Guto Leite: Qualquer coisa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Você quer alguma coisa, qualquer coisa – uma pizza, um livro, um apartamento… –, pega o seu celular, que já tem um cartão de crédito gordo, habilitado, e, voilà, uma hora depois, a não ser que seja o apartamento, lá está sua coisa chegando de motoboy, de rappi. Parece perfeito, não é? Não, não vou falar da precarização agressiva dos novos modelos de entrega à domicílio. Vou sim, na verdade, mas não diretamente.

Quem tem mais de trinta anos se lembra de um mundo em que o desejo, mesmo quando se tinha grana sobrando, o que não era o meu caso, deveria caber em certos limites. Isso é, tinha que saber querer e só dava pra querer entre isso e aquilo. Existiam algumas opções, mas não dezenas. Se morasse longe, meia dúzia. Se não tivesse dinheiro, uma ou duas, e assim vai. Que mundo horrível!, pensa a gurizada. É, era ruim mesmo. O mundo quase sempre é meio ruim. Mas numa coisa, ao menos, era melhor, nos acostumávamos com não ter algo. Veja bem, o verbo é importante, “ter”. As oportunidades também eram limitadas e também nos contentávamos em não “ser” algo, mas não estou falando disso. É complicado. O mundo também tem dessas, são várias coisas ao mesmo tempo. Quem mudou isso no Brasil foi o Collor e depois o FHC aprimorou.

Voltando, a camiseta era esta ou aquela. A bala era esta, ou aquela, ou aquela outra. E assim a gente ia. Quando não tinha – o verbo “ter” aqui engana um tanto –, a gente dizia “a vida é assim mesmo”, e vestia outra coisa, comia outra coisa, fazia a coisa a gente mesmo etc. Foda-se. Era um mundo de uma indústria bem menos desacelerada e de propagandas menos onipresentes, a máquina não estava pronta para farejar os desejos e criar coisas novas a partir deles, nem para inculcar na gente os desejos certos para que eles nos deem aquilo que queremos.

Hoje não, hoje é uma beleza. Ainda mais que eu subi de vida, sou professor universitário, classe bem média. Eu quero uma coisa e tem Ifood, tem Estante Virtual, tem Netflix, tem Airbnb, tem Tinder, tô mentindo? E tem hora que parece que eles escutam meu pensamento ou quando eu falo perto demais do celular. Mal sei que estava querendo e a coisa já vem na promoção. Qualquer dia toca a campainha e alguém me entrega o que vou querer na semana que vem.

Eu fico pensando, que não sou bobo, como é que eles vão fazer quando eu não quiser aquilo que eles têm pra me oferecer? Vamos supor, eles descobriram que lucram muito produzindo um certo refrigerante, mas daí os médicos descobrem que o certo refrigerante contribui com a osteoporose, com a obesidade, com o diabetes. Que azar o deles, né? Eles vão precisar desmontar todo o esquema, cento e trinta anos de esquema, e recuar, contra as evidências irrefutáveis da medicina.

Ou então se um jornalista – segundo o Censo do ano passado, ainda existem trezentos e poucos jornalistas atuando no país – descobrir que políticos de vida criminosa, ligações escusas, passado deplorável, acabaram sendo eleitos numa combinação de interesses das burguesias local e internacional? Que azar! É claro que a justiça impediria algo inaceitável em uma democracia e teríamos que escolher de novo nossos governantes.

Não sei, mas acho que eu custo menos para o sistema capitalista do que os produtos que esse sistema faz pra mim. Daí talvez a mercadoria esteja no centro e não eu, supostamente, um indivíduo. Pensando em ideologia, isso poderia fazer com o ideal dos indivíduos mimetizasse o ideal das mercadorias – coerência, eficiência, versatilidade, resiliência; enquanto hesitação, ambivalência, contradição, enigma e abismo estariam por fora. Puxa, daí os ofícios que requerem humanidade teriam um baita problema, porque os mais bem sucedidos se tornariam aqueles que podem ser comprados, com ou sem dinheiro, como as coisas. Ou mesmo que não pudessem ser comprados, que agissem como se pudessem ser comprados. Professores, juízes, jornalistas, médicos, artistas; os melhores seriam os mais parecidos com as melhores coisas, tipo Apple, IJudge. E se eu, como consumidor, sou tão bom, tão o centro de tudo, tão o senhor da minha perspectiva, da minha história, por que eu deveria ouvir o outro? Por que deveria acreditar mais numa notícia do que numa corrente no whats? Por que deveria ter referências de pessoas que já morreram, que moram longe, que não viveram o que eu vivi? Eu sei o que eu quero, e eu posso querer muita coisa. Sou mais eu, rapá, poderosão e tal. O capitalismo comprou todos os meus recalques e vende por aí. Daí também, né, vamos combinar, nada a ver fazer qualquer tipo de concessão à minha felicidade para salvar floresta, escolher profissão que paga mal, coisa sem futuro, cuidar de criança, credo, cada um com seus problemas, bicho. Precisa de uma aldeia pra educar uma criança… Ha ha ha, esses índio são foda. É que eles não conhecem Playkids.

Em duzentos anos, 4 ou 5 graus mais calientes, ai, ai, ai, não teremos classe média, só super ricos e miseráveis.

Hoje de manhã fui à praia e vi umas dez pessoas entrarem no mar, em duas horas. Nas cadeiras e na areia, muita gente, muita gente, o tempo todo, fazendo selfie.


Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

Literatura RS

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