Livro de Priscila Pasko tem foco nas mulheres e nas tensões presentes no cotidiano

Texto: Riobaldo Comunicação
Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

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A escritora e jornalista Priscila Pasko lança Como se mata uma ilha no dia 16 de novembro, às 18h, na livraria Baleia (Rua Fernando Machado, 85 – Centro Histórico – Porto Alegre/RS). Primeiro livro de contos da autora, a obra traz 37 narrativas líricas e filosóficas, textos curtos que apresentam as mulheres como protagonistas: são tias, avós, irmãs, vizinhas que se relacionam, observam a si mesmas e o mundo.

A relação entre mulheres é representada no diálogo que Priscila trava com outras escritoras, sotaques percebidos nas epígrafes e na própria escrita. Nos contos, estão também mães e filhas, as zonas sombrias e ensolaradas da maternidade. O cotidiano ganha importância nos pequenos fragmentos, deixando evidente o lirismo que cerca os pequenos gestos. Está presente em um passeio de ônibus pelos bairros nobres da cidade (Pela janela) ou na menina que observa atenta a fervura do leite (Lava de leite).

Contudo, quanto mais a leitura avança, o tom sombrio e, por vezes, incômodo, se instala. Pesadelos invadem a vigília (Noite convulsa); grávidas se negam a parir e prometem vingança (Nem que caia o céu) e o simples ato de descascar batatas se revela uma batalha permeada de reflexões filosóficas. As narrativas ganham intensidade, “deixando a leitora e o leitor em estado de suspense”, como observa a professora da UFMG Constância Lima Duarte, na orelha do livro. Priscila não tenta explicar, diz a psicanalista e escritora Diana Corso, no prefácio do livro, “apela à sabedoria que só a poesia empresta”.

Como se mata uma ilha é o primeiro livro de contos inéditos de Priscila Pasko. Antes dele, a autora publicou, também pela Editora Zouk, na antologia Novas contistas da Literatura Brasileira, em 2018. Priscila Pasko é jornalista freelancer. Entre 2015 e 2018, manteve no site Nonada – Jornalismo Cultural, o blog Veredas, espaço no qual divulgava e discutia a literatura produzida por mulheres.

Leia um conto abaixo.

Céu de amarelinha

Eram 7h15 quando a primeira menina saltou da janela. Até hoje certeza não há da hora nem da criança precursora. A única evidência naquela manhã era o chão, céu de amarelinha. Aos poucos, as janelas foram sendo abertas por mãos pequenas que afastavam cortinas e persianas, para em seguida revoarem pipa por instantes no ar.

Na sequência, o som dos tombos secos gotejando sobre as calçadas revelava o quanto a candura pode ser grotesca. Jogavam-se, as crianças. Pontos coloridos, roupinhas com motivos alegres despencando dos prédios. Todas elas, sem desespero aparente, voluntariosas. Vinde a mim as criancinhas. Entre a velocidade da queda e a lentidão dos gestos, mergulhavam na efemeridade enquanto olhinhos pequenos de mamãe e os cachinhos ao vento miravam o pânico dos pais. Os gritos agudos e breves em uníssono, ecoando de uma montanha-russa sem trilhos sobre a cidade.

Penduradas aos fios, algumas delas atingiam a fiação dos postes de luz. Confetes de nervos e ossos suspensos. Enquanto isso, Pietàs delirantes corriam pelas ruas atrás de seus filhos, por entre chupetas, carrinhos de plástico e bonecas que, segundos antes, estavam em poder dos pequenos. As crianças em ruínas antes da chegada do tempo, antes do sangue que brotaria delas. Dente de leite escapando da boca da calamidade.

Dos hospitais, das delegacias, das sirenes, ninguém sabia a razão do ocorrido, que prosseguiria enquanto o sol não descansasse. Entretanto, o que aterrorizou mesmo, o que deixou todos estarrecidos é de que, até as primeiras horas da manhã, até às 7h15, até o instante da primeira criança, do primitivo salto, aquela parecia ser uma manhã como qualquer outra.

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Como se mata uma ilha
Contos
Priscila Pasko
80 p.
13 x 18 cm
978-85-8049-093-0
R$30
Editora Zouk

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Da assessoria

Literatura RS

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