Ana Paula Cecato: De onde vêm os leitores? Do que se alimentam?

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Todos nós, agentes da cadeia do livro, temos em comum o desejo de que os livros cheguem a todos os lugares e a todas as pessoas. Nosso desejo é motivado por várias razões, algumas delas meramente mercadológicas, outras mais humanizadoras, digamos assim. Mas há, nessa discussão sobre a democratização da leitura, algumas questões estruturantes, as quais me parecem ser desconsideradas nos grandes meios de circulação literária: de onde vêm os leitores? Do que se alimentam? É só olhar para uma programação de evento literário, para um currículo de curso de Letras, para uma banca de livros, para uma biblioteca pública, e lá está ela, de canto, classificada como “nicho”, ou, pior, inexistente: a literatura para a infância e a adolescência. 

A falta de lugar da LIJ gera um desrespeito a essa produção, até por quem deveria conhecê-la e consumi-la: a cadeia mediadora do livro, entendida como professores, promotores de eventos literários, bibliotecários. Explico: não é raro o pedido por parte de escolas, bibliotecas e eventos literários que os autores de LIJ façam atividades gratuitas nestes espaços, como se fossem “brindes” (termo cunhado pela autora e especialista em LIJ Anna Claudia Ramos), quando não são solicitados a realizarem doações de livros. Os mediadores de leitura, muitos formados em universidades, passam uma graduação inteira sem conhecer a produção contemporânea de literatura para a infância e juventude. No caso do bibliotecário e do professor, o livro de LIJ os acompanhará nas bibliotecas e nas escolas como ferramenta pedagógica e cultural, muito mais do que a produção “adulta”, a quem é dado amplo debate, também necessário.  

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Outro aspecto, já abordado em colunas anteriores, é a escolha equivocada do acervo de LIJ, pautada em critérios que não levam em conta a qualidade dos projetos editoriais dos livros tampouco as vozes e os interesses dos leitores. Aqui vale lembrar que não é exclusividade dos espaços formadores tamanho equívoco: perdi a conta de quantas vezes indiquei livros para famílias em livrarias, mudei a ordem dos livros nas estantes para que os bons estivessem em destaque, e reclamei da má qualidade da oferta de LIJ. Em eventos literários, sobretudo os mais badalados, a produção de LIJ (autores e livros) é colocada como “pequeninha”, ou em espaços infantis, com muito enfeite e pouca literatura. 


Tal circuito de invisibilidade da LIJ causa danos em toda a sociedade que se quer democrática e mais leitora: quando não formamos leitores na infância e na juventude, boa parte da sociedade não terá acesso a um repertório de vida imaginária e um universo linguístico que lhes possibilitará o reconhecimento da escrita e da leitura como práticas que envolvem conquistas sociais e a investigação e compreensão dos discursos que circulam na vida. Também, é importante que se afirme, embora óbvio, que a LIJ é, acima de tudo, literatura, tal qual a que é feita para “adultos”, e  pode e deve ser caracterizada como boa ou ruim; a literatura para a infância e juventude carrega na sua constituição como gênero híbrido algumas especificidades, as quais não a diminuem, pelo contrário, potencializam seus sentidos, não a endereçando apenas às crianças e adolescentes, mas a todos os leitores curiosos e sensíveis das palavras e das imagens.

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Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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Literatura RS

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