Christian David: Tradição e Literatura na Argentina

A história da Argentina é intimamente ligada com a literatura Argentina, ou, pelo menos, encontrou nessa arte a tentativa de canonizar uma tradição e um modelo de progresso e desenvolvimento

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Certa vez fui assistir, aqui em Porto Alegre, a um musical que uma universidade americana (BYU) havia organizado e patrocinado para realizar uma turnê pelas Américas. O nome do espetáculo era “Living Legends” e a ideia principal era apresentar a cultura de diversos povos das Américas através de danças típicas. Lá pelas tantas começou o quadro que representava o Brasil, percebeu-se logo de que país se tratava por uma bandeira brasileira que desfilava pelo palco e pelo samba dançado (ainda que sem tanto molejo) pelos artistas. A plateia vibrou e curtiu a ideia de ver seu país representado por aqueles estrangeiros de maneira digna e elogiosa. Entretanto, mais para o fim do espetáculo, um outro país foi representado, com uma dança bem marcada, com melodia e instrumentos típicos do sul do continente americano e ainda a frase “avante, gaúcho!” gritada em vários momentos da apresentação. Percebeu-se, agora sim, um entusiasmo verdadeiro e uma identificação maior com o que estava sendo representado. O público aplaudiu e vibrou de pé neste quadro do espetáculo. Nem preciso dizer que, na verdade, o país representado, a esta altura, era a Argentina.

Usei a ilustração acima porque achei um bom exemplo de como esta questão de tradição movimenta diferentes visões de nacionalidade e identidade, e nem sempre nos sentimos representados ou enquadrados naquela identidade que nos apresentam como a certa e/ou verdadeira.

A história da Argentina é intimamente ligada com a literatura Argentina, ou, pelo menos, encontrou nessa arte a tentativa de canonizar uma tradição e um modelo de progresso e desenvolvimento.

Domingo Faustino Sarmiento em seu livro Facundo o Civilización y Barbarie, de 1845, critica o atraso da Argentina em suas províncias do interior. Mesmo Buenos Aires permanecia estagnada enquanto na Europa multiplicavam-se as possibilidades. Sarmiento via, e denunciava, o setor rural argentino como sinônimo de atraso. Na época da queda de Juan Manuel Rosas em 1852 a Argentina já estava dividida em duas: Partido Unitário e Partido Federalista, Cidade e Campo, dois modelos, naquele momento, antagônicos no que se refere ao desenvolvimento. Em 1868 o Partido Unitário assume o poder e Facundo se confirma como um livro cânone na fundação da Argentina, não sem oposição.

Em 1872 José Hernandez publica El Gaucho Martín Fierro apresentando uma interpretação totalmente diferente da de Sarmiento e sugerindo que o gaúcho não era bárbaro ou ignorante, revelando assim uma digna representação do argentino, e do sul-americano, oprimido e manipulado.

Borges pareceu fascinado pelas duas obras, mas buscava uma terceira via para definir o que lhe contentava como uma verdadeira tradição argentina. Não se sentia obrigado a se limitar a esses dois modelos de tradição, sentia-se livre por transitar por eles, buscando, mesmo que por vezes com certa contradição, o que via de verdadeiro ou interessante em cada concepção. E mais, em seu ensaio O Escritor Argentino e a Tradição questiona:

Qual é a tradição argentina? Creio que podemos responder facilmente e que não há problema nesta pergunta. Acredito que nossa tradição é toda a cultura ocidental e creio, também, que temos direito a essa tradição, um direito maior do que o que podem ter os habitantes de uma ou outra nação ocidental. (…)

Por isso repito que não devemos temer e que devemos pensar que nosso patrimônio é o universo; ensaiar todos os temas, e não podemos nos prender ao argentino para sermos argentinos: porque ou ser argentino é uma fatalidade e, nesse caso, o seremos de qualquer modo; ou ser argentino é uma mera afetação, uma máscara.

Creio que se nos abandonarmos a esse sonho voluntário que se chama de criação artística, seremos argentinos e seremos, também, bons ou toleráveis escritores.

Ou seja, Borges considerava poder apropriar-se de toda a cultura ocidental para compor sua tradição. Podia ensaiar todos os temas e não se sentia menos argentino por abordar temas ou ângulos que não tivessem estrita e evidente ligação com a Argentina.

Quando Pablo Katchanjian publica suas obras Martin Fierro ordenado alfabeticamente (2007) e El Aleph engordado (2009) mais uma vez se precisa repensar o que se considera tradição. Quem se atreveria a bulir com Martín Fierro e alterar o texto do papa Borges? Pablo achou possível e o fez. Independentemente da qualidade do texto final ou da validade da proposta, mexer com a tradição e com livros canonizados gerou polêmica e reflexão, cumprindo assim, de certa forma, o que se espera de um artista. A tradição não é imutável, pode ser engordada e reorganizada.

Impossível não falar de Ricardo Piglia e de seu Respiração Artificial (1980). Piglia faz uma mistura de gêneros e mostra que talvez essa seja a tradição argentina ao misturar cartas com ensaio e ficção com história, algo que, de certa forma, já se podia perceber nas outras obras citadas, principalmente em Borges, mas também em Sarmiento. Com seus quatro personagens representando quatro períodos da história argentina e com muito de si mesmo no livro, Piglia divide o texto em duas partes, uma trama epistolar contando, através dos personagens, a história do país desde a metade do século XIX até os anos 70 e suas relações políticas na primeira parte, e teorias literárias, cultura e erudição na fala dos personagens na segunda parte, com um inesquecível encontro entre Hitler e Kafka.

O que se percebe claramente ao longo da aproximação com esses textos é que tradição não é uma linha reta, não é feita só de rupturas. Ela se mistura, se soma, se reorganiza e se “engorda”, retoma raízes e as abandona para retomá-las mais tarde, é revista e repensada e que não acontece com a naturalidade do tempo, constitui-se de uma seleção, de uma interferência humana, enfim como ficou evidente na dicotomia Facundo e Martin Fierro, uma escolha muitas vezes com viés político e mediada pelo entendimento de mundo e progresso por quem a defende e a professa.

Bibliografia:

Facundo (ensaio – 1845), de Domingo Faustino Sarmiento.

Martín Fierro (poema narrativo – 1872/1879), de José Hernández (texto completo: El gaucho Martín Fierro e La vuelta de Martín Fierro).

El aleph (conto – 1949), de Jorge Luis Borges.

Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874) (conto – 1949), de Jorge Luis Borges.

El escritor argentino y la tradición (ensaio – 1953), de Jorge Luis Borges.

Respiración artificial (romance – 1980), de Ricardo Piglia.

El Martín Fierro ordenado alfabéticamente (poema – 2007), de Pablo Katchadjian.

El aleph engordado (conto – 2009), de Pablo Katchadjian.

Gaúchos e bárbaros: a história da formação da nacionalidade argentina a partir da leitura de Jorge Luis Borges (artigo – 2011), de Márcio Bobik Braga.

Christian David é natural de Porto Alegre e pós-graduado em Literatura Brasileira pela UFRGS. Tem mais de vinte títulos publicados em diversas editoras. Recebeu diversos prêmios como o Prêmio Saraiva 100 anos, Prêmio AGES, Prêmio Cidade de Passo Fundo, Prêmio Off-flip, Prêmio Academia Rio-grandense de Letras, Prêmio Sintrajufe-RS pelo conjunto da obra, inclusão no Catálogo de Bolonha, Acervo Básico e Selo Altamente Recomendável da FNLIJ, além de finalista nos prêmios Açorianos e AEILIJ.

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