Priscila Ferraz Pasko: A morte do carrasco ou Alguém está sonhando o Brasil

“A alegoria estruturada por Silvina Ocampo com doses de fina ironia, crítica e pitadas do fantástico remete às fórmulas tão antigas quanto eficientes de governos autoritários

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A propósito do espetáculo político macabro que se estende para além da conta aqui no Brasil, revisitei, ou melhor, fui revisitada pelo conto O carrasco (El verdugo), escrito pela argentina Silvina Ocampo (1903-1993), em 1959. O texto integra a coletânea de contos da autora, A fúria, publicada em 2019 no Brasil. 

Na trama, um Imperador se encaminha para a praça principal durante uma celebração, acompanhado dos súditos e do Técnico, que carrega um cofre de madeira. Na caixa, estão as vozes dos considerados presos políticos do governo. O monarca ordena neste dia festivo que soltem os gritos de todos os delatores que haviam sido torturados – uma oferta de entretenimento para o público.

De postura severa, o tal soberano assume, por vezes, o tipo bufão: acena efusivamente; pisca com um olho para os seus ministros enquanto morde um palito de dente; surge e desaparece com trajes diferentes nas diversas sacadas de onde lança os seus discursos; provoca o riso até às lágrimas. Há, inclusive, homens que urinam involuntariamente durante a fala do Imperador. 

Faz graça. 
Uma figura. 
Muito engraçado.

A respeito das línguas dos opositores, dissera o monarca “que não fossem cortadas, para que o povo escutasse os gritos dos torturados”. Em seguida, o Técnico abre a caixa, de onde saem os gritos dos mortos. Vozes de homens, de algumas mulheres e crianças são recebidas com aplausos, insultos e delírio da massa. A diversão do soberano é interrompida quando ele escuta o próprio grito vindo do cofre, deixando todos da praça reticentes. Por fim, o Imperador cai morto, após golpes invisíveis e sob a alegação (de pessoas religiosas) de que as referidas vozes nada mais são do que o seu remorso por não ter cortado a língua dos réus.  

A alegoria estruturada por Silvina Ocampo com doses de fina ironia, crítica e pitadas do fantástico remete às fórmulas tão antigas quanto eficientes de governos autoritários. Ataques a agentes que desempenham o seu papel, sobretudo quando denunciam crimes e a negligência da parte de quem deveria zelar pelo bem-estar e segurança (nas mais distintas esferas) de uma nação inteira. 

No entanto, não é isso o que ocorre. Toda a desgraça se torna pretexto para uma performance cênica de qualidade, no mínimo, duvidosa. Gestos, frases de efeito. São muitas as sacadas públicas de onde surgem e desaparecem governantes montados em cavalos, jetskis, lanchas ou motocicletas. Mas tudo indica que o problema para certos imperadores são as vozes que circulam livremente e que acabam com as suas línguas encarceradas em uma caixa, literal ou metaforicamente. 

Os Imperadores não contam com a inversão no final da história. Subestimam eles que as vozes, por mais abstratas que possam parecer, se articuladas e atuantes, apresentam condições para denunciar o poder vigente. Não podem as vozes, porém, aguardar a boa vontade do monarca e do Técnico para que a caixa seja aberta. Há guardiões por todos os lados, assumindo diferentes instâncias. Nem mesmo Silvina projeta um perfil tão perverso quanto os exemplares que nos cercam atualmente.

Sim, o Brasil é um sonho. A constatação, que não é minha, mas que passo a considerar, nada tem a ver com lampejos de utopia, encantamento e beleza. É sobre o estado alcançado enquanto se dorme. E isso explica a razão do gigante ainda não ter despertado.

No curta-metragem República (2020), da atriz, diretora e dramaturga Grace Passô, a personagem principal, interpretada pela própria, é acordada com a ligação de alguma pessoa conhecida lhe dando a notícia: ao contrário do resto do mundo, o Brasil não existe. Alguém, não se sabe quem, está sonhando essas terras. O anúncio leva à constatação de que nada dito, pensado ou vivenciado no país é real. 

Ignorando qualquer lamento ingênuo pela perda de toda a história e experiência do que se conhece como Brasil, uma mulher negra sente alívio e reage de forma efusiva à notícia. O que poderia ser traduzido como fim, para a mulher surge como a faísca de uma esperança. Para alguns, o Brasil acaba, para outros, ele nunca existiu. Afinal, que história seria essa a se condoer? Quem a lamentaria e por qual motivo? Quais são as digitais deste país? 

Qual pessoa terá a coragem de acordar quem sonha o Brasil?

Priscila Ferraz Pasko (1983 – Porto Alegre) é escritora, jornalista freelancer na área cultural e graduanda em História da Arte (Ufrgs) . É autora do livro de contos “Solo rachado por dentro” (Figura de Linguagem, prelo), “Como se mata uma ilha” (Zouk, 2019) – Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea “Novas contistas da literatura brasileira” (Zouk, 2018). Paralelamente, Priscila se dedica à dança contemporânea e a experimentos em videodança. Se interessa ainda por artes visuais, pelo processo criativo/vivência de artistas mulheres e sonhos. Divide o teto com os seus dois gatos, a Pemba e o Arruda.

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