Ana Paula Cecato: Selecionando os livros para sempre

Quando penso no ofício do mediador de leitura, me reporto a um livro, O alvo, que traz uma narrativa de origem judaico-europeia, recontada por Ilan Brenman e ilustrada por Renato Moriconi. Nesta história, um professor era frequentemente procurado pelos membros da comunidade onde lecionava para aconselhá-los, a partir de situações que lhe eram contadas. Toda vez que isso acontecia, o professor “respondia” às pessoas com uma narrativa que sempre ia ao encontro do problema. Numa de suas aulas, um aluno perguntou ao professor a maneira como ele conseguia encontrar sempre uma história reveladora. Eis que o mestre recorreu a uma história (a turma inteira foi às gargalhadas) de um arqueiro, cuja técnica apurada consagrou-se por meio da perseverança e do estudo teórico. Ao participar de uma competição na cidade de Lublin, o jovem deparou-se, perplexo, com um cercado de madeira comprido pintado com mais de cem alvos marcados no seu centro, na pontuação máxima. Depois de averiguar, de perto, os alvos, questionou-se quem teria feito tamanha perfeição. Um menino, de mais ou menos dez anos, ao ouvir a pergunta, lhe respondeu “Fui eu”, e, contou-lhe que, primeiro, tivera atirado todas as flechas e depois pintou todos os alvos em volta. Assim como o professor do reconto, o mediador de leitura combina a imagem do arqueiro, um técnico que procura eficiência em sua prática através do estudo e reflexão, mas também a imagem do menino, traduzida em ardileza e sensibilidade.

O que isso tem a ver com a seleção de livros? Arrisco-me a dizer: muito. Ao lermos um livro para a infância e juventude, nos deslocamos como meninos e meninas para uma experiência sensível de linguagem, em que é possível responder: Este livro me encanta? Este livro me convida a lê-lo com crianças ou adolescentes? O primeiro contato com o livro pode ser revelador de uma experiência que não quer que se acabe, quer ser compartilhada, escavada e devorada em seus sentidos. Porém, nem sempre funciona assim: há vezes em que se lê um livro e ele termina ali mesmo, não se mostra como um diálogo profundo com o imaginário da infância e da juventude. 

Quando um livro nos provoca, é hora de alinhar a flecha em direção ao centro do alvo e analisar alguns aspectos que constituem e caracterizam o gênero e as obras da literatura para a infância e juventude O primeiro deles é o conteúdo temático: compreende os temas que são abordados em primeiro plano nas obras. Cabe ao mediador observar de que forma são tratados temas que pertencem à vida, na sua plenitude ou na sua fraqueza, como as linguagens mediam a relação do sujeito com o mundo através de símbolos, imagens, representações. Ainda que muitos torçam o nariz, não há restrições temáticas quando há um cuidado do projeto literário de um livro ao comunicar-se com uma criança e adolescente: são muitos os livros que trazem temas desafiadores, como a morte (O pato, a tulipa e a morte, de Wolf Erlbrüch; Sangue real, de Christian David e Martina Schreiner), o medo (Lobo de estimação, de Heloisa Prieto e Janaina Tokitaka), a negligência familiar (Agora não, Bernardo, de David McKee), a raiva (A raiva, de Blandina Franco e José Carlos Lollo), o assédio (Leila, de Tino Freitas e Thaís Beltrame), o racismo (Jeremias: Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa; O ódio que você semeia, de Angie Thomas), os estereótipos de gênero (Escola de princesas recatadas, de Eliandro Rocha e Thiago Lopes).  

Como já falado em outra coluna, estamos tratando de um gênero híbrido, em que o texto, a ilustração e o projeto gráfico conversam entre si, de forma a operar os sentidos da obra. Em relação ao texto, é preciso verificar de que forma seus elementos trazem um universo verossímil, com um nível de experimentação da linguagem que convença e instigue o leitor. Crianças e jovens gostam de ser desafiados, sobretudo no âmbito da linguagem: sempre gosto de dizer que, enquanto a criança é “metáfora e aliteração”, o adolescente é “ironia e hipérbole”.  Em relação ao discurso visual, operado pela ilustração e projeto gráfico, o que entendemos como “livro lustrado” traz também um apelo ao imaginário que fomenta diálogos de sentido com o texto, não se restringindo ao conteúdo da imagem, mas também ao seu contexto de produção, às linhas, cores, proporções, figuras, espaços, ao que pode ser percebido, entendido e interpretado pelo olhar do leitor. Dessa forma, elementos como capa, contracapa, orelhas, folha de serviço, guardas, informações sobre escritores e ilustradores, informações contextualizadoras, letra, espaçamento, papel, encartes, formato do livro, tudo é  levado em conta no projeto editorial.  

Sejamos então um pouco do menino e um pouco do arqueiro, em busca de boas histórias para pintar e arriscar aventuras imaginárias com nossas crianças e jovens.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

Literatura RS

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