Guto Leite: Universidade, sociedade

Em “Capítulo 4, versículo 3”, da obra-prima Sobrevivendo no Inferno (1997), do Racionais MCs, uma série de dados são ditos ao ouvinte antes do começo da batida: “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo.” Dessas estatísticas, a única que se modificou foi o percentual de alunos negros nas universidades brasileiras, 34%, segundo dados do IBGE de 2017. Nas universidades federais, esse percentual aumenta para 51,2%, conforme pesquisa recente realizada pelo ANDIFES. O que esses números nos dizem sobre a sociedade brasileira dos últimos vinte anos*?

Primeiro, que as práticas de extermínio da população negra de periferia no Brasil seguem inaceitavelmente no mesmo patamar – negros representam 71% das vítimas de homicídio no país; um jovem negro morre a cada 23 minutos. Se o Racionais expressa, em alto rendimento e pioneiramente, a chegada do neoliberalismo pelas comunidades marginalizadas de nossas maiores metrópoles (o tecido ideológico deixa sempre descobertas as beiradas), os governos de lá até aqui, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Roussef e Michel Temer, se mostraram incapazes diante da junção de herança escravocrata, racismo irrefreado e violento e acumulação pornográfica de renda (30% da renda nas mãos de 1% dos habitantes) que conduzem a essa política de massacre. Para ser racional, não há a possibilidade de considerarmos que houve algum país de sucesso por aqui nos últimos vinte anos.

Segundo, é notável que o percentual de alunos negros na universidade tenha aumentado 17 vezes e que nas federais sejam ao menos metade do corpo discente. Quem esteve na universidade pública no começo dos anos 2000 como aluno e agora lá está como professor, percebe e saúda essa diferença, que é tanto de etnia, quanto de classe. Se a universidade ainda precisa avançar muito para ser uma instituição mais democrática e popular – as políticas de auxílio aos alunos de baixa renda deixam bastante a desejar, o percentual de alunos negros na pós-graduação é muito menor do que na graduação e o número de docentes negros é mínimo –, o vislumbre de um futuro mais justo frequenta suas carteiras cotidianamente. Muitos dos alunos e alunas são os primeiros de suas famílias a ingressar no Ensino Superior, sua presença altera a dinâmica das aulas, que precisam considerar outras experiências que não aquelas da classe média e da elite brasileiras, muitos dos silenciamentos realizados na construção dos cânones, mormente de autoras e autores negros, são agora confrontados, e os objetos de pesquisa se transformaram sensivelmente.

Que esta mudança provoque de imediato uma modificação na sociedade brasileira, é evidente que não; o cotejo dos dados não permite idealismos. A máquina equalitária em que pode se converter a universidade pública – eu queria dizer “monstro equalitário”, à la Karina Buhr, mas não deu certo a metáfora – talvez seja lenta demais ou poderosa de menos na atual dinâmica do capitalismo. De todo modo, a força dessa transformação recém iniciada deverá ser mais nítida a partir da próxima geração. Se entendermos ideologia como o imaginário das classes dominantes materializado nas instituições de uma sociedade, aposto que outras dinâmicas, para além daquelas internas aos campos do saber, serão tensionadas. É difícil dizer isso, mas a geração que está hoje na universidade, docentes, discentes e técnicos, precisa entender que são o começo e não o fim desta mudança. Ao mesmo tempo, uma modificação tão radical numa estrutura quase centenária talvez aponte para que seja esse o caminho, o que significa dizer, apesar de lenta e lateral, a universidade pública acaba se tornando a porta de entrada não barrada pela elite rumo a uma sociedade democrática.

Se metade do nosso atual governo federal é perversa e a outra metade é inapta – o modo como transitam entre a sala dos inaptos e a sala dos perversos não permite que os classifiquemos com tranquilidade… –, isso não se mostra na escolha que fizeram da universidade pública como inimiga. A longo prazo, duas ou três gerações, a universidade pública é a maior ameaça à nossa elite casa-grade-&-senzala. O fim de uma universidade pública democratizante é o fechamento de uma porta pequena, mas, ao que parece, a maior que temos, para um país menos desigual, menos racista, minimamente respirável. Se você é contra a universidade pública, não há meio termo, você é contra a população brasileira, contra o Brasil. Se você é contra a universidade pública, você é a favor da desigualdade, do extermínio, da injustiça, da pobreza, da diferença. E se você consegue dormir sendo assim, (ufa! até que enfim! vem, Karina Buhr, em chave trocada) você é um monstro!

*Devo este arco à poeta e jornalista Fernanda Bastos, também colunista aqui no Literatura RS.


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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