O exercício de uma produção literária coletiva

Cinco escritoras produzem narrativa durante a pandemia; resultado está disponível em PDF gratuito

Edição: Vitor Diel sobre texto da assessoria
Arte: Giovani Urio sobre foto de divulgação

Em 2021, o Grupo de Criação Literária, que desenvolvia atividades de leitura e escrita voltadas à formação de escritores na área da literatura, precisou seguir em formato digital devido à ocorrência da pandemia, possibilitando, assim, dar sequência à programação estabelecida anteriormente.

O Grupo, que vinha tendo aulas presenciais até o momento, sofreu algum desgaste provocado pelo isolamento social, ocasionando uma baixa na sua continuidade.

Com base no interesse de parte de cinco alunas, a anterior oficina de leitura e escrita deu um avanço em relação ao gênero literário proposto até então, caindo a escolha em produção de narrativa longa.

O impasse seria encontrar uma modalidade de oficina que alcançasse as cinco interessadas, com garantia do mesmo dinamismo que vinha ocorrendo, até aqui, nas aulas presenciais.

Harmonizar as particularidades com a diversidade de estilos, considerando o gênero proposto, era uma das premissas a ser mantida no grupo. A outra, era encontrar a forma de desenvolver tal proposta no meio digital.”

O trecho acima, em síntese, inicia a apresentação de projeto um tanto audacioso do grupo que vinha regularmente participando de oficina literária.

Foram muitos os entraves provocados pela pandemia — isolamento, uso de máscaras, perdas materiais, locais fechados, e ainda o medo e a ansiedade ultrapassando a vontade de se lançar em novos planos e projetos. Porém, um elenco de cinco mulheres — Clotilde Grassi, Magaly Andriotti Fernandes, Maurícia Mees, Sônia Coppini e Terezinha Lanzini —, sob coordenação de Jacira Fagundes, aderiu ao convite para continuar produzindo, nos moldes possíveis. E assim, se reinventando, partiu-se para a elaboração com abertura para intercambiar entre si, visando um texto final, o mais aproximado possível de integração intertextos. Algo comparado ao hipertexto.

Quanto a tema, ainda presos aos momentos vividos na pandemia, com internações e mortes em profusão, a escolha caiu sobre a morte provocada nas contendas — vítima e algoz — na eterna luta pela vingança e pelo poder do mais forte. Muitas vezes sem solução. Foi o caminho perseguido pelas cinco autoras.

Confira abaixo as sinopses de cada narrativa

Magaly Fernandes traz Umut, um jovem sonhador, vítima da desfaçatez da justiça ao enfrentar a cidade grande. Gostava da cidade tacanha onde nascera e se criara acompanhando o pai na lida da pesca, ajudando-o com os peixes, mas queria conhecer a cidade da serpente encantada. Foi acusado de matar um homem.

Clotilde Grassi apresenta Joseph e sua história de vida voltada ao sublime. Devido à origem humilde e desprovida de afetos, foi para tantos um alento. Com olhar paternal, segurando as mãos enquanto ouvia atento os lamentos da alma, ia curando em silêncio. Escolhera ser padre.

Terezinha Lanzini mostra a tristeza e a marca do abuso na sua personagem Beatriz, moça recatada e triste com histórias de amores incompletos e obcecada pela figura de um fotógrafo, simbolizando o mal.

Sônia Coppini traz Adenor, empenhado na busca daquele que acredita ser um Jaguatirica e portador de todo o infortúnio. Fixado numa visão de morte – de uma determinada noite no capão, de um outro jaguara com a espingarda. Matar por matar.

E Maurícia Mees faz o retrato de histórias familiares, opostas na fortuna – Guilherme e Miguelito – e suas apreensões com o desaparecimento de um ente querido, na tristeza infinita com a busca permanente por um corpo.

A interação entre as cinco histórias se faz por inserções de chamadas para o leitor na forma de envios ocasionais para episódios e páginas sugeridas, quando da interrupção de um ou outro trecho da narrativa. Importa trazer o leitor para a realidade que o introduz no mundo atual, de permanência da violência, onde as vítimas se alternam dia a dia, algumas noticiadas, outras não, entre as tantas que se amontoam no anonimato. Assim como seus algozes, que lotam os presídios, ou escapam da lei sem qualquer remorso. E ainda os erros judiciários e as prisões indevidas que matam as esperanças, quando do pobre.

O resultado deste trabalho surge em livro sob o título de As cinco direções de um corpo e tem acesso gratuito no site da Editora Bestiário (link externo).

As cinco direções de um corpo
Clotilde Grassi, Magaly Andriotti Fernandes, Maurícia Mees, Sônia Coppini e Terezinha Lanzini; Jacira Fagundes org.
86 p.
Editora Bestiário
Compre aqui (link externo)

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