanava a capacidade de não dar a poucos uma esperança mínima, como diria Drummond, mas sim de dar a muitos uma esperança larga, festiva, uma esperança de paz. O seu olhar dizia que a literatura sempre resistiria e que continuaria sendo ferramenta fundamental para a construção de tempos menos sombrios. 

Jeferson disse que fazia tempo que não me via e que, se não estava enganado, a última vez que havíamos nos encontrado havia sido na PUC. Eu confirmei e disse, rindo, que deveria ter sido mais ou menos pela época em que eu o deixei esperando em um almoço. Ele riu. Será que ainda lembra da vez que ficou esperando por mim? Enquanto ele autografava O avesso da pele, pensei em contar-lhe que fazia 10 anos daquela nossa caminhada por ali, exatamente no mesmo local, mas acabei desistindo de tentar ser melancólico e lírico frente a tanto barulho de gente feliz. Antes de me despedir, agradeci por tudo o que ele representa e falei brevemente, e um pouco envergonhado, sobre o romance que estou escrevendo. Como sempre, Jeferson foi muito atencioso. Aliás, um detalhe: ele permaneceu o tempo todo de pé. Em nenhum momento autografou por detrás da mesa. Fiz a volta na Praça de Autógrafos, e a fila parecia não ter mais fim. Diferentemente do feriado de dez anos atrás, naquele domingo eu me sentia muito feliz.

Passada a Feira, Jeferson teria ainda a sua sagração definitiva na atual literatura brasileira, com a conquista do Prêmio Jabuti. Sem dúvida, ainda há muito pela frente: com certeza a literatura que ele produz continuará sendo alento e esperança para nós – não só pelos próximos 10 anos, mas com certeza para inúmeras gerações de futuros leitores brasileiros e estrangeiros. Espero encontrá-lo na Feira inúmeras outras vezes – e, quem sabe, um dia pagar o almoço que estou lhe devendo.

Cristiano Fretta tem 34 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, Passa Palavra e com o jornal Extra Classe. 

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