Atena Beauvoir: Vai se foder, quer levar uma coça?!

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Madrugada na Cidade Baixa e a expectativa do retorno do mesmo. Corotes, vinhos, amizades, artesãos, boca de rua, enfim, o território do boêmio bairro porto-alegrense. E nessa embriaguez existencial normatizamos violações que, acostumadas a questionarmos na lucidez do dia-a-dia, acabamos postergando indagações de atos machistas, sexistas, racistas, misóginos, xenofóbicos, gordofóbicos, homofóbicos e no meu caso, transfóbicos. Estas palavras não são formas de vitimizações. São expressões do sofrimento de vítimas históricas, que sofrem fisicamente, socialmente e psiquicamente. 

E materializou-se na madrugada do dia 28 de junho – data de comemoração da revolta de Stonewall liderada por mulheres trans e travestis, Marsah PJ e Sylvia R. – um pouco dessa experiência. Um rapaz ridicularizou meu existir. Eu sou acostumada ouvir, mas me desacostumei a ficar calada. Em revolta, sempre vista como louca, sem eles perceberem que a loucura eles mesmo provocavam, tive que ser controlada por um mata-leão de um “amigo”. Logicamente eu estava sendo a perturbadora do momento, ainda que o rapaz transfóbico tenha sido o perturbador da minha existência. O momento é de todos, a existência é só minha. Era melhor me jogar no chão e me calar a loucura, do que ir contra a história da humanidade naquela noite. 

Nesse meio tempo chamamos a segurança pública através do telefone de emergência. As pessoas estavam prestes a linchar o rapaz. É outra forma de violência estrutural. Não sabemos lidar com a violação da dignidade humana senão violando outras dignidades humanas. O que desejamos matar: o pecado ou o pecador?

Mas, infelizmente, o cosmos existencial ou as divindades, ou o acaso, ou o nada, fizeram com que eu presenciasse a noite de Stonewall – onde policiais que não receberam propina do bar nova-iorquino, começaram a violentar os frequentadores LGBTs+. Após 30 minutos de espera e nenhuma viatura atendendo nosso pedido, ainda que duas houvessem passado vagarosamente no local solicitado, atravessei a rua ao observar outras duas viaturas paradas em atendimento. Seis policiais para um sujeito dentro de um carro. Eu somente fui questionar a demora do atendimento e as viaturas passeando na Cidade Baixa enquanto eu aguardava o registro. Os soldados me atenderam com nervos. Não sei qual era a situação com o rapaz do carro, mas eu sabia de mim e precisava ter alguma informação sobre a demora do meu atendimento. Uma soldada pediu que eu falasse mais baixo. Outro pediu que eu aguardasse ao lado. Até que um soldado que eu não consegui ler o nome por não encontrar o identificador no peito, portando uma arma maior que seus braços me diz: “Vai te foder, tu quer levar uma coça?!”.

Eu observei atônita. Meus amigos ao redor ficaram atônitos. Eu olhei seriamente e redargui: “É esse atendimento que diz no procedimento da instituição de vocês?” e observava os outros soldados constrangidos, mas rígidos, sem pestanejarem em suas máscaras sisudas. “Então, me dá uma coça. Me bate. Agora!” eu respondi de forma séria. Se esse fato ocorresse, seria a terceira violação da noite. Mas certamente, entre o rapaz que me deu um mata-leão e o soldado que me ameaçou, a que representa o Estado, certamente me preocupou. 

Deixamos o local, sem atendimento das duas viaturas e aguardamos uma outra chegar, até que chegou. Fizemos a complexa ocorrência com novos soldados sem tato e habilidade para a segurança humana de quem havia sido violada duas vezes. Mas eu não posso reclamar. Quantas outras existências sequer tinham a possibilidade de questionar tal poder, pois seus corpos já estavam largados nas sarjetas em sangue e pólvora? Não morrer não é sorte. É privilégio num país como o nosso!

Passei o final de semana refletindo. Ir para a corregedoria e registrar os abusos, sendo que era o segundo vindo de um policial. O primeiro havia sido um outro, mês passado, que ria da minha cara questionando a veracidade da minha fala contra o segurança transfóbico de um supermercado. E se eu fosse perseguida? Se um soldado sem saúde mental estável me rastreasse e algo pior acontecesse? – Resolvi silenciar. 

Mas não!

Eu escolhi ser chamada de Atena por muitos motivos e um deles é: a diplomacia que o conhecimento pode gerar. O outro é: sempre vencia qualquer guerra violenta se utilizasse de estratégia correta. Qual seria minha arma? A minha literatura, pois. Tendo quatro livros publicados e seria somente o dinheiro e a publicidade dos mesmos meu foco? 

Minha literatura deve me defender! 

É meu escudo! É minha arma! É minha existência. É a minha dignidade!

Uma semana depois o coordenador geral da polícia do meu estado me recebia em seu gabinete no quartel da capital para receber um exemplar de Contos Transantropológicos e aceitar a doação de uma parcela de livros para os 400 soldados do batalhão de onde pertenciam aqueles soldados. Não podemos generalizar a representação de um indivíduo para toda uma estrutura. E não é porque um soldado agiu de maneira indigna que todos o farão. O pecado ou o pecador?!

A arte só é política para quem pode ser morto no outro dia.

O resto é burguesia existencial!

Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

Literatura RS

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