Guilherme Smee: Em busca de leituras de conforto e acolhimento

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre divulgação

Eu sei, todo mundo está sofrendo nesta pandemia. Alguns mais que outros, mas o mundo, como diz a música de Dionne Warwick, nunca, nos últimos anos, necessitou de amor, doce amor. Nunca necessitou tanto de conforto e acolhimento. Mas somos impedidos uns de abraçar aos outros, de compartilhar um momento feliz ou triste, até mesmo de nos aproximarmos sem o devido cuidado. Por isso, coisas que nos trazem mais sofrimento passam a ser evitadas, negadas, contestadas, principalmente aquelas que nos trazem mais dificuldade de lidar com situações para as quais não estamos preparados o suficiente.

Assim, mesmo que provoquem uma certa catarse, conteúdos midiáticos que nos trazem más lembranças, maus sentimentos, para os quais não temos uma solução ou uma forma de remediar, em minha humilde opinião deveriam ser evitados. Por exemplo, nos quadrinhos proponho que busquemos leituras de conforto e de acolhimento. É um sentimento parecido com aquilo que as comfort foods geram: algo confortável, que nos traga aconchego, que desperte boas memórias afetivas. Elas significam que você pode lembrar momentos em que está sendo cuidado, uma sensação de bem-estar, algo que lembre tempos com menos preocupações como a infância. Algo simples e que apele para emoções saudáveis que sentimos quando estamos nos sentindo bem.

Um momento de comfort reading pode ser aquele romance empolgante que você leu em um dia, que foi fácil de ler e te prende do início até o final, embora a maioria dos críticos diga que esse livro não vale nada. Comfort reading é aquele livro que te explicou algumas coisas sobre como a vida, o universo e tudo mais funciona e você acabou se sentindo mais aliviado sobre algum aspecto dessa tortuosa existência. Claro, os quadrinhos, nosso assunto aqui neste espaço, também são símbolos de comfort reading, mas existem aqueles quadrinhos que se levam a sério demais e que não podemos tirar nenhum acolhimento deles. Eles podem ser sensacionalmente escritos, incrivelmente desenhados, mas não provocam nenhuma sensação de maravilhamento, só de mais desilusão, frustração e angústia sobre nossa realidade.

Eu lembro que uma pilha de quadrinhos, para mim, significava conforto e constância em tempos difíceis. Meus tios costumava me presentear com uns seis a oito gibizinhos da Mônica, Disney, Pica-Pau, Pantera Cor-de-Rosa, e aí vai quando eu estava com aquelas doenças que toda criança da minha época passava: caxumba, sarampo, rubéola, varicela. Algumas delas era preciso ficar em quarentena no quarto esperando os sintomas passarem. Eu lia aqueles gibis devagar, esperando as alterações no meu corpo passarem e eu poder voltar a brincar novamente, mais saudável.

Depois, um pouco mais crescido, lendo quadrinhos de super-heróis, personagens que usavam sempre os mesmos uniformes e cujas aventuras não terminavam nunca, parecendo sempre jovens, atléticos e perspicazes, esse tipo de leitura trouxe uma espécie de continuidade e constância que a vida real não traz. Somos sempre surpreendidos por percalços, revezes, desvarios e perdas na vida, mas nas histórias de super-heróis serve a máxima: por mais que as coisas mudem, elas continuam as mesmas. Mesmo que isso tenha sido encarado de outra forma nas narrativas mais contemporâneas e que alguns super-heróis passem pelas mesmas adversidades que as pessoas do mundo real, eles ainda possuem super-poderes, o que facilita a sua vida um bocado.

Depois de 1986, os super-heróis deixaram de ser unanimemente histórias de otimismo e superaventuras espetaculares, por causa do sucesso de Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas. Essas histórias passaram a mostrar um lado doente, perturbado e sombrio desses personagens. A impressão que se tinha era de que uma história em quadrinhos para ser considerada boa precisaria revelar algum segredo chocante sobre os super-heróis ou sobre seu universo de narrativas. A onda de graphic novels que reverberou sobre os quadrinhos desde o começo do século XXI também teve esse efeito, influenciada diretamente pelas (boas) maluquices experimentais dos quadrinhos underground. Ainda pairava uma nuvenzinha escura e sombria sobre a mídia dos quadrinhos que levantava a ideia de que para uma narrativa assim ser interessante e agradar a crítica, ela precisava ser pesada, claustrofóbica, deixar uma ferida no peito de quem a lê.

Acredito que esse tipo de avaliação do que deve ser um “bom quadrinho” venha do estigma que os quadrinhos amargam de ser uma mídia exclusiva para crianças. Assim, parece que toda história em quadrinhos que não apresenta uma temática para todas as idades ou conteúdo infantil, mas muito sexo, violência e pertubações mentais são tidas como quadrinhos para adultos, ou “para leitores maduros”. O que acontece na maioria das vezes é que a história pode até ser classificada assim, mas os roteiros estão longe de serem feitos por uma cabeça amadurecida. Esse tipo de retratação traz diversas interpretações erradas sobre como a vida é ou deveria ser, não traz conforto, mas inquietação e além disso, cria a ideia em algumas pessoas que uma narrativa cheia de sexo e violência sem sentido são divertidas, legais e que podem ser praticadas por qualquer pessoa em qualquer contexto.

Por sorte, temos tido um movimento para desanuviar o céu carregado dos “bons quadrinhos” cheios de sexo, violência e “coolness”. Algumas editoras de quadrinhos americanas, principalmente as periféricas, começaram a entender que o público adulto também se interessa por quadrinhos mais leves e mais confortáveis, coisa que o mercado europeu de quadrinhos já havia compreendido desde antes dos anos 1960. Editoras como IDW, Image, Boom! Entertainment, Top Shelf, passaram a apostar, desde a segunda década do século XXI, em títulos seriados que não apenas trazem uma narrativa mais leve, mas desenhos mais cartunescos e menos realistas.

A busca do leitor por títulos mais diversificados, sejam eles reconfortantes ou angustiantes, é uma marca de maturidade daqueles que leem quadrinhos. Estar aberto para todo tipo de narrativa e de mundos e de experiências também é um exercício de tolerância, algo que somente uma mente e um coração amadurecidos podem sustentar. A busca por aquilo que é “cool”, que é descolado, que está na tendência, em termos de leitura marca também um estágio mais adolescente de gostos e denota uma busca por uma identidade ainda não bem formada, ou pior, ainda não conformada com aquilo que se tem e o que se é. Em minha humilde opinião, devemos buscar aquilo que nos faça sentir bem ao ler, mesmo que essa leitura nos desperte sentimentos conflitantes, é aqui que mora o despertar e a formação do nosso senso crítico.

Contudo, nesse momento, em que uma pandemia assola grande parte do mundo, trazendo em sua esteira um número avassalador de mortes, com destaque para o Brasil, a leitura, o escapismo, se tornam um conforto que não podemos negar. Com a maturidade das minhas leituras em quadrinhos – afinal já são mais de trinta anos lendo HQs – comecei a reparar que estou atingindo um tipo de gosto relativo àqueles que são classificados como “leitores antigos”, para não dizer “leitores velhos”. Passei a dar prioridade para materiais clássicos, para os fumetti, para temáticas menos exploratórias mas mais “confortáveis”, que me tragam algum acolhimento consigo. Não digo que não leio mais materiais novos e inéditos. Leio sim, e devem ser a maioria das minhas leituras em quadrinhos, mas a verdade para mim poucos deles trazem uma sensação de preenchimento, do conforto que esse tipo de leitura pode proporcionar. Alguns deles trazem uma sensação de vazio, de coisa feita às pressas, fabril e industrial, sem cuidado, sem mensagem, sem acrescentar nada mais ao meu dia a dia a não ser perda de tempo e dinheiro.

Acredito na força do escapismo como uma forma de criarmos soluções para as dificuldades que estão no nosso caminho. Muitas vezes com o cérebro desligado dos problemas cotidianos é que abrimos espaço para a possibilidade de outras formas de agir no mundo. Pode ser inspirado em uma história em quadrinhos, mas pode também ser inspirado pelo momento relaxante que permitiu a você fugir um pouco daquilo que assola nossas mentes e corações. Não é um simples botão de desligar da realidade, mas uma forma de dar um tempo quando tudo está desmoronando ao seu redor. Não é bem se desligar de tudo, como apertar um botão de on/off ou de stop, mas um botão de pause, em que tudo congela para que tenhamos as condições de dar play na vida novamente. Afinal, na vida não temos botão de rebobinar nem de acelerar, mas a leitura de quadrinhos pode ser uma ótima pausa para recomeçar.

Num momento de desamparo, nada melhor do que poder abrir uma história em quadrinhos. Lá vai estar aquele personagem que viu você crescer (embora ele não envelheça) como garantia de uma viagem por um mundo sem dificuldades irreparáveis como está sendo esse cenário da pandemia do novo coronavírus. Com a leitura das histórias em quadrinhos reconfortantes podemos sentir aquele abraço que tanto está faltando nas nossas vidas.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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