Ficções sobre Iberê

Nilma Lacerda imagina trajetória da vida do pintor gaúcho em livro; obra é publicada pela nova editora gaúcha Mínimo Múltiplo

Edição: Vitor Diel sobre texto da assessoria
Arte: Giovani Urio sobre reproduç
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Dono de uma das obras mais fortes, se não a mais forte, da arte brasileira, Iberê Camargo (1914-1994) há tempos não era tema de livro. Esse jejum termina agora, com a publicação de Iberê Camargo: Um Homem Valente [fricções], romance da escritora carioca Nilma Lacerda que inaugura a coleção Tipos Raros, projeto da nova editora Mínimo Múltiplo.

No que classifica como narrativa de “fricção” (um atrito entre invenção e realidade), Nilma parte das telas mais marcantes e também dos textos memorialísticos e ficcionais deixados por Iberê para recriar a trajetória inquebrantável do artista. Dá aos leitores, assim, a possibilidade de imergir num universo de busca de expressão estética e de reflexões morais e existenciais que poderiam ser as de todos nós.

“Só uma prosadora tão capacitada quanto a multifacetada Nilma Lacerda poderia se responsabilizar por biografia de artista plástico e, em particular, pela do pintor gaúcho Iberê Camargo”, afirma o escritor Silviano Santiago, no texto de orelha. “Nilma formula a sua capacitação (a sua arte poética, para ser mais preciso) na frase de abertura de Um Homem Valente. De maneira sintética e bombástica, proclama: ‘A pintura desobriga das metáforas’. Desobrigado de antemão das metáforas, o pintor entrega ao ficcionista o que será razão-e-arte de ser dos seus traços, linhas, frases, cores e fantasias. […] Vejo a pintura de Iberê e a prosa de Nilma a se friccionarem na minha mente e a me conduzir”, anota Silviano, recém- agraciado com o Prêmio Camões 2022.

O resultado dessa fricção é uma faísca incendiária, uma homenagem calorosa ao autor de uma pintura “viva, gestual, urgente”, conforme diz a compositora Adriana Calcanhotto no prefácio. Homenagem a um artista que foi, acima de tudo, livre. Se qualificamos acima a trajetória de Iberê como inquebrantável, não foi mera força de expressão: ele sempre pintou o que quis, sem aderir a modismos e a movimentos da cultura nacional, característica que realmente faz dele um tipo raro. Iberê só poderia, portanto, ser uma das personalidades que uma coleção com esse título vai abordar.

A admiração pessoal por Iberê e por tudo o que a obra do artista representa para a cultura brasileira conduziram Nilma Lacerda à pesquisa que resultou neste romance, para a qual contou com uma Bolsa VITAE de Artes em Literatura. Além de estudar profundamente a obra do pintor, Nilma visitou cidades que foram fundamentais para a vida dele: Restinga Seca (município de nascimento), Santa Maria e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e, é claro, percorreu locais também do Rio de Janeiro, onde ela vive e onde Iberê morou por muitos anos. Nessas andanças, ouviu de amigos e colegas dele histórias que a subsidiaram na elaboração de Um Homem Valente. Entre essas pessoas, estão Ferreira Gullar (1930- 2016), Eduardo Haesbaert, Katie van Scherpenberg, Edmundo Cardoso (1917-2002), Paulo Herkenhof, Décio Freitas (1922-2004) e Protógenes Solon de Mello. Nilma pôde conversar, ainda, com a própria viúva de Iberê, Maria Camargo (1915-2014). O resultado é uma prosa densa e intimista, uma narrativa em primeira pessoa criada com a liberdade que a literatura proporciona.

Iberê Camargo: Um Homem Valente – [fricções] está disponível pelo site da Livraria Isasul.

Sobre a autora
Nilma Lacerda nasceu e vive no Rio de Janeiro. É autora de Manual de Tapeçaria (1985), Pena de Ganso (2005) e Sortes de Villamor (2010). Publicou Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio (2000), ensaio, e os contos de Pégaso na Sala de Jantar (2018) e de Estrela de Rabo e Mais Histórias (2021), este premiado com o selo White Ravens, da International Youth Library, de Munique, Alemanha. Recebeu os prêmios Rio de Literatura, Jabuti, Brasília de Literatura, Cecília Meireles, Orígenes Lessa e Monteiro Lobato da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Doutora em Letras, teve longa carreira docente. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e de outras universidades no município do Rio de Janeiro, onde atuou também no Ensino Fundamental público. Tradutora, é colunista da Revista Pessoa, da São Paulo Review e do jornal Rascunho.

Iberê Camargo: Um Homem Valente – [fricções]
Nilma Lacerda
192 p.
R$ 49,50
Editora Mínimo Múltiplo
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