Com escrita afiada e envolvente, Gabriela Dal Bosco Sitta coloca em diálogo psicanálise, teoria literária e autoras contemporâneas para pensar a maternidade para além dos mitos
Edição: Vitor Diel
Fotos: Divulgação
Durante séculos, a história da mãe foi contada pelos outros. De Deméter às heroínas de Rousseau, a maternidade acabou empurrada para uma moldura romântica, imaculada e sacrificante. Foi preciso esperar as últimas décadas para que escritoras e narradoras finalmente se apropriassem da linguagem e passassem a falar como sujeitos de suas próprias histórias — em primeira pessoa.
É nesse horizonte que chega Mãe, primeira pessoa, ensaio da escritora Gabriela Dal Bosco Sitta que será lançado às 15h do dia 22 de agosto, na Livraria Paralelo 30 (Rua Vieira de Castro, 48, bairro Farroupilha, Porto Alegre/RS), em bate-papo com o pesquisador Rafael Guimarães. Com uma escrita que une fôlego literário e rigor analítico, o livro investiga a posição paradoxal e ambivalente da maternidade na contemporaneidade.
O ensaio toma como objeto a obra e os livros de memórias das escritoras Jane Lazarre e Rachel Cusk. Ambas, ao se tornarem mães, registraram com honestidade e coragem os conflitos, as dúvidas e as fissuras que atravessam essa experiência. A partir dessa leitura comparada, Sitta articula um repertório de contribuições da teoria literária e da psicanálise e, como diz Julia Dantas, autora de A mulher de dois esqueletos (Dublinense, 2024), “assenta mais um tijolo no túmulo da boa mãe, um mito que há muito já deveria ter desaparecido.”
Longe de se fechar em conclusões definitivas ou dogmáticas, o texto opera com a despretensão e a inteligência dos grandes ensaios. A autora coloca as ideias para circular, investigando as dobras do cotidiano e convidando o leitor a pensar junto. É nessa caminhada reflexiva que surge uma das imagens mais marcantes da obra: a das matrioscas, as tradicionais bonecas russas. A linha da maternidade se revela como um encaixe contínuo, no qual os recursos e as narrativas de uma mãe são herdados e transmitidos de geração em geração através dos gestos e da linguagem.
É essa transmissão contínua que revela a principal força de Mãe, primeira pessoa: este não é um livro feito unicamente por mães, para mães ou sobre mães. Trata-se de um ensaio essencialmente voltado para os filhos. Afinal, todos nós somos filhos e, ao longo dessas páginas, percebemos que nossas mães também o foram. Ao deslocar a figura materna do ideal inacessível e devolvê-la à condição de pessoa real, o livro convida a todos — mães e filhos — a desatarem os nós dos mitos e a encontrarem, na literatura e na palavra dita em primeira pessoa, uma forma mais justa e humana de olhar para as nossas origens.
Sobre a autora
Gabriela Dal Bosco Sitta nasceu em Tapejara (RS), em 1991. Atualmente mora em Porto Alegre. É jornalista e mestra em Letras.

Mãe, primeira pessoa
Gabriela Dal Bosco Sitta
128 p.
R$ 65
Editora Trote
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