O gatilho de uma história de vida

Pedro Duarte dramatiza episódio de pesquisa etnográfica a partir de encontro do protagonista com imigrante senegalês

Edição: Vitor Diel com texto da assessoria
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Ernesto Nader, Mestre em Sociologia, circula por Copacabana em busca de um novo tema para suas pesquisas. Num evento fortuito, conhece Madou, vendedor ambulante de origem senegalesa, e a ele dedica seu próximo artigo. A partir desse encontro, desenvolve-se uma trama complexa, em que Nader busca conciliar suas ambições acadêmicas com o inabalável compromisso epistemológico de um pesquisador de talento.

Esta é a sinopse de A pesquisa, romance de Pedro Duarte e que já está disponível pela Amazon (link externo).

Confira abaixo um trecho dos parágrafos iniciais:

Quando terminei o Mestrado, meu orientador, o professor doutor José Pandolfini, deu-me alguns conselhos. “Se você se interessa por essa área”, disse ele, “deve trabalhar com o Doklas. Posso te fazer uma recomendação. Mas você precisa publicar mais. Escreve pra ele, mostra interesse pela pesquisa. Pede orientação para um artigo. Ele é bem acessível.”

Mas eu sabia que não era bem assim: Doklas era uma sumidade. Sua tese sobre os povos toltecas recebera menção honrosa em Leipzig; ele participava regularmente de congressos no Brasil, no México e nos Estados Unidos; e do conselho editorial das revistas mais importantes do país. Sua influência sobre as bancas de Doutorado era conhecida país afora. Tudo isso com… o quê, 39, 40 anos? Pouco provável que ele tivesse tempo para mim.

Resolvi arriscar. Mandei-lhe um e-mail explicando meus planos. A ideia era fazer um ensaio que reconstruísse uma cultura a partir de gerações distintas, traçando perspectivas que interrogassem a mudança cultural na longue durée. Gostaria que o projeto tivesse qualidades literárias, no estilo de Lévi-Strauss (1955), Ghosh (1992) ou Zemon-Davis (1983). Mas eu evitaria cometer os mesmos erros que esses autores, pois supriria a falta de rigor metodológico de seus trabalhos com os desenvolvimentos científicos recentes, sobretudo as novas epistemologias Sul-Sul.

 Ainda estava em busca dum objeto de estudo. Mas, por ora, seriam as novas correntes migratórias, que, segundo minha hipótese, contribuiriam para a renovação dos processos formadores de brasilidade e identidade brasileira.

A resposta do professor foi curta:

Não entendo como você vai encaixar Antropologia nisso.

S.

Não me dei por vencido. Doklas podia ser uma autoridade, mas eu tinha espaço para argumentar. Respondi que faria a reconstrução da experiência histórica de uma cultura a partir de vivências individuais. Trabalharia com pesquisa etnográfica qualitativa, valendo-me de entrevistas para interpretar a realidade social dos imigrantes e de seus antepassados, e então analisaria o material com base em fontes secundárias. A descrição e a comparação de culturas, atividades primordiais da Antropologia, seriam desdobramentos lógicos desse processo. O professor então respondeu:

Faça a pesquisa. Depois conversamos.

S.

Enfim, eu tinha uma chance.

Sobre o autor
Pedro Duarte nasceu em Passo Fundo/RS, em 1986. Sempre gostou de ler sobre as Humanidades e se especializou em Relações Internacionais, História e Literatura.

A Pesquisa
Pedro Duarte
186 p.
Edição independente
R$ 19,28
Comprar aqui (link externo)

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