Ana Paula Cecato: bell hooks e a educadora que eu quero ser todos os dias

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“As obras de bell hooks não se furtam de abordar as dificuldades de ser um educador engajado

Foi em 2020 que dediquei parte da angústia dos meus dias pandêmicos para ler algumas das obras da escritora, intelectual negra e feminista e professora estadunidense bell hooks, falecida em 15 de dezembro de 2021. Sempre que leio hooks, parece que estamos conversando. Parece que somos colegas de trabalho, partilhamos dores e delícias, rimos da cafonice alheia, nos irritamos, olho pro livro como se estivesse olhando para seu rosto, como uma criança curiosa que ouve atenta um ensinamento. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de assistir a entrevistas de hooks no Youtube, precisava vê-la, ouvir sua voz, suas expressões. Teve uma noite em que sonhei com um encontro, escrevi um diálogo só nosso, em que lhe confesso alguns episódios e algumas peculiaridades.

À parte disso, o maior ensinamento das obras de hooks que levo é o de que “não é fácil, mas é possível”. A pedagogia engajada, que conjuga sua autobiografia com as leituras do educador brasileiro Paulo Freire e do monge vietnamita Thich Nhat Hanh (falecido em 22 de janeiro), não se trata apenas de um compromisso com a educação, mas com a inteireza (pra mim, um dos conceitos mais importantes de suas obras). A noção de que fazemos parte de algo maior, e de que cada ser que habita a sala de aula tem a sua “luz interna”, e que o caminho é a criação de uma comunidade, na qual todos e todas se sintam encorajados(as) a compartilhar e a aprender. Ser inteiro em sala de aula é saber dar nome às incertezas, questionar, e “honrar os momentos em que tudo se conecta e o aprendizado coletivo acontece.” (Ensinando pensamento crítico). Neste momento é quando a alegria de aprender acontece, e precisa ser celebrada. A sala de aula pode ser uma festa.

Em tempos nos quais o neoliberalismo avança ferozmente em todas as áreas, e na educação não seria diferente, há cada vez menos espaço para tal construção coletiva, até mesmo para a criação de uma autoria dos sujeitos. Vejamos, por exemplo, a política educacional do Novo Ensino Médio, cuja proposta “vendida” é a de que haverá o protagonismo juvenil, quando, na prática, se configura como uma falsa escolha, pois os itinerários são escolhidos pelas escolas ou pelas mantenedoras. Sem contar que o desmantelo da grade curricular só aumentará a desigualdade de oportunidades para estudantes das classes socialmente mais vulneráveis, que terminarão em trabalhos precarizados. A reforma do Ensino Médio e a reforma trabalhista fazem parte de uma mesma estrutura e de projeção de futuro para os e as jovens.

As obras de bell hooks não se furtam de abordar as dificuldades de ser um educador engajado, que começam quando alguns estudantes e alguns professores não se abrem para a proposta, acreditando que o conteudismo (cujo ciclo é estudo um conteúdo – faço uma prova – estudo outro conteúdo – faço outra prova – se não passar, faço o exame de todo o conteúdo) seja o único processo de ensino e aprendizagem. Único, universal. Hooks fala em “abraçar a mudança” como um processo que requer descolonizar a educação, e que vai muito além do estilo de aula, de ensino que o professor oferece, perpassa o currículo, as interlocuções institucionais, as atividades oferecidas, reconhecendo a multiculturalidade do mundo dentro da sala de aula e da escola. Dessa forma, almeja-se romper com uma educação excludente, feita para o “ser universal”, ou seja, o “ser branco”, que vê na escola a confirmação positivada dos seus conhecimentos, construídos a partir de seus processos coloniais de dominação e exploração. Antes de seguir, abro parênteses: hooks fala em vigilância, outro conceito importante, no sentido de que até mesmo professores progressistas podem reproduzir opressões em sala de aula através do que/como/por que ensina.

hooks faz um relato humanizado sobre o que é ser professor, abordando com sofisticação as suas complexidades. Em um de seus textos mais contundentes, Êxtase, do livro Ensinando a transgredir, ela afirma “o compromisso profundo com a pedagogia engajada é cansativo para o espírito.” Ela utiliza a metáfora de estar “cansada até os ossos”, quando professores compromissados com a pedagogia engajada são interpelados seja por aqueles que preferem imitar o que sempre ensinaram ou aprenderam, seja por aqueles que, motivados pelo ambiente de abertura da pedagogia engajada, procuram os professores para conversar sobre demandas pessoais. Por experiência própria, digo que quando você é um professor engajado, saiba que você é alvo. Você será lembrado (para o bem ou para o mal, risos).

Êxtase é o último texto de Ensinando a transgredir, e o ensaio encerra com uma das coisas mais lindas que li sobre o ofício da docência: “A academia não é o paraíso. Mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula, com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades”.

Obrigada, hooks!

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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