Em ‘Boas meninas se afogam em silêncio’, de Andressa Tabaczinski, o feminicídio de uma herdeira da alta sociedade curitibana mobiliza a polícia e desmonta a imagem de superioridade moral da capital da Lava Jato
Edição: Vitor Diel
Foto: Divulgação
A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35 anos, estreia na literatura com Boas meninas se afogam em silêncio, thriller investigativo finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento. O livro, publicado anteriormente com o título Crisálida, ganha agora nova edição e amplia o alcance de uma narrativa que articula investigação policial, drama familiar e crítica às estruturas conservadoras e aos privilégios sociais.
Ambientado na alta sociedade curitibana, o romance parte de um feminicídio brutal para tensionar valores conservadores, privilégios e dinâmicas de poder. A história começa após uma tempestade, quando o corpo da jovem Amélia Moura é encontrado com marcas de estrangulamento em uma região afastada de Curitiba, em meio às araucárias. O desaparecimento, antes arquivado por falta de evidências, é reaberto sob pressão da mídia e da opinião pública. A delegada Ana Cervinski e o policial Júlio Bragatti assumem a investigação.
A revelação de que Amélia mantinha encontros secretos com uma mulher, registrada por câmeras de segurança, desmonta a narrativa da “boa menina”, revela fissuras na imagem pública e indica que a vítima guardava segredos. Ao articular feminicídio e repressão à sexualidade feminina, o romance evidencia como estruturas conservadoras podem operar também como dispositivos de silenciamento.
A gênese do romance remonta ao período em que Andressa vivia em Curitiba e trabalhava como médica em uma UPA em São José dos Pinhais. Era o auge da Operação Lava Jato, quando a cidade passou a ser chamada de “República de Curitiba”. “Havia um certo orgulho coletivo em torno de uma suposta superioridade moral”, afirma. Casos reais de violência e impunidade ocorridos na cidade a impactaram profundamente e serviram de ponto de partida para a escrita. Entre idas e vindas, a primeira versão do livro levou dois anos para ser concluída.
A narrativa alterna o passo a passo da dupla de investigadores com a perspectiva da protagonista nos meses que antecedem o crime até o dia do assassinato. Com ritmo atordoante e estrutura que remete às melhores séries de investigação, o romance combina suspense e drama. A abordagem simultaneamente brutal e terna de temas como violência contra a mulher e descoberta da própria sexualidade é um dos elementos que singularizam a obra.
Para Andressa, os temas centrais — autodescoberta, relacionamento LGBT, violência de gênero, tensões sociais, privilégios e relações familiares — nascem do interesse em investigar o conflito entre vida íntima e estruturas sociais. “A jornada de autodescoberta da protagonista esbarra diretamente em valores conservadores, expectativas de gênero e dinâmicas de poder que limitam o que pode ser vivido ou desejado”, afirma. Segundo ela, a tentativa de “bancar o próprio desejo” pode ser percebida como ameaça em determinados contextos, e a violência pode irromper a partir disso.
A autora defende que histórias como a de Amélia precisam existir na ficção para que deixem de se repetir na vida real. “Escrever sobre isso é também uma forma de nomear essas violências e tensionar as estruturas que ainda as tornam possíveis.”
Boas meninas se afogam em silêncio tem 272 páginas e preço de R$ 59,90.
Sobre a autora
Nascida em 1990, em Passo Fundo (RS), criada em Balneário Camboriú (SC) e atualmente residente em Brasília (DF), Andressa Tabaczinski formou-se em Medicina pela Univali e atuou como clínica geral antes de iniciar residência em Psiquiatria, em Porto Alegre. Em 2018, após um episódio de burnout, interrompeu a formação para se dedicar integralmente à literatura. Viveu no Rio de Janeiro, onde se tornou sócia da Editora Oito e Meio e da escola Carreira Literária, ao lado da esposa, Flávia Iriarte. Atua como publisher, curadora e mentora em Escrita Criativa.

Boas meninas se afogam em silêncio
Andressa Tabaczinski
272 p.
R$ 59,90
Editora Rocco
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