Guilherme Smee: Top 12 quadrinhos (de todos os tipos) que li em 2021

“Italianos, estadunidenses, coreanos, escoceses, portugueses e, claro, brasileiros, todos publicados em nosso país em 2021”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Continuando minha lista de melhores quadrinhos que li em 2021, desta vez trago um apanhado que vai além das leituras do gênero super-heróis. 2021 foi um ano em que não tivemos eventos de quadrinhos presenciais e por isso li muito menos publicações brasileiras do que gostaria. Mesmo assim muitas delas figuram neste top 12. São quadrinhos italianos, estadunidenses, coreanos, escoceses, portugueses e, claro, brasileiros, todos publicados em nosso país em 2021. Vamos à lista?

ALMANAQUE MISTER NO #1, DE MAURIZIO COLOMBO E GIOVANNI BRUZZO
Almanaque Mister No é uma nova coleção que a Editora 85 coloca à disposição dos leitores, depois do encerramento de Mister No Especial. Neste primeiro número acompanhamos algumas narrativas da infância de Jerry Drake, antes de ele se tornar piloto e antes de se tornar conhecido como Mister No. Nas ruas de uma cidade grande, em um bairro urbano, o pequeno Jerry cresceu, criado pelos tios, e rodeado de picaretas de todos os tipos. Esses picaretas tinham os seus próprios inimigos e, não tardou, com o envolvimento de Jerry com esses tipos, de arranjar também as suas desavenças. Lá pelas tantas, o pequeno Jerry Drake se torna discípulo de um mafioso do bairro e isso vai fazer com que o perigo ronde o garoto todos os dias. Uma ótima narrativa ao melhor estilo Bonelli, que apresenta muitas reviravoltas e vai-e-vens. Situada cronologicamente nos anos 1930, temos uma ambientação perfeita feita pelos narradores gráficos e visuais, cercados de gângsteres, jazzistas, agiotas, pequenos comerciantes, policiais corruptos e detetives, criando todo um clima noir e ao mesmo tempo aventuresco, das clássicas HQs de Mister No.

KIT GAY, DE VITORELO
Que trabalho sensacional, necessário e superimpactante esse KIT GAY de Vitorelo! Inspirada nos celeumas sobre “ideologia de gênero” criados por Bolsonaro e seus asseclas, antes e depois de o presidente assumir o governo federal, como a lenda urbana do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”, Vitorelo traz um manual de atividades esclarecedor sobre a existência e direitos de reconhecimento das pessoas LGBTQIA+, ou como eu prefiro dizer, a aliança queer. KIT GAY é um libelo da resistência, desenvolvido por Vitorelo que, de maneira lúdica e sem papas na língua, desenreda e desenrola a complicada (para muitos) e simples (para poucos) sexualidade humana. Mostra que todos nós merecemos respeito pelo que somos ou “escolhemos” ser, que todos temos direito a constituir família, a vivermos nossa sexualidade ou assexualidade livremente, sem as pressões diárias que o bolsonarismo, o machismo, o patriarcado, o masculinismo e o heterossexismo impõe a todas existências, sem exceção, inclusive àquelas que são beneficiadas nessa roda. KIT GAY é o manual definitivo que você, que não faz parte da aliança queer, precisa para entender e respeitar de uma vez por todas essa comunidade que cada vez cresce mais em representatividades e feitos. Esses feitos não são poucos, caso pensando que não temos todos os privilégios que outras categorias sociais têm. Precisamos nos esforçar o dobro, talvez o triplo, para conseguirmos botar a cara no sol e ahazar. Respeita as bicha, pohan!

OS AVENTUREIROS: O FIM E ALÉM, DE MATT FRACTION, TERRY E RACHEL DODSON
A nova editora Hyperion Comics começou muito bem com seu primeiro título, Aventureiros, dos autores superstars Matt Fraction e Terry Dodson. A dupla já colaborou na Marvel em títulos como Fabulosos X-Men e Os Defensores, e agora traz uma bela homenagem à literatura pulp, popular no final do século XIX e início do século XX. A HQ conta a história de uma dona de sebo que é fã dos pulps do Aventureiro, herói comandante de uma corporação chamada Aventureiros LTDA. A livreira está frustrada por não saber como as histórias do Aventureiro se acabaram, encerradas em um hiato narrativo. Mas tudo muda quando ela recebe uma visita inesperada em seu sebo e seu filho descobre uma comunicação entre o mundo real e o mundo fantástico do Aventureiro. Assim, nossa heroína parte numa jornada para salvar não apenas um mundo, mas dois! Aventureiros se torna rapidinho uma história em quadrinhos superempolgante, com um mundo imenso a ser desbravado pelo leitor. Ou melhor, dois mundos. As histórias têm uma duração em páginas por capítulo maior que o comum dos comics. A arte dos Dodson (Terry ao lado da esposa Rachel, na finalização), que desta vez também cuidam das cores, está mais deslumbrante do que nunca. A HQ também traz muita diversidade e representatividade, além de prestar essa homenagem incrível aos pulps. Toda a indústria dos quadrinhos precisa saber reconhecer e reverenciar os pulps por serem precursores dos comic books.

EM ONDAS, DE A. J. DUNGO
Em Ondas é uma história em quadrinhos premiada do artista gráfico havaiano A. J. Dungo, trazida ao Brasil com o costumeiro capricho da Editora Nemo. Este quadrinho, de certa forma autobiográfico e de certa forma não, se divide em duas narrativas. A primeira delas, em tom sépia, conta a história do desenvolvimento do surfe e sua popularização no mundo Ocidental. A segunda delas, em tons de ciano, traz a história da relação do autor com sua namorada e como o surfe foi uma válvula de escape para os dois quando descobriram que a menina iria sucumbir ao câncer. Um quadrinho impressionante na narrativa e na arte minimalista, que nos arrebata e atinge como uma onda: que bate forte, mas volta suave, mas com arrasto. Em ondas, o autor faz esse movimento de idas e voltas com as duas narrativas que conta, que são entremeadas. Nessa história em quadrinhos de quase quatrocentas páginas, mas rápida e instigante de ler, podemos perceber todo o carinho e dedicação que o autor tem por sua namorada e pelo estilo de vida que aprendeu a levar através do surfe. Mais uma daquelas histórias em quadrinhos imperdíveis.

ANDRÉ, O GIGANTE, DE BOX BROWN
André, o Gigante me pareceu ser a “história em quadrinhos documental”, de Box Brown, entre as publicadas pela Editora Mino no Brasil, mais despreocupada do que as HQs anteriores. A HQ sobre a ilegalização da maconha nos Estados Unidos tinha um caráter mais social e de luta por uma causa, deixando ela mais combativa. Enquanto a sobre o Tetris tinha muitas bases tecnológicas e legais, deixando por vezes enfadonha a narrativa. Optar por um personagem real, uma pessoa e não uma coisa em André, o Gigante, deixa a narrativa mais acolhedora, mais identificável e, talvez por isso tenha me passado essa sensação de mais leveza do que as duas publicações anteriores. Gosto bastante da forma documental com que Box Brown narra, combinando cenas silenciosas, com narrativas com ação e também descrição de fatos e entrevistas. Seu desenho expressionista e minimalista também consegue aproximar o leitor do tema e entender como o autor dessa história em quadrinhos é aficcionado pelo que se propõe a fazer. Recomendo fortemente todas as histórias em quadrinhos assinadas por Box Brown.

PULP, DE ED BRUBAKER E SEAN PHILLIPS
O roteiro e a “prosa” de Ed Brubaker nos fazem ficar imersos na história de Pulp como se estivéssemos lendo um livro. Um livro bem noirzão, bem cheio de histórias escabrosas e com um clima, uma atmosfera pesada. As ilustrações de Sean Phillips são belíssimas e se encaixam com o enredo como uma mão numa luva. Em muito pouco lembra o Sean Phillips que dividia as páginas de Uncanny X-Men com Joe Casey e que eu não conseguia curtir as histórias. Aqui os dois estão no seu elemento. Sim. Como peixes estão para a água. E que ótimo que a Mino tenha trazido para o Brasil essa edição, porque além de proporcionar uma ótima leitura, ela também dá aquela renovada na nossa mente, com algo que inspira e que dá vontade de desenvolver histórias assim. Mesmo que, claro, não se consiga nem chegar aos pés de fazer algo parecido. Pulp constrói esse sentimento de absorção do leitor para dentro do universo daquilo que está lendo, e nos transforma, nos renova, nos inspira. Isso, na minha humilde opinião é que fazem as grandes e ótimas histórias em quadrinhos

VOCÊ NÃO ME CONHECE, DE GUILHERME DE SOUSA
O quadrinista carioca Guilherme de Sousa tem o costume de me conquistar pela genialidade dos seus quadrinhos autorais voltados para o humor, como A Última Bailarina, Leo e Fifo. Mas em Você Não Me Conhece ele traz a sua genialidade para algo próximo de um terror vivido por milhares de brasileiros nos últimos dois anos: o terror de ser contaminado com o vírus da Covid-19 e as consequências da doença. Guilherme traz um relato contundente, que nos punge, nos deixa sem chão frente aos percalços que ele sofre dentro dessa narrativa autobiográfica. Autobiografias possuem um grande poder educativo e seria muito importante que todos esses que são contra vacina e a favor do tratamento precoce contra a Covid-19 lessem Você Não Me Conhece, para assim redobrar seus cuidados e entendessem de uma vez os perigos que esse vírus pode trazer para todos nós, para qualquer um de nós. O quadrinho de Guilherme de Sousa possui uma importância ímpar em tempos de fake news e negacionismo, e é ótimo ver também a genialidade desse quadrinista se estendendo também para outros gêneros de narrativa. Sua narrativa, seja sobre o cotidiano ou sobre a fantasia, sempre nos deixa querendo mais

GUARDA LUNAR, DE TOM GAULD
Recebi esse quadrinho como recompensa “livro-surpresa” da campanha da Livraria Taverna para os tempos da pandemia. E simplesmente adorei. É um quadrinho imersivo, mas ao mesmo tempo fácil de ler. É irônico, mas também é singelo, tocante. Se o autor não se demora muito nos personagens, ele trabalha esmeradamente nos cenários. A solidão e o deslumbramento andam juntos também. A paleta de cores nos transporta diretamente para o espaço lunar. É como naquele filme da Sofia Coppola, Encontros e Desencontros, que ficamos esperando alguma coisa grandiosa acontecer, mas depois percebemos que o filme não é sobre isso, é como as pessoas acabam sozinhas, começam sozinhas e passam a maior parte do tempo sozinhas, seja com seu corpo ou seus pensamentos. Poderia dizer nesse sentido que esse quadrinho é bastante poético, muito bonito em conteúdo visual e de sentidos que gera no leitor. Gostei mesmo.

A ABOLIÇÃO DO TRABALHO, DE BOB BLACK E BRUNO BORGES
Esta é uma adaptação em quadrinhos para um texto disruptivo e contundente de Bob Black, contendo em argumentos bem embasados uma vontade que já passou pela cabeça de todas as pessoas: a abolição do trabalho. Black constrói um texto cativante e inspirador, mas que me parece bastante impossível de ser posto em prática nos tempos atuais, em que tudo ao nosso redor é funcionalista, utilitarista e quantitativo. A adaptação para quadrinhos de Bruno Borges usa de um estilo naïve e segue no mesmo espírito de ludicidade e de descontração que o texto de Bob Black. Também prova que é possível desenvolver histórias em quadrinhos profundas com um estilo de desenho simples, à la bonecos de palitinhos. Um ótimo livro que todos que trabalham ou já trabalharam um dia deveriam ler. Afinal, “o trabalho liberta” é uma frase que está escrita na entrada de um campo de concentração nazista.

JEREMIAS: ALMA, DE RAFAEL CALÇA E JEFFERSON COSTA
A Graphic MSP Jeremias: Alma é praticamente tão boa quanto sua antecessora, Jeremias: Pele. Se na primeira graphic novel a dupla de artífices nos emocionou através da representatividade, nesta segunda eles o fazem através da representação, mostrando que a etnia negra tem muitas referências para serem seguidas para motivar e inspirar os mais jovens. Também, na figura de Pierre Valentim, os artistas conseguem criar um vilão racista que copia o trabalho dos outros. Valentim chega a usar o artifício da Black Face para tirar sarro de Jeremias em um ponto da história. O vilão lembra bastante o Roger do desenho Doug Funnie. Mas muito mais referências permeiam este quadrinho e nos extras da história elas são reveladas para o leitor. Aqui em Porto Alegre eu demorei muito, uns três meses para encontrar a edição brochura nas bancas. Para quem começou a colecionar as Graphic MSPs dessa forma é bastante difícil continuar a coleção nesse tipo de encadernação. De qualquer forma, Jeremias: Alma é uma HQ muito bonita, divertida, singela e que educa as pessoas sobre representação e representatividade.

ROLEPLAY, DE MARCUS LEOPOLDINO E GUILHERME DE SOUSA
Neste primeiro trabalho em dupla de Marcus Leopoldino e Guilherme de Sousa, a realidade e a ficção, além de serem paradoxais, são paralelas. A proposta é mostrar como uma partida de RPG (Role Playing Game) pode aproximar um casal (e não afastá-lo, como normalmente acontece nessas situações). Uma atriz e um quadrinista vivendo os percalços de suas profissões acabam se conhecendo quando um elevador fica travado e lá dentro jogam uma partida de RPG. Roleplay é uma história em quadrinhos muito divertida, cheia de aventuras e até de experimentações narrativas, como por exemplo a página dupla feita através de um mês do calendário. Os desenhos do Guilherme dão a cara para o humor certeiro do Marcus, construindo personagens interessantes e nada lineares. Gostei muito do trabalho da RISCO, agora se aventurando pelo humor, sem perder a vibe de aventura e fantasia dos outros trabalhos do selo.

ON OR OFF, DE A1
Para um qudrinho que tem a intenção, em seu gênero, de excitar garotas que gostam de ver homens fazendo sexo entre si, como é a descirção do yaoi, On or Off vai além. O primeiro diferencial que posso citar desse quadrinho que primeiro foi publicado online são as cores. Embora não muito regulares, elas estão presentes em todas as páginas, diferente da grande maioria dos yaois. Os personagens são extremamente bem trabalhados, tanto os protagonistas como os de apoio, elevando a trama para muito mais que uma história de sexo. Como a maioria desses enredos, ela tem o problema dos estereótipos, em que se relacionam um homem mais frágil e delicado com outro, forte e dominador. Contudo, isso o leitor de um yaoi já deve ter em mente, e isso não deixa o quadrinho ruim. É apenas uma marca de estilo do gênero. A não ser, claro, que você seja um crítico radical. Aí recomendo que nem abra On or Off. Pelo que entendi, a série teve três volumes publicados até aqui. No Brasil, a editora NewPop já trouxe os dois primeiros volumes e estou prestes a ler o segundo. Gostei bastante e recomendo para quem curte yaoi. Quem não curte, certamente não irá gostar mesmo.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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