Da honestidade: entrevista com Luisa Geisler

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio
Fotos: Desirée Ferreira

“Poder dedicar-se exclusivamente à escrita e à carreira literária soa mais glamuroso do que é”. É com tamanha intrepidez que Luisa Geisler fala sobre seu trabalho. Nascida em Canoas, em 1991, Luisa é escritora, tradutora e mestre em Processo Criativo pela National University of Ireland. Autora de Contos de Mentira (Record, 2011), Quiçá (Record, 2012), Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfaguara, 2014) e De espaços abandonados (Alfaguara, 2018), livros com os quais foi duas vezes finalista do Jabuti e duas vezes vencedora do Prêmio SESC de Literatura. Foi traduzida em mais de dez países, participou de iniciativas artístico-literárias com a Serpentine Gallery de Londres, o OMI Arts Center de Nova York, Hans Ulrich Obrist e o MALBA de Buenos Aires. Nesta entrevista exclusiva, realizada por email, a escritora fala sobre sua formação, o ofício da escrita e demonstra uma clara honestidade intelectual ao falar sobre sua carreira.

Boa leitura!

Você é egressa da oficina de escrita criativa de Luiz Antonio de Assis Brasil, como muito autores do Rio Grande do Sul. Você consegue mensurar a profundidade dessa experiência na sua formação como escritora e leitora?

Consigo e não consigo. Foi importante num momento ainda mais importante: de eu me entender como escritora e leitora. Ela me formou mais até como leitora, me ajudando a ver/racionalizar o que gostava e desgostava em literatura. Talvez se eu fizesse a oficina hoje, já discordasse de aspectos que uma vez concordei. Mas me ensinou a “raciocinar literariamente” (se isso existe). A oficina me ajudou a entender que ninguém é obrigado a ler o livro de ninguém. Por outro lado, no De espaços abandonados, o formato do livro é um manual de escrita, uma ficção dentro de uma não-ficção pensando a escrita. Gostei de usar essa ideia de “é assim que um livro deve ser escrito” para desconstruir como o livro foi feito. Então foi importante e não consigo me ver escritora sem ela. Por outro lado, não sei até onde o que penso hoje veio da oficina. A memória é curta, acabo reinterpretando muito pra justificar como faço as coisas agora.

Desde que você conquistou o Prêmio Sesc de Literatura com o livro Contos de mentira, há quase dez anos, você tem sido publicada por algumas das principais editoras brasileiras, tem viajado pelo país e concedido entrevistas à imprensa. Como você avalia tamanha receptividade do mercado editorial ao seu trabalho?

Acho que quando comecei, a receptividade era mais curiosidade. “A jovem de vinte anos que ganhou um concorrido prêmio de originais” era mais uma coisa tipo “macaco toca Locatelli no violino”. Não era tanto um interesse literário de fato, no meu trabalho. A coisa do “jovem” até funcionou pouco pra mim em termos literários. Funcionou midiaticamente. Há, e havia, preconceito com alguém jovem fazendo um trabalho que se propunha ficção literária. O escritor padrão é um homem branco heterossexual, idealmente morto e, se vivo, ao menos velho. O que acabou acontecendo foi que meus livros receberam boas leituras apesar de mim, foram finalistas de prêmios nacionais, foram traduzidos internacionalmente. Continuei escrevendo, fiz piada com a ideia do jovem, me envolvi em temas sérios, falei, falei, falei, até chegar ao ponto em que as pessoas tiveram que ir além da coisa da millennial que escreve. Aí acho que esses dois aspectos se juntaram de forma positiva. Ainda acho que sofro certo preconceito, mas sei que tenho muitos privilégios por outros ângulos. Por outro lado, como te disse, sei que sou jovem. Sigo jovem, sigo errando e tentando achar essa medida. É uma medida estranha. Só vou conseguir avaliar plenamente daqui a sessenta anos, quando for uma escritora de “meia idade”.

“Há, e havia, preconceito com alguém jovem fazendo um trabalho que se propunha ficção literária”, reflete Luisa.

Como foi a sua formação enquanto leitora, na infância e na adolescência?

Meus pais me deixavam ler o que queria. Eles meio que não se importavam. Li livros pesados muito cedo, lado a lado com Diário de Princesa. Li O Perfume, de Patrick Süskind, com uns onze anos. Fui de Stephen King a Edgar Allan Poe, a Caio Fernando Abreu, a Lovecraft, a Harry Potter, a Gabriel García Márquez, a um best-seller que vi numa livraria e gostei da capa. Acho que isso foi importante. Essa falta de barreira com a literatura, o fazer literário não ser uma coisa proibida. Mais do que essas leituras, que hoje nem sei se gosto tanto, o importante foi uma relação com os livros que não envolvia autoridade, hierarquia, a ideia da torre de marfim. Era um diálogo.

Como é poder dedicar-se exclusivamente à escrita e a carreira literária? O que você diria para quem almeja o mesmo?

Poder me dedicar exclusivamente à carreira literária nunca foi meu plano original. Eu tinha infinitos planos A, B e C. Nunca levei a sério essa possibilidade e até hoje não levo. Poder dedicar-se exclusivamente à escrita e à carreira literária soa mais glamuroso do que é. Ah, posso traduzir livros, sim, um prazer imenso. Mas às vezes traduzo livros que não gosto tanto, e sou forçada a ir até o final achando boas soluções pra problemas que não me agradam. Ah, posso receber (pouco) dinheiro para escrever. Mas às vezes não posso abandonar uma ideia, porque tenho um prazo. O processo perde a espontaneidade. Para quem almeja o mesmo eu diria: planeje para isso não dar certo. Porque eu não sei se isso vai dar certo nem pra mim.

Qual é o papel da literatura num país sob o governo Bolsonaro?

Irritar.

De espaços abandonados
Luisa Geisler
416 pp.
15 cm X 23,4 cm
978-8556-5206-85
R$ 59,90
Alfaguara

Literatura RS

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