Ana Maria Gonçalves: “O Brasil fala sobre escravizados como uma massa, então foi importante para mim pessoalizar essa história”

Texto: Thaís Seganfredo/Nonada
Arte: Giovani Urio sobre foto de Adrise Ferreira/CRL

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Na profusão de centenas de atividades diárias da Feira do Livro de Porto Alegre todo ano, algumas marcam a vida cultural de Porto Alegre. A conversa com a escritora Ana Maria Gonçalves na noite dessa terça-feira (13) foi um desses momentos, em uma mesa realizada pela Bienal do Mercosul. Aristocratas, brancas e heteronormativas, Bienal e Feira pouco a pouco vão se rendendo ao espírito do tempo, menos por atos vanguardistas (qualidade rara entre as instituições culturais gaúchas) e mais pela ação de quem reivindica o protagonismo no fazer artístico e na construção social e cultural do Brasil.

Kehinde, personagem criada por Ana no livro Um Defeito de Cor (2006), é uma representante das mulheres inquietas que reconquistam seus destinos. Nas palavras do professor da Uergs e doutorando em Artes Visuais Igor Simões, integrante da equipe curatorial da Bienal 12, “Kehinde é uma seta pra a Bienal, que vai falar sobre femininos, afetos e visualidades. A Bienal tem realizado em 2019 uma série de encontros entre público e instituição, com o nome Território Kehinde, em preparação para a edição de 2020.

Com participação da historiadora da arte Izis Abreu e da atriz Dedy Ricardo, a mesa encerrou um dia de atividades dedicados a Kehinde, com a presença da própria autora desse romance histórico que constrói a vida dos primeiros escravizados negros no país. “A Kehinde é uma personagem que fez um pacto de sobrevivência a qualquer custo. Ela tem como missão sobreviver e, para isso, ela faz o possível e o impossível e ela vence todas as batalhas”, descreveu Ana.

Para a autora, temos o dever histórico de recuperar o protagonismo dos negros na conquista do fim da escravidão, fato atribuído à princesa Isabel. “A Kehinde é representante desses escravizados e escravizadas que tomaram o destino nas próprias mãos e também representa o posicionamento que nós hoje temos com relação à nossa história”, explicou a autora.

Um dos pontos abordados na conversa foi a construção da personagem, escrita de forma a se afastar da romantização. De acordo com Ana, o que move a personagem é a convicção de que não existe nenhum ato cometido por Kehinde que possa ser tão cruel quanto o que estão cometendo contra ela. O verbo no tempo presente não deixa esquecer que injustiças e violências seguem sendo praticadas contra as pessoas negras e, segundo a autor, contra outros grupos como os povos indígenas e pessoas Lgbt.

A coletividade é negra

Adrise Ferreira/CRL

Como apontou Igor, “Um defeito de Cor foi importante para nos criar uma memória daquilo que sempre nos foi contado pelo outro. O livro traz outras perspectivas historiográficas, como a alfabetização e o letramento”. Nesse sentido, essas perspectivas foram contadas com base em muita pesquisa feita por Ana. A escritora contou que escrever o livro foi um “mergulho de 5 anos”, entre os quais dois de pesquisa de dados e documentos históricos, um ano de escrita e mais dois de reescrita.

Publicitária de formação e profissão, Ana elencou motivações que a fizeram escrever o livro de 950 páginas, atualmente já na 22ª edição. “Venho de uma família miscigenada, minha mãe é negra e meu pai é branco. As pessoas sempre tentaram apagar o que de negritude há em mim, dizendo que por eu ser ‘clarinha’, não ‘precisava’ dizer que eu era negra.” Nesse processo, contou Ana, o livro foi também uma forma de ela se entender e refletir sobre si enquanto mulher negra.

A necessidade de contar a história que não é contada oficialmente no Brasil foi outra motivação que levou Ana à empreitada. A partir de uma provocação de Jorge Amado sobre a história dos escravizados malês, Ana passou a refletir sobre como a história – e as rebeliões –  dos escravizados nunca é contada nas escolas. “Comecei então a pesquisar sobre a Rebelião Malê e, na pesquisa, descobri a figura da Luisa Mahin. Eu quis saber quem foi essa mulher que liderou essa rebelião muçulmana e comecei a criá-la a partir de dois poemas de Luís Gama e de cartas autobiográficas, preenchendo os vácuos da história com a ficção”, relembrou.

O que era para ser um livro sobre um episódio da história virou o capítulo 7 da obra, na medida em que Ana deu continuidade à pesquisa em documentos e na história da imprensa, compondo, então, uma obra baseada em muitas vidas. “A Kehinde é uma colcha de retalhos de pelo menos umas 400 mulheres”, contou a autora, destacando o fato de que a coletividade é um valor essencial para a população negra, especialmente as mulheres. “Pensar só em si mesmo é uma coisa branca”, já a coletividade é negra, resumiu.

Essa coletividade, no entanto, não acarretou o apagamento das individualidades dos personagens, um cuidado que autores e historiadores brancos nunca tiveram. “Uma das coisas importantes do livro é a pluralidade de vozes. Um determinado fato pode ser contado de diversas maneiras. Sempre se falou no brasil sobre escravizados como uma massa, como ainda se fala da África quase como se fosse um só país. Então, para mim, era muito importante pessoalizar essa história”, disse, destacando também que muitos escravizados eram vendidos em lotes.

Racismo que persiste

Respondendo a uma pergunta sobre a aceitação dos leitores brancos à obra, que, segundo uma pessoa da plateia, poderia criar “um muro intransponível”, Ana respondeu que não escreveu o livro para ensinar os brancos. “Não tenho que tomar para mim o papel de educadora de um país que nunca tentou se entender.”

Poucos minutos depois, contudo, o racismo a levou ironicamente a ter que assumir esse papel ao responder a um comentário de outra pessoa branca. Ecoando a fala de Izis Abreu sobre o não reconhecimento da mão-de-obra negra escravizada e sua contribuição forçada para a economia do Rio Grande do Sul, um idoso pediu a palavra para afirmar que sua família “era dona de escravos” e que, após a libertação, eles haviam escolhido ficar na fazenda porque “foram bem tratados.” A escritora respondeu: “Não dá para aceitar esse tipo de comentário. Estou aqui perdendo meu tempo dentro da conversa para dizer que a escravidão não era boa.”

O comentário surreal fez refletir sobre quantas Kehindes serão necessárias para derrubar o racismo que persiste, velado ou não, especialmente em um estado com o RS que, como destacou Igor, entre todas as pessoas negras da história e da cultura do estado, valoriza apenas aquele que foi jogado às formigas, o Negrinho do Pastoreio.

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Publicado em parceria com Nonada – Jornalismo Travessia

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Thaís Seganfredo é editora do Nonada, sócia-diretora da Riobaldo Conteúdo Cultural e graduada em Jornalismo pela Ufrgs.

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Uma resposta para “Ana Maria Gonçalves: “O Brasil fala sobre escravizados como uma massa, então foi importante para mim pessoalizar essa história”

  1. A obra de Ana Maria nos leva muito mais além de reflexões.
    Nos sugere quebrar paradigmas, Boa leva a evolução como seres humanos. Nos faz repensar valores e crenças.

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