Maiara Alvarez: Entre Ana e Teresa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Depois daquele fato repentino me tornei distraída, e mamãe, com raiva de Deus, começou a envelhecer precocemente (p.13).

Me sinto constantemente entre um lado e outro, entre Ana e Teresa. Ainda assim, como escreveu Anna Mariano na contracapa do livro sobre o qual resenho, insisto em “mergulhar no mistério de um universo paralelo, dividido pela barreira da incompreensão e do medo, onde, no entanto, era possível ser feliz”.

Teresas de Itapuã, da médica e escritora Gabriela Coral, me transportou para uma outra Porto Alegre. Trânsito dicotomicamente proposital e compulsório. No primeiro caso, pela busca da autora em retratar um tempo (as décadas de 50 e 60) e um espaço (mais de 50 km da capital) que hoje já não são: o momento, as leis, a ditadura e os preconceitos eram outros, embora com algumas semelhanças aos atuais; o espaço, distante da capital, hoje já não é mais tão longínquo, tanto pela aproximação demográfica da metrópole quanto pela queda da barreira imposta aos que deviam ser isolados por ter uma doença que, arrisco dizer, não é mais substantivo conhecido por quem nasceu depois dos anos 2000. No segundo caso, compulsório por me aproximar de uma realidade ficcional, a magia clássica de adentrar um mundo pela relação das palavras com o que elas evocam na imaginação, onde não há porta ou guarnição que consiga proibir personagem nenhum de sair e leitor nenhum de entrar.

Se, por um lado, os relatos-relâmpago de minha mãe me entristeciam, por outro, me ajudavam a trilhar de volta o caminho do possível perdão (p.73).

Entre as intencionalidades de Gabriela, não ficou posto de forma objetiva à minha leitura a não-divisão gráfica da história de Ana e Teresa. Fora a diferenciação narrativa (terceira e primeira pessoa), as vidas se confundem, se entrelaçam. Além da visão de Teresa, me pergunto quem era aquele outro ser que observava a vida de Ana, por vezes guardando certa moralidade na voz. O livro, cortado ao meio pelo anúncio de uma segunda parte, tampouco me pareceu dividido — não houve passagem de tempo, de roteiro, de arco ou de espaço que justificassem essa quebra, esse afastamento. Talvez algo parecido com o que separou as vítimas de hanseníase (e, mais tarde, da AIDS) a um não-local: precisávamos evoluir, como sociedade, mais do que a doença.

Qual era mesmo o nome daquele senhor grisalho no qual a idade tinha manchado os limites da ética? (p. 88).

Como habitante e também estrangeira de uma Porto Alegre diversa, (me) sinto viver em uma capital que separa muito bem em zonas suas alteridades e tenta, algumas vezes em vão, e em outras, de forma efetiva — principalmente pela situação financeira —, criar barreiras tão tangíveis quanto a entrada do Hospital Colônia. Itapuã — a localidade contada pelas mãos de Gabriela — era próxima demais ao que vivi quando moradora do interior. Ao mesmo tempo, o que faz do local ainda ermo o suficiente para ser romântico sob um olhar fotográfico, está inacessível, hoje, pelas barreiras de construções altas o suficiente para me afastar do sol.

As vidas retratadas são totalmente diferentes, ainda que plenamente semelhantes, ao que acontecia e acontece fora dos muros do Hospital Colônia. Pobreza, amor, desinformação, vícios, cuidado, trauma, sofrimento, alegria, nascimento, celebração… Diversas, ambíguas, inteiras vidas, entre Anas e Teresas.

Sobre a autora
Formada em Medicina em 1996, especialista em Gastroenterologia e Hepatologia, com doutorado em São Paulo na USP, Gabriela Coral publicou contos na Antologia de contos 2, oficina de criação literária de Sérgio Côrtes, Alquimia da Palavra, 1992. Gabriela Coral nasceu em Porto Alegre/RS em 26 de maio de 1972.

Teresas de Itapuã
Gabriela Coral
200 p.
R$ 40
Editora Libretos
Comprar aqui (link externo)

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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