Ana Paula Cecato: Convite à imaginação

Pelo menos uma vez por semana recebo uma mensagem ou leio um pedido nas redes sociais ou ouço o comentário de alguém se está “desesperado” porque uma criança ou jovem não lê. Um pouco antes de iniciar a escrita deste texto, recebi uma mensagem no WhatsApp de uma professora que gostaria de uma recomendação de leitura de um autor para a faixa dos oitavos e nonos anos. Por mais que estejamos discutindo a formação de leitores, ainda existem muitas dúvidas e temores por parte de pais, familiares, educadores, bibliotecários e outros mediadores de leitura a respeito do tema.

Não há resposta tão certa quanto óbvia para iniciarmos nossa conversa: para formar leitores, é preciso ser um leitor. Não há discurso mais infalível do que a prática. Bem, mas é só isso? Não, e é a partir daqui que saímos do terreno da obviedade.

São três os eixos formadores da leitura literária: o leitor, o acervo e a mediação. Começamos por nos perguntarmos quem é o leitor cuja prática leitora desejamos formar e/ou qualificar: quais são seus interesses, como ele se relaciona com a linguagem, quais bens e produções culturais ele consome, como é a comunidade em que vive… Nesse processo, é necessário que se faça uma escuta atenta do que a criança/jovem tem a dizer sobre seu mundo, quais são suas histórias favoritas, suas vontades, sonhos, medos, incertezas. Trata-se de uma atividade em que o mediador não se coloca como interventor, mas unicamente como leitor curioso de uma história que a criança/jovem tem a lhe contar.  

Ao acolher e dar voz aos leitores, o mediador tem um rico e diverso referencial para fazer suas escolhas literárias, o que vem a ser o segundo ponto de nossa conversa: o acervo. Revirar as estantes de bibliotecas, livrarias, sebos, conhecer listas de publicações, conversar com outros mediadores, participar de formações – muitos são os caminhos que podem conduzir o mediador para que selecione boas obras.  Todos eles requerem o óbvio: a leitura prévia. Contudo, também requerem a análise de um leitor crítico, que consiga identificar, pelo menos, na literatura para a infância, qualidade da tríade que constitui a natureza híbrida do gênero: texto, ilustração e projeto gráfico. (Vamos prosear mais sobre isso em outro dia…)

A mediação é o eixo que entrelaça o livro, o leitor e o mediador (também um leitor!). Trata-se de uma ação que mobiliza os leitores a fim de que a literatura seja deleite, prazer, encontro, conhecimento de vida. Para tal, não pode ter ares de autoridade e controle, mas de acolhida e de desafio. É compartilhar a imaginação, condição tão necessária para que se entenda o que se vive e se possa sonhar com os olhos do possível.



Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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