Ana Paula Cecato: Programas de leitura

Uma política efetiva e benéfica para todos os setores do livro e leitura

Edição: Vitor Diel

O Rio Grande do Sul tem a feira do livro em atividade mais antiga do país, a de Porto Alegre. Arrisco-me a afirmar que também é nosso o título do programa de incentivo à leitura mais longevo e vigente, o Autor Presente. Desde 1972, suas ações envolvem encontros entre autores e público leitor, sobretudo o escolar, e compra de acervos de literatura. Nesse modelo, outros programas têm uma consolidada trajetória de promoção da leitura literária, como o Adote um Escritor, que atende a rede municipal de Porto Alegre desde 2002, e o Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), de Caxias de Sul, em atividade desde 2005. 

Programas e projetos de leitura literária situam-se nas fronteiras de dois campos, o literário e o educacional. Para os agentes da cadeia produtiva do livro — escritores/as, ilustradores/as, casas editoriais, distribuidoras e livrarias — essas iniciativas fazem com que suas obras sejam adquiridas pelas escolas e a leitura delas seja promovida. Tal movimento coloca quem escreve, edita e comercializa livros em circuitos de circulação literária que talvez não seriam acessados na ausência de uma política pública. O encontro com leitores e leitoras consagra quem escreve, ilustra e conta histórias. Sua presença nas escolas é celebrada e está registrada em publicações nas redes sociais dos/as artistas, das escolas e dos/as professores/as. Na etapa de recrutamento e escolha dos/as autores/as pelas escolas, autores/as divulgam sua participação nos programas de leitura e, depois, comemoram que foram “adotados” pelos seus leitores. Para os agentes da cadeia mediadora do livro — professores/as, bibliotecários/as — e seus leitores/as, programas de leitura colocam a experiência com a literatura na centralidade de suas práticas pedagógicas. Isso ocorre por meio das ações mediadoras da leitura desenvolvidas em projetos de sala de aula e biblioteca. Essa é uma oportunidade valiosa para promover o contato direto de quem lê com os livros, envolver as turmas em processos de letramento da linguagem literária, tão provocadora de sentidos e de conhecimento para a vida que está além da escola, inclusive. 

A partir do modelo bem-sucedido dos programas de leitura, nasce, neste ano, no âmbito do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o projeto Circuito Literário, que levará autores/as de literatura aos 17 campi que integram sua rede. O projeto tem recursos alocados por meio de emenda parlamentar da deputada federal Fernanda Melchionna, cujo mandato tem lutado bravamente pelas causas do livro e da leitura. Participam, neste ano, a partir da escolha de uma comissão curadora integrada por servidores/as das áreas de Letras e Biblioteconomia, os/as autores/as: Ana Luiza Koehler, Camila Maccari, Carolina Panta, Clara Corleone, Eduardo Krause, Eliane Marques, Fátima Farias, Gustavo Melo Czekster, Irka Barrios, José Falero, Julia Dantas, Lilian Rocha, Luciany Aparecida, Marcelo Martins da Silva, Maya Falks, Poeta Desperta, Rafael Guimaraens, Ronald Augusto, Tiago Maria e Tônio Caetano. 

“Políticas de leitura como essas, que aproximam educação e cultura, propõem um processo contínuo de formação de leitores e irradiam práticas que vão além dos muros das instituições”

Além dos encontros com a comunidade de leitores/as, constituída por estudantes que estão desde o ensino médio integrado ao técnico até os cursos de graduação e por servidores docentes e técnico-administrativos, o Circuito atua também na aquisição de acervo de obras literárias para as bibliotecas do IFRS. Para que a leitura prévia aconteça efetivamente, serão comprados 35 exemplares de duas obras do/a autor/a que visitará o campus. Além dos motivos já expostos, a iniciativa também é importante para incrementar e valorizar o mercado editorial do Rio Grande do Sul, fortemente impactado pelas inundações de maio de 2024.  

Políticas de leitura como essas, que aproximam educação e cultura, propõem um processo contínuo de formação de leitores e irradiam práticas que vão além dos muros das instituições. Isso porque o trabalho desenvolvido a partir da educação literária carrega, em si, um projeto de formação humana, que permanece vivo nos/as leitores/as. A leitura literária possibilita o acesso a formas de uso da linguagem muito específicas, o que amplia as competências na área da linguagem e desenvolve o pensamento crítico. Ademais, a literatura apresenta recortes do mundo através dos quais podemos elaborar a nossa própria existência e alargá-la, ao conhecer trajetórias e modos de viver diferentes daqueles que nossos corpos e mentes habitam. 

Nesse sentido, a defesa do crítico literário brasileiro Antonio Candido da literatura como direito humano e a proposição da bibliotecária colombiana Silvia Castrillón pela democratização da cultura letrada e a participação da sociedade civil nas políticas de leitura se colocam como caminhos para pensar uma sociedade mais leitora e crítica, que se engaje na luta por justiça social e contra as desigualdades. Torço muito para que mais programas de leitura se efetivem e as iniciativas existentes sejam cada vez mais fortalecidas.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o projeto de extensão Contantes. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura. Foto: Acervo pessoal.

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