Atena Beauvoir: O pior fracasso

Sim, o pior fracasso é escrever para si mesmo. E não, não fui eu quem desenvolveu tal pensamento. Foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de outubro de 1964, que não, não aceitou o prêmio. O único que de livre vontade na história humana não quis vincular sua obra ao movimento de literatura internacional (fora outro escritor que somente negou o prêmio por pressão fascista do seu país).

J. P. Sartre, como pensador da subjetividade, analisou em sua obra Que é a literatura, o que é escrever, por que se escreve e para quem escrever.  E em determinado momento, sua posição é explícita: “se o escritor existisse sozinho, poderia escrever quanto quisesse, e a obra enquanto objeto jamais viria à luz: só lhe restaria abandonar a pena ou cair no desespero”. O autor discute a relação dialética entre escrever versus ler e escritor versus leitor, mostrando uma espécie de simbiose existencial entre o que seja um livro que é escrito por alguém e uma literatura que é produzida na leitura por um outro alguém (que não pode ser o próprio autor).

Por quê?!

Um dos argumentos sartreanos é o da expectativa, fenômeno vinculado ao conceito filosófico de futuro, que empenha quem lê a sempre aguardar o que virá nas próximas páginas. Fenômeno este que, enquanto arte, não possui o mesmo efeito em quem está produzindo a escrita da obra.

O projeto de um livro é pensado pela escritora/escritor, logo, sabe o que existe em cada parte desenvolvida, sem se surpreender, pois que foi de si que nasceu o texto por inteiro. Por isso mesmo, não sofre o mesmo impacto do fenômeno de literatura, como quem lê a obra pela primeira vez. A escritora ou o escritor nunca leu sua obra pela primeira vez como uma leitora ou leitor. Eis o paradoxo da escrita literária: produzimos mel sem saber seu sabor.

Sartre, novamente, vai frisar: “o objeto por ele [escritor] criado está fora de seu alcance, ele não o cria para si. Quando se relê, já é tarde demais”.

Acima das críticas fugazes que faço: sobre o elitismo escriturário dos nossos dias, sempre acostumei a compreender qual minha relação com a escrita, e livre é quem quiser construir a própria identidade literária que não se assemelhe com a minha. Entretanto, é o próprio Sartre quem situa que “o autor escreve para a liberdade do leitor”. Refletindo isso desde agosto de 2017, principalmente enquanto uma escritora trans, que reposicionei minha existência de male to female – haurindo o que há de movimento existencial mais livre nesse planeta, a transição de gênero: a escolha de um novo nome para o resto da vida, uma reconstituição da minha história/nova história, uma reconfiguração da biologia do meu corpo, percebi que um escritor para escrever, não deve escrever a partir da vida, mas deve saber ler a própria vida.

O resultado será a diferença entre o quão realmente ele está numa posição de liberdade existencial ou o quanto ele ainda vai querer se isolar em quarto escuro, lúgubre e distante da sociedade para produzir o que dirá ‘obras primas da literatura’.

Mas defendo sempre a livre escolha de quem se tinge dessa mongetude existencial e dessa personificação literária de intelectual. Cá um, cá um, recordo um encontro com um editor carioca que após sermos apresentados, ele retorna ao fim da visita, dizendo: “Mas Atena, tu não me falou que és escritora!”. E numa resposta singela: “Por certo, eu sou escritora e não faladora!”. Mas na inocência, acabei agarrando com as palavras as verdades que muitas vezes pairam pelos ares: dessa falatória, dessa posição, dessa geografia existencial literária, que em verdade vai de uma distopia a uma utopia da vida em si, uma autossuficiência simplesmente porque se escreve, seja romance, conto, poesia, crônica, enfim, um texto, hão os que se personificam de uma névoa teatral literária. “Je suis écrivain!”!

O que tudo isso me diz e o que digo a tudo isso? É que ser uma escritora, mas antes uma pessoa trans, me permite na filosofia vislumbrar que eu sou a personagem máxima da minha obra. Não estou pronta, me faço, diferente das pessoas cisgêneras (quem não é trans, é cis) que recebem em uma alegoria de palavras, uma casa com estrutura pronta e somente mudam móveis ou pequenas reformas e sentem-se revolucionárias, mas nós, pessoas trans, destruímos a estrutura por inteiro, para reconstruí-la. E isso nos posiciona a repensar totalmente a função da literatura na produção da existência humana, enquanto arte, cultura e vida. Isso quando nós mesmas, antes de escrever, já mudamos as personagens da nossa obra máxima.

O pior fracasso é pensar, sentir e acreditar que a ficção que se escreve é menos real que a própria vida que se vive, sem ao menos jamais termos realmente escrito a própria vida. Pelo menos as pessoas cisgêneras, que em parte são quase todas as escritoras e escritores mundiais, não sabem que já carregam um livro na própria existência, que talvez jamais consigam escrever sobre, sem ao menos ler que são personagens e nada mais.

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

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