Jacira Fagundes: Literatura infantil nas férias

“Que os tablets e os celulares tenham espaço mais reduzido, principalmente entre os pequenos”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Para o ano de 2021 e o ano novo que iniciou não faz muito, talvez não seja correto se falar em férias escolares, como foi de praxe pelos anos anteriores. Estamos num momento atípico, ainda em fase de pandemia. Mas chamarei período de férias, sem aulas presenciais ou remotas. Mais por hábito. Então, é tempo de mudanças. Menos compromissos com horários levarão pais e filhos a um cotidiano mais livre e menos pretensioso. Para as crianças – hora de brincar, de correr, de se divertir, de curtir o sol e áreas livres. Faço votos que tal aconteça. Que, nas férias, se produza mais convívio e menos isolamento. Que os tablets e os celulares tenham espaço mais reduzido, principalmente entre os pequenos. Porque tenho observado diuturnamente crianças presas por horas a fio a seus celulares, os dedinhos ágeis dedilhando ininterruptos, aflitos, numa ansiedade única, feroz. A infância, hoje, compõe uma geração digitalizada. Por influência dos genitores no uso extremado da tecnologia, os pequenos perdem o controle do tempo e do espaço e permanecem entregues a jogos e similares, sem qualquer cuidado por parte do adulto quanto ao conteúdo envolvido. Muitos destes conteúdos aleatórios entregues ao lazer dos pequenos costumam deixar de lado tanto as habilidades sociais quanto as cognitivas. A maioria são distrações inócuas, quando não apresentam o pior, como atos violentos e destrutivos.

Não incluo aqui os pais comprometidos com o uso sadio dos eletrônicos, que compartilham das escolhas, que limitam o tempo dedicado a tal isolamento. Não evitam o valor importante e salutar de tais complementos, pois que são necessários na atualidade. Tudo é uma questão de dosagem.

Pesquisadores apontam algo interessante sobre a questão do ato de ler. O fato de lermos, nós – os adultos – cada vez mais em telas, substituindo o papel, e a prática cada vez mais comum de apenas “passar os olhos” superficialmente em múltiplos textos e postagens online, podem estar dilapidando nossa capacidade de entender argumentos complexos, de fazer uma análise crítica do que lemos e até mesmo de criar empatia por pontos de vista diferentes do nosso. Pior quando a exposição contínua às telas, ultrapassando o limite de tempo orientado pelos órgãos de saúde, atinge crianças.

Uma boa aposta seria incentivar um retorno à leitura, ainda assim, usando a tecnologia como a grande aliada. Lendo um livro digital, por exemplo. Há uma infinidade de títulos na internet, muitos gratuitos. No entretenimento com a leitura, os pequenos lidam com multiplicidade de habilidades sociais, morais, de crítica e acolhimento. Para os não alfabetizados, a leitura feita pelos pais oferece a ambos a sociabilidade e a conjunção de interesses.

A leitura digital pode apresentar até algumas experiências que o livro físico não oferece, como comentários, acréscimo de imagens e jogos oriundos da leitura. Nem será imprescindível a praia ou a serra em viagem de férias. Em casa, com o celular que serviu para as aulas remotas, a família reunida terá muitos momentos de entretenimento.

Jacira Fagundes é escritora, palestrante e ministra oficina literária desde 2005. Integrou a diretoria da AGES em três gestões. No momento faz parte do Conselho Fiscal da entidade. Por dois anos consecutivos, fez a Coordenadoria Regional/ Sul da AEILJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil). Coordena o Grupo de Leitura e Criação Literária no Espaço Metamorfose Cursos, desde 2016. Organizadora de duas Coletâneas de Contos do Grupo Pra ver a banda passar…contando histórias de amor (2018) e da Coletânea Quando o verbo vira trama (2020), ambas publicadas pela Editora Metamorfose. Em 2021, ministrou oficina literária virtual de narrativa longa, que deve culminar com trabalho experimental na Internet em 2021. Tem 17 livros publicados. Dois no espelho – novela (2007, em primeira edição e 2014 em segunda) e No limite dos sentidos – contos (2009), pela Editora Movimento. Suas obras mais recentes são o infantil A Cadeira Contadeira pela Franco Editora, de Juiz de Fora/MG e Pequenos Notáveis – minicontos publicados pela Editora Metamorfose, de Porto Alegre. Ambas publicadas em 2018. E a segunda edição de Mania de Gavetas – infanto juvenil em 2020, pela Editora Alarte de POA. Em 2021, a obra infanto-juvenil Pinta uma história pra mim encontra-se em fase de publicação pela Editora Palavreado, do município de Guaíba. Promessa de lançamento ainda no primeiro semestre de 2021. É colunista no portal http://www.artistasgauchos.com.br.

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