Maiara Alvarez: não estou em casa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Como eu? Ou mais que eu? Teriam as pessoas comparações? Nos jogaríamos no mar com a mesma força?

Quando era um bebê, fui solta pelos meus aprendizes pai e mãe à frente do mar. Foi tocar a areia que meus joelhos e mãos, experientes membros engatinhantes, se dirigiram trotando para a água salgada. Foi quase na primeira onda que meu alto pai me levantou ao céu, colocando suas mãos embaixo dos meus braços e envolvendo meu corpo:

— Onde você ia, pequena?

Não sei se foi exatamente isso que ele falou, mas gosto de pensar que sim. Mas ele fala você com um som meio que da letra b no início, e não fala pequena, fala petisa.

— Onde bocê ia, petisa?

Não, petisa era minha mãe. Eu era a gorda. Pra mãe e pro pai, até hoje, quando se falam a quilômetros de distância: lembra do que a gorda fez aquele dia?

— Onde bocê ia, gorda?

Quando conheci a mariam, salvo engano, ela ainda se chamava marian, mas, sem sombra de dúvidas, já era mar absoluto. E o que mais me chamou atenção nela é que me senti em casa. Por um momento, não estava mais à deriva.

Recentemente e por motivos pessoais, tenho repensado o que é casa, e só cheguei à conclusão que muito pouco tem a ver com teto. Embora precise de um teto, já reinventei minha casa várias vezes. Mas não moro poeticamente dentro de mim, me espalho mesmo. Entretanto, às vezes sinto falta de uma raiz ou outra. E na mariam encontrei um pouco dessa raiz, mais como uma alga perdida num mar gelado, é verdade. Ela tem o mesmo sotaque que meu pai, embora um rio, que desemboca no mar, separe os seus lugares de nascença. Ela na Argentina, ele no Uruguai. Ele, hoje, vive na Argentina. A mariam está há muitos anos aqui, em Porto Alegre. Hoje eu e ela vivemos na mesma cidade.

Quanto entrei na leitura de Grito de mar, o livro de poemas lançado pela Editora Taverna no final de abril deste ano, de mariam pessah, não tinha muitas dúvidas do quanto uma escrita em poemas bilíngues ia me encantar. Queria me afogar. Não sabia, entretanto, de que forma isso ia acontecer.

Não falo argentinês, como a mariam. Tampouco creio que falo uruguaiês. Falo uma mistura do que conheço do — imperialmente chamado — espanhol. Foi o suficiente para mergulhar de cabeça nos dois lados da abertura de página. Desfrutei tanto o lado brasileiro como o argentino.

mariam gritou de raiva, me lambeu em mais de uma língua, me enredou em palavras, agonizamos juntas, invejei suas namoradas e me tornei sua amiga. O ritmo de seus poemas não era exatamente o mesmo para cada lado, nem escolheu ela sempre por traduções literais. mariam entende o que pode fazer em cada um dos dois idiomas que fala e que escreve. E faz com maestria. Aliás, tanto a sonoridade dos poemas, quanto sua beleza na palavra escrita no papel, revelam a intencionalidade do que quer causar na pessoa leitora. Cada letra, fonema, toda a poesia está pensada para o emocional e para o político e para onde eles se encontram e se arrebentam como ondas. E, nesse mesmo mar, perdem suas fronteiras, são parte de um todo, de um mar absoluto.

Se não temos raízes, ou se nos perguntamos por elas, que sejamos absolutas y que seamos mar.

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“minha língua é sempre estrangeira
porque habito la puente del mar
sem língua
sem nação
sin frontera”
mariam pessah, nas páginas 20 e 21 do livro Grito de mar, Editora Taverna

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Grito de mar é uma coletânea bilíngue de poesia argentina e brasileira. Foi lançado no final de abril de 2019 pela Editora Taverna, em Porto Alegre. A revisão foi feita pela uruguaia radicada em Porto Alegre, Adriana Carina Camacho Álvarez. A autora, mariam pessah, organiza em Porto Alegre o Sarau das Minas, que busca visibilizar a escrita de autoria de mulheres. É ARTivista feminista e graduada em Escrita Criativa pela PUCRS. Além de participar em antologias, Grito de mar é seu quarto livro.

Grito de mar
mariam pessah
126 p.
13 cm X 20 cm
978-85-94265-06-7
R$ 39,90
Editora Taverna

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Literatura RS

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