Manuel Bauer Estivalet: Qual a potência de uma escritora na escola? – Um olhar psicopedagógico sobre autoria

“Quando alguém assume o movimento para se expor através das palavras, a escrita não é uma mera transcrição de pensamentos, mas uma releitura do universo interior”

Edição: Vitor Diel
Foto: Divulgação

De março a agosto deste ano, a escritora gaúcha Ângela Hofmann executou o Projeto Artista na Escola, no âmbito da literatura e escrita criativa, desenvolvido com cem alunos das turmas de 5º Ano da EMEF Profa. Nancy Ferreira Pansera, situada em território periférico da cidade de Canoas, RS. O Curso de Escrita Criativa intitulado Estar uma árvore, ser palavra – Escrevendo o território Guajuviras promoveu mediações de leitura, sensibilização a gêneros literários, criação de textos e, por fim, a confecção de livros em formato cartonera produzidos pelos próprios participantes. Esse trabalho gerou resultados que podem ser conferidos no Diário de Campo publicado no seu perfil nas redes sociais Substack e Instagram. Estudantes fizeram uma imersão no universo da prosa e poesia, tendo como referência principal a história e cultura afro-brasileira e indígena. Leram, ouviram, imaginaram, escreveram e publicaram.

Como educador, tive a oportunidade de acompanhar o planejamento e inclusive colaborar com uma das etapas desse projeto. E, sob um olhar psicopedagógico à luz da especialista na área, a psicopedagoga argentina Alicia Fernández, pude perceber o desenvolvimento de autoria em dois sentidos: de um lado, no contexto da literatura vi sujeitos se formando como autores; de outro, testemunhei uma autoria formando sujeitos. Em sua obra Os Idiomas do Aprendente (2001), Fernández aborda o quão esse desenvolvimento se faz essencial para a constituição de um sujeito e de sua condição de aprendente-ensinante. Gostaria de compartilhar esse ponto de vista analisando a potência de uma escritora na escola, qual seja, a de fomentar leitoras e leitores, enquanto autoras e autores.

Vejamos mais de perto alguns aspectos do Curso de Escrita Criativa. Convém ter em vista o contexto: tratava-se de uma escola municipal, no Bairro Guajuviras (situado em uma zona periférica de um centro urbano), região do RS Seguro; pouco acesso a bibliotecas (e outros acervos literários); diferentes níveis de habilidades de leitura e de escrita.

Fotos: Divulgação

Dentre as primeiras atividades, houve uma reflexão sobre as palavras e os efeitos da linguagem no cotidiano. Termos comuns ganharam novas forças em seus significados. Isso ficou evidente em um caso no qual uma aluna escreveu:

“Não: é uma palavra que as pessoas ficam tristes na hora. Sim: é uma palavra que quando pede você em namoro, você fala “Sim!”.”

Também foram provocadas algumas indagações. Em jogos de perguntas e respostas, os participantes colocaram questões naquilo que parecia óbvio, interrogaram sobre o que ninguém duvidava, ou simplesmente testaram para ver se outros conheciam o que aparentemente todo mundo sabia. Por exemplo, um aluno grafou: Quem inventou o guarda-chuva? Outro reagiu: Foi a chuva. Sim, a chuva que inventou o guarda-chuva. O desejo de não se molhar que fez o ser humano imaginar uma proteção. Do mesmo modo, era o desejo de ter algo para contar que estava fazendo-os escrever.
De frases e textos curtos, as atividades evoluíram para a criação literária em diferentes gêneros, estimulados por certos temas: “cartas sobre saudade”, “minha história com o Guajuviras” e “decidi te contar (histórias de afetos)”.

Posteriormente, as produções escritas a mão foram digitadas e reapresentadas aos estudantes. Partiram da folha do caderno e retornaram digitadas pela artista. Foi como dizer: “Li seu texto com atenção e o considero importante”. Cada um pôde reler o que havia feito e confirmar se queria, ou não, expor em uma publicação. Feita a seleção, editou-se uma coletânea para cada turma, e imprimiu-se as folhas de um exemplar para cada participante. Após, encadernaram seus exemplares com técnica cartonera. No dia de costura dos miolos às capas de cada livro, foi inevitável que cada um buscasse seus textos nas páginas, que lessem a composição de outros colegas, ou ainda que comentassem o que haviam escrito ou estavam lendo.

No último encontro realizou-se um sarau para compartilhar leituras, celebrar as realizações e formalizar as conquistas. Um grupo de podcast da escola, ao entrevistar um dos alunos, destacou a seguinte fala:

“[O que eu mais gostei no curso foi] compartilhar as histórias com meus colegas. [A maior dificuldade foi] a vergonha e o medo de ser julgado. [O momento mais marcante foi] quando eu li a minha primeira história.” ¹

A declaração do entrevistado destaca uma troca: o compartillhamento de histórias. Contudo, ele teme oferecer a sua criação devido a possibilidade de um julgamento. Considera-se, portanto, uma conquista ter colocado em movimento a “minha história”. Tal ocasião foi passo de aprendizagem. Não houve apenas um conteúdo novo para ele, houve uma modificação na relação consigo e com os outros. Isso foi possível graças a um posicionamento. Desse modo, tornou-se aprendente na medida em que se assumiu como ensinante de si mesmo. Na literatura, ocorre algo análogo. Ler não se reduz a decodificar frases e reter informações. Ler é reescrever internamente. O texto se inscreve pela interpretação do próprio sujeito. Assim, cria-se uma narrativa, uma ideia, uma questão, etc. Seja de maneira notável, seja de maneira discreta, esse contato com a linguagem redesenha visões de si e do mundo. E, quando alguém assume o movimento para se expor através das palavras, a escrita não é uma mera transcrição de pensamentos, mas uma releitura do universo interior.

Desse modo, um ensinante-aprendente e leitor-autor faz-se como sujeito: autobiografando-se e historiando. Eis o tipo de autoria do qual nos fala Alicia Fernández: “Aprender supõe um sujeito que se historia. Historiar-se é quase sinônimo de aprender, pois, sem esse sujeito ativo e autor que significa o mundo, significando-se nele, a aprendizagem irá converter-se na memória das máquinas, ou seja, em uma tentativa de cópia.” ²

O projeto proporcionou a elaboração de textos e o processo de historicização. Cada um na sua singularidade narrou suas memórias, seus sonhos, suas fantasias. Fez diferença aquela aluna escrever as consequências de um “Não” e de um “Sim” em sua vida. Houve um valor em escrever cartas de saudade, memórias do bairro e histórias de afetos. O desejo de contar criou os textos, assim como a chuva inventou o guarda-chuva. E isso é diferente da triste memória das máquinas e de uma banal reprodução automática. Enfim, a potência de uma escritora na escola é a de proporcionar algo bem diferente da mera cópia de conteúdos do quadro, do CTRL+V ou da falsa originalidade de uma Inteligência Artificial.

Sobre o projeto
Projeto contemplado no EDITAL SEDAC N° 17/2025 ARTISTA NA ESCOLA
Curso de Escrita Criativa Estar uma árvore, ser palavra – Escrevendo o território Guajuviras, com a escritora Ângela Hofmann.
Com alunos dos quintos anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Nancy Pansera, bairro Guajuviras, em Canoas-RS.
Financiamento: RS SEGURO COMUNIDADE / SECRETARIA DA CULTURA / GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

Manuel Bauer Estivalet é psicopedagogo e professor. Mestre em Filosofia e especialista em Orientação Educacional e Supervisão Escolar. Atua há mais de vinte anos na Educação Básica, tanto em sala de aula, quanto em posições na equipe diretiva. Mora em Esteio/RS.


¹ FALA NANCY, Podcast. 6° Episódio 2026 – Cobertura Jornalística do Curso Escrita Criativa. Canoas, 3 set. 2026. YouTube, 1 vídeo (9 min 58 s). Trecho em: 5 min 44 s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_hoKb_bthZI . Acesso em: 19 set. 2026.

² FERNÁNDEZ, Alicia. Os Idiomas do Aprendente: análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação. Trad. Neusa Kern Hickel e Regina Orgler Sordi. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001. p. 68.

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