Pela construção de uma psicanálise amefricana

Iniciativa da Après Coup Porto Alegre alcança resultados ao subverter a lógica tradicional da psicanálise e propor uma abordagem engajada com a cosmovisão social, cultural e literária africana e amefricana

Edição: Vitor Diel com texto da assessoria
Arte: Giovani Urio

Incluir na psicanálise a possibilidade de escuta de subjetividades que estiveram à margem da formação inicial do campo e que ainda hoje se sentem dele excomungadas. Este é o cerne de uma concepção teórica que tem sido construída pela Après Coup Porto Alegre Psicanálise e Poesia, instituição que, há mais de vinte anos, dedica-se à transmissão da psicanálise como possibilidade de subversão do discurso dominante — ou seja, uma psicanálise que considera em seu discurso as subjetividades diversas e plurais dos sujeitos e da sociedade. A associação, nascida em Porto Alegre, é a primeira instituição a incorporar as ações afirmativas em seus cursos de psicanálise no Rio Grande do Sul e hoje conta com a maioria negra em seu quadro de alunas e de alunos em formação em psicanálise.

Psicanalista e poeta Eliane Marques. Foto: Divulgação

Segundo a psicanalista e uma das coordenadora da Après Coup, a poeta Eliane Marques, a ideia assenta-se também na leitura de textos freudianos e lacanianos — embora não apenas — nos quais questões de gênero e de raça social, entre outras, não foram discutidas, embora desde lá trouxessem essa possiblidade. “Se vivemos outros mitos que não apenas os gregos, exige-se da psicanálise e das psicanalistas que escutem outros mitos além dos gregos”, explica. Eliane tem se debruçado nesta temática, tanto como psicanalista, quanto como pesquisadora e escritora. Em um dos seus textos intitulado: Exu na psicanálise, a autora cita o exemplo do conjunto de mitos relativos a Exu: “Interpretados em conjunto, localizam esse orixá na base de uma série, demonstrando o que Lacan concluiu com o paradoxo de Russell, ou seja, que na base do regime da determinação simbólica insiste uma negatividade, algo da série que é sempre externo a ela e dela ao mesmo tempo”, aponta.

O caminho da psicanálise amefricana visa à produção de outras formas de viver dentro e fora do campo psicanalítico. Em texto construído por Eliane Marques e pela diretora e psicanalista didata da instituição, Marcela Villavella, ambas destacam que “é o momento de levantarmos do chão os mitos enterrados e de enterrarmos os monstros da razão, com trabalho e trabalho para ampliarmos conceitos ditos ocidentocêntricos. A psicanálise também como discurso é um método de investigação. Com ela trabalhamos sobre conceitos e não sobre dogmas. Portanto, a psicanálise amefricana é o maior desafio que temos como instituição. E nos dispomos seriamente a esse intento”, enfatizam.

Psicóloga Irimara Peixoto compartilha dos benefícios da iniciativa da Après Coup. Foto: Divulgação

Resultados da psicanálise amefricana são perceptíveis em abordagem clínica

Irimara Peixoto é negra, psicóloga, cursa mestrado na Georgia State University e faz análise com uma psicanalista negra. Ela participa de um expressivo grupo de alunas que fazem formação em psicanálise na Après Coup. “Quando uma pessoa preta tem um psicanalista negro, as identificações são diferentes, aquele profissional tem uma escuta mais atenta, uma escuta que entende o lugar de onde aquelas demandas raciais vêm.” A psicóloga afirma que já atendeu muitos pacientes negros que relatavam experiências de violência de análise por psicanalistas não negros por não conseguirem ouvir as questões raciais e a experiência do racismo.

Já a assistente social Daniela Ferrugem ressalta o ineditismo da instalação de um ambiente psicanalítico mais amigável às particularidades negras: “É possível falar sobre si sem precisar explicar o impacto da racialização”, explica. “É a primeira experiência em que me enxergo na maioria dos colegas. Ao mesmo tempo que nos apropriamos teoricamente, confrontamos a teoria, sempre questionando, propondo deslocamentos conceituais”, revela, sobre sua experiência na Après Coup.

Ao longo da sua trajetória, a instituição tem organizado encontros e cursos com a temática da psicanálise amefricana e tem oferecido um espaço de transmissão e troca para a construção coletiva de uma psicanálise que elabore perguntas concernentes à condição histórico-social das Américas. A programação do espaço pode ser conhecida no site www.aprescoup.com.br (link externo).

A pedido de Literatura RS, a Après Coup apresenta abaixo dez livros de autorias diversas que podem promover a compreensão sobre o tema da amefricanidade. Confira!

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Literatura RS

Uma resposta para “Pela construção de uma psicanálise amefricana

  1. Muito interessante a perspectiva de abordagem. Fiquei muito interessada. Não sou psicanalista, sou professora, preta, com interesse na área das literaturas africanas de língua portuguesa e afro-brasileira.

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