Inédito: “Meu rebanho”, de Flávio Ilha

Infância, morte e lembrança constituem a narrativa neste conto inédito de Flávio Ilha — que integra o livro Ralé, a ser lançado em maio pela Diadorim Editora.

Confira abaixo, com exclusividade pelo Literatura RS.

1

As duas – mãe e filha – estavam sentadas na muretinha que rasga o morro em duas partes: o planalto de um lado e, logo atrás, um precipício de cinco metros entre a pista sinuosa que leva ao portão e o gramado crivado de lápides, onde é possível, num domingo de folga, expor-se aos raios do sol.

O cemitério é plano e bem cuidadinho. Fica no alto da colina que dá vista para o vale, onde a cidade, lá longe, bufa sobre mim. Um borrão verde habitado por defuntos.

A mãe estava sentada no guarda-corpo de pedra, um pouco mais atrás da criança, os pés pendurados, sem tocar o chão. Olhava o céu com os olhinhos espremidos pela claridade. Era miudinha, os cabelos bem pretos arrumados em trança. Tinha um livreto de capa vermelha sobre o colo, em cima de um agasalho cor-de-rosa.

A filha se concentrava num pacote de bolachas recheadas, que comia sem disposição. Parecia em transe. Peguei um galhinho de jacarandá, quebrei com certo estardalhaço e ofereci um toco à menina, que me olhou sem me olhar. As bolachas haviam terminado e ela deixou o pacote vazio cair da mureta. O vento carregou-o pelo desnível.

Foi então que a mulher notou minha presença. Olhou-me sem me olhar, tal qual a menina, e disse-me, com um sorriso frouxo: cuida dela pra mim? Depois deixou o corpo escorregar penhasco abaixo até cair em cima de um ônibus que arfava pela subida, carregado de gente. Bateu no teto, despencou para a pista e foi apanhada por uma viatura da funerária que descia em sentido contrário. A cabeça pequenina ficou entalada entre a roda e o asfalto. Não fosse por um filete de sangue que lhe escorria do olho esquerdo, diria que se tratava de uma morta impecável.   

Mãe?, disse a menina com uma voz sumida. E se postou imediatamente a meu lado, tentando entender o que estava acontecendo, as pessoas correndo entre nós, o motorista da funerária no seu ai meu deus, o que foi que eu fiz, o guarda do cemitério que desceu a ladeira correndo e tropeçou nas próprias pernas e escalavrou a cara no chão, as mães escondendo a cena das crianças, a algazarra dos meninos gargalhando olhalá, olhalá, a velha se atirou, cabeças para fora das janelas,  buzinas, alarido, portas se abrindo, corre-corre, tá morta, tá morta, não adianta mais, que tragédia, meu deus do céu, credo, que tragédia.

A menina entoou de novo um mãe? debilitado e agarrou-se à mão mais próxima que encontrou. Para meu pavor, a mão era a minha.

2

A mão direita, a única que me sobrou depois do acidente, tinha cicatrizes espalhadas pelo dorso. Desde então não nasceram mais pelos; as veias, de um verde acinzentado, pareciam de uma pessoa morta.

Do outro lado restou o braço atorado até o cotovelo, o acabamento preciso, a superfície arredondada e lisa como que esculpida por uma artista, a sensibilidade dela arrematando a amputação feito uma ourives – embora não haja, que eu saiba, mulheres ourives.

Quem serrou meu braço na verdade foi um homem, foi ele que entrou no quarto do hospital e me disse tivemos de seccionar o braço na altura do cúbito, o rádio e a ulma foram esmagados pela roda, não havia alternativa, meu querido. Disse assim, como se falasse do jardim da casa dele. Foi preciso retirar as roseiras, minha querida, elas não se adaptaram bem ao solo.

Nunca gostei de quem usa esse adjetivo a rodo. Nem da minha ex-mulher, que Deus a tenha. Sempre me soou falso, levemente cínico. Como se o interlocutor, nesse caso um doutor bem nascido, de boa família, tivesse algum remorso por sua superioridade. Rádio, ulma? Esse pobre coitado não deve ter ideia do que estou falando.

Mas eu tinha. E quando tentei enlaçar o antebraço com a mão direita depois do aviso fiz um gesto de horror com o vazio, mas me acalmei ao sentir a superfície extrema do que eu era agora, a pele lisa e arredondada, a carne rechonchuda encobrindo o osso. Passei a me prender àquele gesto, desde então: esfregar a ponta do cotoco como se alisasse a calva de um sujeito à minha frente.

Para a menina que se agarrou à minha mão, esses detalhes eram irrelevantes. Procurava pela mãe e, como não podia vê-la, seguiu perguntando com a voz atordoada pela algazarra. Só então notei que era cega: quando me apertou a mão como se tivesse dentes ao invés de dedos.

Logo um segurança começou a esvaziar o cemitério, por favor, vamos fechar, houve um acidente, e empurrou minhas costas e disse para levar minha filha dali. Não é minha filha, protestei, mas ele não ouviu e passou a se ocupar de outras famílias que tinham ido visitar seus pais e mães e irmãos enterrados ali, todos dispostos simetricamente sob a grama, como se preenchessem uma grade de palavras cruzadas, então cruzei o portão com a garota pela mão e consegui ver, de relance, por cima da mureta, o corpo da mãe estendido no asfalto e rodeado de curiosos, a trança que eu notara um pouco antes pendente para o lado direito do corpo, em desalinho, o livreto de capa vermelha jogado no meio fio, as páginas abertas, o casaco cor-de-rosa sob o corpo que agora começava a ser removido, a ambulância com as portas abertas, o sinal luminoso, intermitente e nervoso, que piscava como eu piscava preso àquela mãozinha potente. A menina me olhou com seus olhos leitosos e pressentiu, tenho certeza que pressentiu, que estava diante de um aleijado.

Tratei de esconder o braço pela metade, mesmo que fosse um gesto desnecessário. Tinha uma técnica para isso: deixava-o um pouco para trás, como se estivesse encoberto sob o corpo, até que não pudesse mais ocultá-lo e então começasse a ladainha de contar novamente a história que eu contava pelo menos uma vez ao dia. Perdi o controle do trator, quando capotou fui jogado para fora da cabine e tive o braço esmagado pela roda dianteira, o rádio e a ulma foram destroçados até não haver chance de reconstrução, a saída foi amputar, não, não dói, nem coça, nem quando vai chover, também não parece que ainda tenho o antebraço e a mão intactos, não, pra mim isso nunca aconteceu, o que é uma pena pois gostaria de poder girar o punho novamente, apenas uma vez mais girar o punho, o suficiente para virar o trator para o outro lado e fazê-lo despencar pelo penhasco ao invés de jogá-lo no barranco, como naquela tarde chuvosa de inverno, pois assim evitaria de ser um aleijado. Evitaria ter de contar essa história cem vezes.

Onde está minha mãe?, perguntou novamente a garotinha depois de me observar com os sentidos que lhe restavam.

E, enquanto fazia pressão sobre a minha mão, notei que também procurava ler, à sua maneira, onde estava de fato segura: a mão era certamente maior que a de sua mãe, o que indicava estar agarrada a um homem; a ausência de pelos no dorso, devido ao acidente, podia confundi-la um pouco, talvez fosse uma mulher brutal como uma camponesa. Mas logo examinou as unhas, com seus dedinhos gordos, percebeu as cicatrizes, os ossos proeminentes, as juntas grosseiras e a pele rugosa, e concluiu que se tratava mesmo de um homem. Um homem indiferente, pois não havia comunicação alguma entre uma mão e outra. Era como se ela estivesse presa a um galho de árvore. Apertou-me com mais força quando percebeu que eu tentava, em vão, me desvencilhar daquele pequeno ser defeituoso.

Quando passamos pela balbúrdia da sirene, colina abaixo, me perguntou o que estava acontecendo. Houve um acidente, contei: uma mulher caiu da mureta e acabou sendo atingida por um carro. Agora estão levando-a para um hospital.

Está morta? Disse-lhe que não, com a voz trêmula o bastante para ser desmascarado.

Se não está morta, por que as pessoas gritam tanto?

Um acidente sempre causa um certo espanto, ponderei.

Mesmo quando não há pessoas mortas?

Mesmo assim.

Mamãe sempre me disse que um dia iria se acidentar aqui. Foi ela, não foi? Quando a menina lembrou esse detalhe, a mulher estava sendo colocada na ambulância com o corpo coberto por uma manta escura.

Não sei. Mas talvez tenha sido. Vamos ver isso.

Não havia mais como me livrar dela. Pelo menos não imediatamente.

3

Quando pedi ao médico para enterrar meu antebraço e minha mão, ele disse, incrédulo, que era impossível. Percebi um asco contido em seu olhar. Contestei sua certeza com calma. Posso parecer, mas não sou bronco, doutor. Não é impossível, vi na televisão que pode. E já pedi à funerária.

Mas o membro está destruído, eu recomendo que seja incinerado. Aliás, encaminhei o pedido no relatório de amputação, me disse, já com uma certa irritação.

Insisti até que, contrariado, o homem autorizou a coleta.

É que não tenho parentes enterrados, doutor, não sei onde estão meu pai, minha mãe, não sei se tive irmãos, nem tios. Nunca soube. Meu antebraço será o único ente querido sepultado.

Ficou me olhando com espanto, a boca entreaberta, até ser chamado pelo sistema de som do hospital. Ainda não tinha tirado as ataduras quando procedi ao enterro. Comprei um caixão branco, de tamanho infantil, dadas as proporções do antebraço. Depositei meu pedaço amputado na Ala Cinco, Alameda L, Cova 1.243. Desde então, visito meu parente morto duas vezes por ano: no aniversário do acidente, em julho; e no dia dos mortos, em novembro.

4

A menina depositou um raminho de flores no caixão da mãe. Brancas, um pouco murchas porque fazia muito calor. Pedi que se mantivesse quieta. Apresentei-me como irmão da mulher e disse que a garotinha cega era sua sobrinha. Não houve quem reclamasse o corpo, passados três dias do suicídio. Nesse meio tempo, fui até a casa das duas (foi bem fácil descobrir onde viviam) e recolhi documentos. Me apresentei como policial aos vizinhos, logo todos baixaram a cabeça com medo do que lhes podia causar um homem que perdera parte do braço, provavelmente em uma ação violenta contra bandidos ferozes. Relataram a rotina da mulher, a filha cega, o marido que fugira com uma colega de trabalho, a dificuldade para encontrar uma escola, o vaivém entre ocupações e despejos, o culto na Quadrangular, o pastor que a cercava com galanteios e queria se livrar da filhinha indigesta.

Para onde elas foram?

A Neide roubou alguém? Eu sabia, eu sabia, saiu gritando uma mulher com bobes na cabeça, vocês viviam dizendo que era uma coitadinha, é uma falsa, isso sim, uma falsa, dizia aos berros, uma falsa, a Neide, isso sim, os meninos da rua nos cercaram, olhavam tudo em silêncio, forcei uma janela e entrei na casinha escura, duas peças, a cama desarrumada, um retrato de Jesus na sala, uma TV de tubo, panelas areadas, a gurizada curiosa espiando pela fresta da porta, abri uma gaveta, o cartão do SUS mostrava os nomes, Neide Carvalho dos Santos, 28 anos, Andrielly dos Santos, seis anos completados exatamente há um mês.

A mãe tinha também um registro no postinho, um prontuário de consultas, caixas de paroxetina, a foto de uma mulher mais velha sobre a cômoda, que julguei ser uma avó, ou uma tia, sei lá, morta.

Não sei onde estão, recebemos um pedido de busca e estamos investigando.

Onde que está o carro da Polícia, o senhor não tem carro?

Trabalha sozinho?

Nunca vi um polícia sozinho.

Disse que estava em uma diligência informal, era apenas o início de uma possível investigação por desaparecimento. Já tinha lido na internet que a Polícia nem sempre cumpre os rituais com gente pobre.

Mostra o distintivo, ouvi um grito. Mostra, mostra, os meninos me olharam com expectativa, quem sabe imaginando que veriam uma arma, ou ouviriam tiros disparados para o alto, eu disse que estava de saída, peguei documentos, o que pude, agradeci, entrei no táxi que me esperava e fui embora. Ficaram me olhando e voltaram a seus afazeres, nunca mais ouviriam falar de Neide e Andrielly.

Não foi difícil retirar o corpo do IML. Os documentos que apresentei eram dela mesma, o hospital queria se livrar o quanto antes daquele encosto, suicidas incomodam, são como uma dor de dente, profunda e constante, que nos acompanha até que se arranque o molar podre. Meio-irmãos também nem sempre têm os mesmos nomes, eu ponderei, mães diferentes, houve algum muxoxo por parte da administração, alguém tentou uma inspeção mais rigorosa na documentação, mas venceu a ideia de que, fosse quem fosse que estivesse procedendo à burocracia, era melhor do que deixar aquele corpo devoluto em uma gaveta de necrotério. Afinal, a morte já estava consumada.

Depois que a enterramos, perto do túmulo de meu pedaço morto, Andrielly voltou a me dar a mão. Muitas vezes, é um hábito de quem não enxerga.

Por que minha mãe quis ir embora?

Não sei. Ela deve ter tido suas razões.

Não falou nada pra ti?

Eu não a conhecia, já te falei mil vezes. Foi apenas uma frase, eu lembrei a ela.

Qual frase?

Andrielly já a tinha ouvido mil vezes, eu estava cansando de dizê-la. A menina, desde que a mãe se matara, não mostrava dificuldade alguma em se adaptar ao meu apartamento, um pouco mais confortável que o barraco onde moravam. Eu conseguia viver da aposentadoria, um salário e meio, mas às vezes ainda precisava sair para vender bilhetes da Megasena pelo Centro; não tinha parentes, não tinha agregados, nem caprichos ou necessidades luxuosas, não viajava de avião. Mas o dinheiro não seria curto com uma menina vaidosa ao meu lado, que precisaria estar sempre bem penteada para frequentar a escola de cegos? Não sei. É possível que sim. É bem possível que falte.

Mas desde que Andrielly apertou a minha mão com seus dentes certeiros, naquela tarde de novembro no cemitério, onde vamos todas as semanas, desde então, que um nó se formou na minha garganta e não há jeito de se desfazer.

Um nó que me impede de pensar. Um nó que me causa ansiedade. E que me faz levantar todas as manhãs, alisar o meu toco de braço, como num ritual, sair da cama e comprar o pão e o leite para preparar o café da menina cega que, paulatinamente, se ambienta ao quarto e sala de trinta metros quadrados, fundos, sem sol e úmido, no térreo, a sala agora transformada no dormitório do homem que ganhou um rebanho.

Ela me pediu para cuidar de ti, disse-lhe pela milésima vez.

E pela milésima vez Andrielly sorriu pra mim. 

Flávio Ilha é jornalista, editor e escritor. Estreou na literatura com Longe daqui, aqui mesmo (Diadorim Editora, 2018).

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