Nathallia Protazio: Nem vinte nas 130

“Qual o tamanho do silêncio que pode nos calar por tantos anos? Existe um silêncio que persista pra sempre?”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Marcia Prado/Oblíquo Imagens

Sair do silêncio. Perdi o prazo de entrega deste texto três vezes, e portanto eu quis escrevê-lo, a ideia nasceu do meu desejo de registrar um momento histórico, primeiro a experiência, depois a imagem, e por fim a palavra. Um belo ciclo estético da vida. O convite de fazer uma foto de todas as escritoras de Porto Alegre nasceu lá pelo final de maio, o encontro aconteceu no dia 11 de junho e hoje, 6 de julho, o texto se torna, enfim, um desejo insuportável.

Estou lendo as crônicas da Svetlana Aleksiévitch no seu Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 2016). Sou uma leitora lenta, minhas anotações me dizem que iniciei a leitura dia 17 de maio e estou na página 112. Se você como eu é uma pessoa viva, então tu também passou por uma catástrofe. A Covid-19 me marcou para sempre e, apesar de termos uma ligeira noção das possíveis sequelas da infecção, nós ainda não temos a mínima ideia do que serão consequências, individuais e coletivas, da pandemia.

Tenho me surpreendido com alguns comportamentos que desenvolvi, alguns noto em colegas da mesma idade, outros em colegas da mesma profissão, mas sem querer bancar a nova psicóloga social que vem nascendo dentro de mim, para além de toda a morte que me acompanha nos últimos anos com a nossa catástrofe, e nos últimos meses com a da Svetlana, eu gostaria de falar sobre o desejo.

Talvez mais do que querer, eu precise e deva, e esta é para mim a serenidade de que este texto chegou ao seu momento. Você já gestou palavras? Para mim, acredito que parte do meu cansaço constante deva vir desta geração ininterrupta de novos textos. Criar é um ato solitário realizado em um meio cheio de outros seres. Às vezes sinto como se algo pequeno como um tatu bolinha rolasse da boca de alguém, de um som na rua ou de algum farfalhar de árvore e este ruído embolado de pouco atrito, aproveitando-se de minha distração em viver a vida, de repente: Blum! Desliza pra dentro do meu ouvido e lá no meio da minha cabeça se espreguiça.

Um tatuzinho pode ser inofensivo, bobinho e preguiçoso. Aparece, tu olha e pensa, ‘‘Hum, que fofo, uma nova ideia. Gostei!’’ E tão logo for possível algo novo, ele some do campo reflexivo de atenção e, na maioria das vezes, morre num cantinho (ou fica nadando eternamente no limbo das ideias-não-gestadas, ou no piscinão das ideias-que-só-precisam-daquele-tempo-que-nunca-terei, ou toma sol por ali na laje das ideias-inúteis-mas-que-pelo-menos-eram-minhas, etc). Tranquilo, a rotina de qualquer pessoa que se diz criativa tem mais ideias que criações. Natural.

O problema é quando, através de uma mágica que desconheço, uma ideiazinha se transforma num desejo. Um desejo em formação é um dos processos mais dolorosos e belos de se vivenciar. O desejo mobiliza o foco da minha energia e aos poucos as pequenas decisões do dia a dia que pareciam desconexas se organizam no caos e abrem um caminho limpo em direção à sua realização. Quando o desejo é uma palavra que quer nascer em texto ela cutuca, incomoda, desajeita a mobília psíquica. Rola pra lá e pra cá, fazendo confusão principalmente quando a gente deita. O desejo cresce se alimentando de outras palavras, vai ficando cada vez mais incomodativo, mais egoísta e, às vezes em um mês, às vezes se perdendo o prazo três vezes, ele ainda está ali, atrapalhando no emprego, nas ligações que eu devia ter feito pra minha mãe, nas leituras que estão atrasadas, você entendeu… Uma ideia em gestação pode atrapalhar até a diminuta vida sexual de uma cronista solteira. É um processo enlouquecedor.

Foto: Marcia Prado/Oblíquo Imagens

Até que se torna insuportável! Até que a distinção entre querer, precisar e dever não faz mais sentido. O desejo se torna uma obrigação, uma urgente necessidade. Sair do silêncio. Erguer a voz, como convocou a bell hooks, num ato de libertação, requer coragem, pois ao redor tudo é morte, tudo é medo. Svetlana passou mais de uma década convivendo com todas as suas palavras e precisou pegar muitas emprestadas para conseguir se livrar do grande silêncio que a envolveu. Fico imaginando toda a solidão que rolou para dentro de sua cabeça em meio a maior tragédia criminosa nuclear que a humanidade já experienciou. Qual o tamanho do silêncio que pode nos calar por tantos anos? Existe um silêncio que persista pra sempre? Cento e trinta mulheres escritoras se reuniram na escadaria 24 de maio, inspiradas na foto ‘‘Great Day in Harlem’’ de Art Kane (1958), numa manhã gelada do mês passado para celebrar suas vitórias sobre o silêncio. Existem muitas formas de se fazer ouvir, a publicação de um livro escrito por uma mulher é mais que um objeto ou arte, ainda resta sendo um símbolo de insurgência.

Por fim, gostaria de lhes contar sobre o momento logo após a foto oficial. Escritoras negras começamos a nos juntarmos no meio da escadaria enquanto todas as outras, escritoras brancas, desciam e se despediam, conversavam, ou seja, ficamos um bom tempo vivendo a confraternização daquele momento de vitória sobre a solidão. Sobre o silêncio. Uma segunda foto foi feita. Para alguns de vocês, que agradeço, me leem até aqui, a literatura negra brasileira pode parecer algo na moda, que já está consolidado como uma nova categoria a ser observada na tua luta diária para ser um humano melhor. Parabéns, fico feliz. Só peço, por gentileza, que não caia na ladaia de achar que as coisas estão muito diferentes, quiçá resolvidas. Não éramos nem vinte escritoras negras reunidas no dia das 130. Ainda nos sentimos muito sozinhas. Ainda caímos e cairemos em muitos silêncios, até que se torne novamente insuportável.

Foto: Marcia Prado/Oblíquo Imagens

Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica e escritora. Já morou em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça. Hoje vive em Porto Alegre/RS, onde atualmente se divide entre crônicas, mestrado em psicologia social, edição da Revista Parêntese e os bares da Cidade Baixa.

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